


Nota: Este livro foi escaneado por Joana Belarmino e corrigido por
Edith Suli, para uso exclusivo de deficietes visuais, de acordo com a
lei brasileira de direitos autorais.

Dezembro de 2000
***


HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

Rowling, J. K. (Joanne K.)

Ttulo original
HARRY POTTER AND  Philosopherr Stone
Primeira publicao na
Gr-Bretanha em 1997 pela
Bloomsbury Publishing Plc,
38 Soho Square, London W 1 V 5DF
Copyright do terto (r) Joanne Rowling, 1997
Arte de capa (r) Wamer Bros. A division of
Time Warner Entertainment Company L. P.
Direitos desta edio reservados 
EDITORA ROCCO LTDA.
Rua Rodrigo Silva, 26 - 5 andar
20011-040 - Rio de Janeiro, RJ
Tel.: 507-2000 - Fax: 507-2244
e-mail: rocco@rocco.com.br
www.rocco.com.br
Printed in Brazil/Impresso no Brasil
preparao de originais
MNICA MARTINS FIGUEIREDO
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Na#cional dos Editores de Livros, RJ
R788h
Rowling, J. K. (Joanne K.)
Harry Potter e a pedra filosofal / J. K. Rowling; traduo de Lia
Wyler - Rio de Janeiro: Rocco, 2000
Traduo de: Harry Potter and the Philosopher's Stone
ISBN 85-325-I101-5
1. Literatura infanto-juvenil. I. Wyler, Lia. II. Ttulo
99-1713. CDD-028.5
CDU-027.5

Para Jessica, quegosta de histrias,
ParaAnne, quegostava tambm,
e para Dz; que foi quem ouviu esta primeiro.
/


nota da orelha do livro
Um beb  deixado  porta da famlia Dursley, com uma carta que explica
quem ele  e quais os mistrios que envolvem sua sobrevivncia, aps um
duelo no qual seus pais morreram.
Onze anos mais tarde, Harry Potter recebe o melhor dos presentes de
aniversrio: descobre que  um bruxo e como tal deve ser educado.
Conduzido por Rbeo Hagrid, o doce e atrapalhado gigante ruivo, Harry
inicia sua trajetria no cotidiano da magia. Na escola de bruxaria de
Hogwarts, sob a direo do sbio prodessor Alvo Dumbledore, ele
aprende a fazer poes, feitios, a transformar coisas, e a "pilotar"
uma vassoura. Enfrenta as dificuldades normais de um principiante e alguns
obstculos a mais lhe so impingidos por sua fama. Afinal, Harry Potter,
mesmo sem saber, terrotou o mais terrvel dos feiticeiros.
Agora, para prosseguir vitorioso, precisa aprender a dominar a sabedoria
contida em valores simples da vida como a amizade, a perseverana e o amor.

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Britnica, 34 anos, J. K. Rowling  autora da srie Harry Potter, que j
foi vendida em 42, pases e traduzida para 31 idiomas.
Para se manter em Edimburgo, na Esccia, comea a escrever o primeiro
livro da srie, no caf local. Recebe ento um prio inaudito do Scottish
Arts Council, que permite que Rowling conclua seu trabalho. A partir da,
o romance de estria da autora torna-se um fenmeno internacional acumulando
crticas entusiastas e prmios importantes como o British Book Awards
Children's Book of the Year, e o Smarties Prize.

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Harry Potter  um garoto comum que vive num armrio debaixo da escada da
casa de seus tios. Sua vida muda quando ele  resgatado por uma coruja e
levado para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. L ele descobre tudo
sobre a misteriosa morte de seus pais, aprende a jogar quadribol e enfrenta,
num duelo, o cruel Voldemort.
Com inteligncia e criatividade, J. K. Rowling criou um clssico de nossos
tempos. Uma obra que rene fantasia e suspense num universo original atraente
para crianas, adolecentes e adultos.


- CAPTULO UM -
O menino que sobreviveu

O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, se orgulhavam
de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.
Eram as ltimas pessoas no mundo que se esperaria que se metessem
 em alguma coisa estranha ou misteriosa, porque simplesmente
no compactuavam com esse tipo de bobagem.
O Sr. Dursley era diretor de uma firma chamada Grunnings,
que fazia perfuraes. Era um homem alto e corpulento quase
sem pescoo, embora tivesse enormes bigodes. A Sra. Dursley era
magra e loura e tinha um pescoo quase duas vezes mais comprido
que o normal, o que era muito til porque ela passava grande
parte do tempo espichando-o por cima da cerca do jardim para
espiar os vizinhos. Os Dursley tinham um filhinho chamado
Dudley, o Duda, e em sua opinio no havia garoto melhor em
nenhum lugar do mundo.
Os Dursley tinham tudo que queriam, mas tinham tambm
um segredo, e seu maior receio era que algum o descobrisse.
Achavam que no iriam agentar se algum descobrisse a existncia
dos Potter. A Sra. Potter era irm da Sra. Dursley, mas no se
viam havia muitos anos; na realidade a Sra. Dursley fingia que no
tinha irm, porque esta e o marido imprestvel eram o que havia
de menos parecido possvel com os Dursley. Eles estremeciam s
de pensar o que os vizinhos iriam dizer se os Potter aparecessem
na rua. Os Dursley sabiam que os Potter tinham um filhinho, tambm,
mas nunca o tinham visto. O garoto era mais uma razo para
manter os Potter a distncia; eles no queriam que Duda se misturasse
com uma criana daquelas.
Quando o Sr. e a Sra. Dursley acordaram na tera-feira montona
e cinzenta em que a nossa histria comea, no havia nada
no cu nublado l fora sugerindo as coisas estranhas e misteriosas
que no tardariam a acontecer por todo o pas. O Sr. Dursley
cantarolava ao escolher a gravata mais sem graa do mundo para ir
trabalhar e a Sra. Dursley fofocava alegremente enquanto lutava
para encaixar um Duda aos berros na cadeirinha alta.
Nenhum deles reparou em uma coruja parda que passou, batendo
as asas, pela janela.
s oito e meia, o Sr. Dursley apanhou a pasta, deu um
beijinho no rosto da Sra. Dursley e tentou dar um beijo de despedida
em Duda mas no conseguiu, porque na hora Duda estava
tendo um acesso de raiva e atirava o cereal nas paredes.
- Pestinha - disse rindo contrafeito o Sr. Dursley ao sair de
casa. Entrou no carro e deu marcha  r para sair do estacionamento
do nmero quatro.
Foi na esquina da rua que ele notou o primeiro indcio de que
algo estranho ocorria - um gato lia um mapa. Por um instante o
Sr. Dursley no percebeu o que vira - em seguida virou rapidamente
a cabea para dar uma segunda olhada. Havia um gato de
listras amarelas sentado na esquina da rua dos Alfeneiros, mas no
havia nenhum mapa  vista. Em que estaria pensando naquela
hora? Devia ter sido um efeito da luz. Ele piscou e arregalou os
olhos para o gato. O gato o encarou. Enquanto virava a esquina e
subia a rua, espiou o gato pelo espelho retrovisor. Ele agora estava
lendo a placa que dizia rua dos Alfeneiros - no, estava olhando
a placa: gatos no podiam ler mapas nem placas. O Sr. Dursley
sacudiu a cabea e tirou o gato do pensamento. Durante o caminho
para a cidade ele no pensou em mais nada exceto no grande pedido
de brocas que tinha esperanas de receber naquele dia.
Mas ao sair da cidade, as brocas foram varridas de sua cabea
por outra coisa. Ao parar no costumeiro engarrafamento matinal,
no pde deixar de notar que havia uma quantidade de gente
estranhamente vestida andando pelas ruas. Gente com capas largas.
O Sr. Dursley no tolerava gente que andava com roupas ridculas
- os trapos que se viam nos jovens! Imaginou que aquilo
fosse uma nova moda idiota. Tamborilou os dedos no volante e
seu olhar recaiu em um grupinho de excntricos parados bem
perto dele. Cochichavam excitados. O Sr. Dursley se irritou ao ver
que alguns deles nem eram jovens; ora, aquele homem devia ser
mais velho do que ele, e usava uma capa verde-esmeralda! Que
petulncia! Mas ento ocorreu ao Sr. Duxsley que se tratava
provavelmente
de alguma promoo boba - essas pessoas estavam
obviamente arrecadando alguma coisa... , devia ser isto! O trfego
avanou e alguns minutos depois o Sr. Dursley chegou ao estacionamento
da Grunnings, o pensamento de volta s brocas.
O Sr. Dursley sempre sentava de costas para a parede em seu
escritrio no nono andar. Se no o fizesse, talvez tivesse achado
mais dificil se concentrar em brocas aquela manh. Ele no viu as
corujas que voavam velozes em plena luz do dia, embora as pessoas
na rua as vissem; elas apontavam e se espantavam enquanto
coruja atrs de coruja passava no alto. A maioria jamais vira uma
coruja mesmo  noite. O Sr. Dursley, porm, teve uma manh
perfeitamente normal sem corujas. Gritou com cinco pessoas
diferentes. Deu vrios telefonemas importantes e gritou mais um
pouco. Estava de excelente humor at a hora do almoo, quando
pensou em esticar as pernas e atravessar a rua para comprar um
pozinho doce na padaria defronte.
Esquecera completamente as pessoas de capas at passar por
um grupo delas prximo  padaria. Olhou-as com raiva ao passar.
No sabia o porqu, mas elas o deixavam nervoso. Essas cochichavam
agitadas, tambm, mas ele no viu nenhuma latinha de coleta.
Foi ao passar por elas, na volta, levando uma grande rosca aucarada
em um saco, que entreouviu algumas palavras do que diziam.
... Os Potter,  verdade, foi o que ouvi...
... , o filho deles, Harry...
O Sr. Dursley parou de repente. O medo invadiu-o. Virou a
cabea para olhar as pessoas que cochichavam como se quisesse
dizer alguma coisa, mas pensou melhor.
Atravessou a rua depressa, correu para o escritrio, disse rispidamente
 secretria que no o incomodasse, agarrou o telefone e
quase terminara de discar o nunero de casa quando mudou de
idia. Ps o fone no gancho e alisou os bigodes, pensando... no,
estava agindo como um idiota. Potter no era um nome to fora do
comum assim. Tinha certeza de que havia muita gente chamada
Potter com um filho chamado Harry. Pensando bem, nem sequer
tinha certeza de que o sobrinho teve o nome de Harry. Jamais vira
o menino. Talvez fosse Ernesto. Ou Eduardo. No tinha sentido
preocupar a Sra. Dursley, ela sempre ficava to perturbada  simples
meno da irm. No a culpava - se ele tivesse uma irm como
aquela... mas mesmo assim, aquelas pessoas de capas...
Achou bem mais dificil se concentrar nas brocas aquela tarde
e quando deixou o edificio s cinco horas, continuava to preocupado
que deu um encontro em algum parado ali  porta.
- Desculpe - murmurou, quando o velhinho cambaleou e
quase caiu. Levou alguns segundos at o Sr. Dursley perceber que
o homem estava usando uma capa roxa. No parecia nada aborrecido
por ter sido quase jogado ao cho. Ao contrrio, seu rosto se
abriu em um largo sorriso e ele disse numa voz esganiada que fez
os passantes olharem:
- No precisa pedir desculpas, caro senhor, porque nada
poderia me aborrecer hoje! Alegre-se, porque Voc-Sabe-Quem
finalmente foi-se embora! At trouxas como o senhor deviam estar
comemorando um dia to feliz!
E o velho abraou o Sr. Dursley pela cintura e se afastou.
O Sr. Dursley ficou pregado no cho. Fora abraado por um
completo estranho. E tambm achava que fora chamado de trouxa,
o que quer que isso quisesse dizer. Estava abalado. Correu para
o carro e partiu para casa, esperando que estivesse imaginando
coisas, o que nunca esperara que fizesse, porque no aprovava a
imaginao.
 Quando entrou no estacionamento do nmero quatro, a pri-
meira coisa que viu - e isso no melhorou o seu estado de esprito
- foi o gato listrado que notara aquela manh. Agora ele estava
sentado no muro do jardim. Tinha certeza de que era o mesmo; as
marcas em volta dos olhos eram as mesmas.
- Chispa! - disse o Sr. Dursley em voz alta.
O gato no se mexeu. Apenas lanou-lhe um olhar severo.
Ser que isto era um comportamento normal para um gato, pensou
 o Sr. Dursley. Continuava decidido a no comentar nada com
a esposa.
A Sra. Dursley tivera um dia normal e agradvel. Contou-lhe
durante o jantar os problemas da senhora do lado com a filha e
ainda que Duda aprendera uma palavra nova ("Nunca"). O Sr.
Dusley tentou agir normalmente. Depois que Duda foi se deitar,
ele chegou  sala em tempo de ouvir o ltimo noticirio noturno.
"E, por ltimo, os observadores de pssaros em toda parte
registraram que as corujas do pas se comportaram de forma muito
estranha hoje. Embora elas normalmente cacem  noite e raramente
apaream  luz do dia, centenas desses pssaros foram vistos
hoje voando em todas as direes desde o alvorecer. Os-
especialistas no sabem explicar por que as corujas de repente mudaram
o seu padro de sono." O locutor se permitiu um sorriso.
"Muito misterioso. E agora, com Jorge Mendes, o nosso boletim
meteorolgico. Vai haver mais tempestades de corujas hoje  noite,
Jorge?"
"Bom, Eduardo", disse o meteorologista, "no sei lhe dizer,
mas no foram s as corujas que se comportaram de modo estranho
hoje. Ouvintes de todo o pas tm telefonado para reclamar
que em vez do aguaceixo que prometi para ontem, eles tm tido
chuas de estrelas! Talvez algum ande festejando a noite de
fogueiras uma semana mais cedo este ano! Mas posso prometer para
hoje uma noite chuvosa."
O Sr. Dursley ficou paralisado na poltrona. Estrelas cadentes
em todo o pas? Corujas voando durante o dia? Gente misteriosa
usando capas por todo lado? E um cochicho, um cochicho a
respeito dos Potter...
A Sra. Dursley entrou na sala trazendo duas xcaras de ch.
No adiantava. Teria que lhe dizer alguma coisa. Pigarreou
nervoso.
- Hum, hum, Petnia, querida, voc no tem tido notcias de
sua irm, ultimamente?
Conforme esperava, a Sra. Dursley pareceu chocada e aborrecida.
Afinal, normalmente fingiam que ela no tinha irm...
- No - respondeu ela, seca. - Por qu?
...- Uma notcia engraada - murmurou o Sr. Dursley. - Corujas
 estrelas cadentes... e vi uma poro de gente de aparncia estranha
na cidade hoje...
- E da? - cortou a Sra. Dursley
- Bem, pensei... talvez... tivesse alguma ligao com... sabe...
o pessoal dela.
A Sra. Dursley bebericou o ch com os lbios contrados. O
Sr. Dursley ficou em dvida se teria coragem de lhe contar que
ouvira o nome "Potter". Decidiu que no. Em vez disso, falou
com a voz mais displicente que pde:
- O filho deles... teria mais ou menos a idade do Duda
agora, no?
- Suponho que sim - respondeu a Sra. Dursley ainda seca.
- Como  mesmo o nome dele? Ernesto, no ? .
- Harry. Um nome feio e vulgar, se quer saber minha opinio
-Ah,  - disse o Sr. Dursley; sentindo um aperto horrvel no
corao. - , concordo com voc.
No disse mais nenhuma palavra sobre o assunto a caminho
do quarto onde foram se deitar. Enquanto a Sra. Dursley estava
no banheiro, o Sr. Dursley foi devagarinho at a janela e espiou o
jardim da casa. O gato continuava l. Observava o comeo da rua
dos Alfeneiros como se esperasse alguma coisa.
Estaria imaginando coisas? Ser que tudo isso teria ligao
com os Potter? Se tinha... se transpirasse que eram aparentados
com um casal de... bem ele achava que no agentaria.
Os Dursley se deitaram. A Sra. Dursley adormeceu logo mas
o Sr. Dursley continuou acordado, pensando no que acontecera.
Seu ltimo consolo antes de adormecer foi pensar que mesmo
que os Potter estivessem envolvidos, no havia razo para se aproximarem
dele e da Sra. Dursley. Os Potter sabiam muito bem o que
pensavam deles e de gente de sua laia... No via como ele e
Petnia poderiam se envolver com nada que estivesse acontecendo.
O Sr. Dursley bocejou e se virou. Isso no poderia afet-los...
Como estava enganado.
O Sr. Dursley talvez estivesse mergulhando em um sono
inquieto, mas o gato no muro l fora no mostrava sinais de sono.
Continuava sentado imvel como uma esttua, os olhos fixos na
esquina mais distante da rua dos Alfeneiros. E nem sequer estremeceu
quando uma porta de carro bateu na rua seguinte, nem
, mesmo quando duas corujas mergulharam do alto. Na verdade,
era quase meia-noite quando o gato se mexeu.
Um homem apareceu na esquina que o gato estivera vigiando.
Apareceu to sbita e silenciosamente que se poderia pensar que
 tivesse sado do cho. O rabo do gato mexeu ligeiramente e seus
olhos se estreitaram.
Ningum jamais vislumbrara nada parecido com este homem
na rua dos Alfeneiros. Era alto, magro e muito velho, a julgar pelo
prateado dos seus cabelos e de sua barba, suficientemente longos
para prender no cinto. Usava vestes longas, uma capa prpura que
arrastava pelo cho e botas com saltos altos e fivelas. Seus olhos
azuis eram claros, luminosos e cintilantes por trs dos culos em
meia-lua e o nariz muito comprido e torto, como se o tivesse
quebrado pelo menos duas vezes. O nome dele era Alvo Dumbledore.
Alvo Dumbledore no parecia ter conscincia de que acabara
de pisar numa rua onde tudo, desde o seu nome s suas botas era
malvisto. Estava ocupado apalpando a capa, procurando alguma
coisa. Mas parecia ter conscincia de que estava sendo vigiado,
porque ergueu a cabea de repente para o gato, que continuava a
fix-lo da outra ponta da rua. Por algum motivo, a viso do gato
pareceu diverti-lo. Deu uma risadinha e murmurou: "Eu devia ter
imaginado."
Encontrou o que procurava no bolso interior da capa. Parecia
um isqueiro de prata. Abriu-o, ergueu-o no ar e o acendeu. O lampio
de rua mais prximo apagou-se com um estalido seco. Ele o
acendeu de novo - o lampio seguinte piscou e apagou, doze vezes
ele acionou o "apagueiro", at que as nicas luzes acesas na
rua toda eram dois pontinhos minsculos ao longe - os olhos do
gato que o vigiava. Se algum espiasse pela janela agora, at a Sra.
Dursley, de olhos de contas, no conseguiria ver nada que estava
acontecendo na calada. Dumbledore tornou a guardar o
"apagueiro" na capa e saiu caminhando pela rua em direo ao
nmero quatro, onde se sentou no muro ao lado do gato. No
olhou para o bicho, mas, passado algum tempo, dirigiu-se a ele.
- Imagine encontrar a senhora aqui, Profa. Minerva
McGonagall!
E virou-se para sorrir para o gato, mas este desaparecera. Ao
invs dele, viu-se sorrindo para uma mulher de aspecto severo
que usava culos de lentes quadradas exatamente do formato das
marcas que o gato tinha em volta dos olhos. Ela, tambm, usava
uma capa esmeralda. Trazia os cabelos negros presos num coque
apertado. E parecia decididamente irritada.
- Como soube que era eu? - perguntou.
- Minha cara professora, nunca vi um gato se sentar to duro.
- O senhor estaria duro se tivesse passado o dia todo sentado
em um muro de pedra - respondeu a Profa. Minerva.
- O dia todo? Quando podia estar comemorando? Devo ter
passado por mais de dez festas e banquetes a caminho daqui.
A professora fungou aborrecida.
- Ah, sim, vi que todos esto comemorando - disse impaciente.
- Era de esperar que fossem um pouco mais cautelosos,
mas no, at os trouxas notaram que alguma coisa estava acontecendo.
Deu no telejornal. - Ela indicou com a cabea a sala s
escuras dos Dursley -Eu ouvi... bandos de corujas... estrelas
cadentes...
Ora, eles no so completamente idiotas. No podiam deixar
de notar alguma coisa. Estrelas cadentes em Kent, aposto que foi
coisa do Ddalo Diggle. Ele nunca teve muito juzo.
- Voc no pode culp-los - ponderou Dumbledore
educadamente. -Temos tido muito pouco o que comemorar nos
ltimos onze anos.
- Sei disso - retrucou a professora mal-humorada. - Mas no
 razo para perdermos a cabea. As pessoas esto sendo completamente
descuidadas, saem s ruas em plena luz do dia, sem nem
ao menos vestir roupa de trouxa, e espalham boatos.
De esguelha, lanou um olhar atento a Dumbledore, como se
esperasse que ele dissesse alguma coisa, mas ele continuou calado,
por isso ela recomeou:
- Ia ser uma graa se, no prprio dia em que Voc-Sabe-
Quem parece ter finalmente ido embora, os trouxas descobrissem
a nossa existncia. Suponho que ele realmente tenha ido embora,
no , Dumbledore?
- Parece que no h dvida. Temos muito o que agradecer.
Aceita um sorvete de limo?
- Um o que'?
- Um sorvete de limo.  uma espcie de doce dos trouxas de
que sempre gostei muito.
- No, obrigada - disse a Profa. Minerva com frieza, como se
no achasse que o momento pedia sorvetes de limo. - Mesmo
que Voc-Sabe-Quem tenha ido embora.
- Minha cara professora, com certeza uma pessoa sensata
como a senhora pode cham-lo pelo nome. Toda essa bobagem
de Voc-Sabe-Quem, h onze anos venho tentando convencer as
pessoas a cham-lo pelo nome que recebeu: Voldemort. - A
professora franziu a cara, mas Dumbledore, que estava separando
dois sorvetes de limo, pareceu no reparar. - Tudo fica to confuso
quando todos no param de dizer "Voc-Sabe-Quem".
Nunca vi nenhuma razo para ter medo de dizer o nome de
Voldemort.
- Sei que no v - disse a professora parecendo meio exasperada,
meio admrada. - Mas voc  diferente. Todo o mundo sabe
que  o nico de quem Voc-Sabe... ah, est bem, de quem
Voldemort tem medo.
- Isto  um elogio - disse Dumbledore calmamente. -
Voldemort tinha poderes que nunca tive.
- S porque voc  muito... bem... nobre para us-los.
-  uma sorte estar escuro. Nunca mais corei assim desde que
Madame Pomfrey me disse que gostava dos meus abafadores de
orelhas novos.
A Profa. Minerva lanou um olhar severo a Dumbledore e
disse:
- As corujas no so nada comparadas aos boatos que correm.
Sabe o que todos esto dizendo? Por que ele fo embora?
Que foi que finalmente o deteve?
Aparentemente a Profa, Minerva chegara ao ponto que estava
ansosa para discutir, a verdadeira razo pela qual estivera esperando
o dia todo em cima de um muro frio e duro, porque nem
como gato nem como mulher ela fixara antes um olhar to penetrante
em Dumbledore como agora. Era bvio que seja o que fosse
que "todos" estavam dizendo, ela no iria acreditar at que
Dumbledore confirmasse ser verdade. Dumbledore, porm, estava
escolhendo mais um sorvete de limo e no respondeu.
- O que esto dizendo - continuou ela -  que a noite passada
Voldemort apareceu em Godric's Hollow Foi procurar os Potter. O
boato  que Llian e Tiago Potter esto... esto... que esto... mortos..
Dumbledore fez que sim com a cabea. A Profa. Minerva
perdeu o flego.
- Llian e Tiago... No posso acreditar... No quero acreditar.
 Ah, AlVO.
Dumbledore estendeu a mo e deu-lhe um tapinha no ombro.
- Eu sei... eu sei... - disse deprimido.
A voz da Profa. Minerva tremeu ao prosseguir:
- E no  s isso. Esto dizendo que ele tentou matar o filho
dos Potter, Harry. Mas... no conseguiu. No conseguiu matar o
garotinho. Ningum sabe o porqu nem o como, mas esto dizendo
que na hora que no pde matar Harry Potter, por alguma razo, o
poder de Voldemort desapareceu, e  por isso que ele foi embora.
Dumbledore concordou com a cabea, srio.
- ...  verdade? - gaguejou a professora. - Depois de tudo
o que ele fez... todas as pessoas que matou... no conseguiu
matar um garotinho?  simplesmente espantoso... de tudo
que poderia det-lo... mas, por Deus, como foi que Harry
sobreviveu?
- S podemos imaginar - disse Dumbledore. - Talvez nunca
cheguemos a saber.
A Profa. Minerva pegou um leno de renda e secou com
delicadeza os olhos por baixo das lentes dos culos. Dumbledore deu
uma grande fungada ao mesmo tempo que tirava o relgio de
ouro do bolso e o examinava. Era um relgio muito estranho. Tinha
doze ponteiros mas nenhum nmero; em vez deles, pequenos
planetas giravam  volta. Mas, devia fazer sentido para
Dumbledore, porque ele o reps no bolso e disse:
- Hagrid est atrasado. A propsito, foi ele que lhe disse que
eu estaria aqui, suponho.
- Foi. E suponho que voc no v me dizer por que est aqui
e no em outro lugar.
- Vim trazer Harry para o tio e a tia. Eles so a nica familia
que lhe resta.
- Voc no quer dizer, voc no pode estar se referindo s
pessoas que moram aqui? - exclamou a Profa. Minerva, pulando
de p e apontando para o nmero quatro. - Dumbledore, voc
" no pode. Estive observando a famlia o dia todo. Voc no poderia
encontrar duas pessoas menos parecidas conosco. E tm um
filho, vi-o dando chutes na me at a rua, berrando porque queria
balas. Harry Potter vir morar aqui!
-  o melhor lugar para ele - disse Dumbledore com firmeza.
- Os tios podero lhe explicar tudo quando ele for mais velho,
escrevi-lhes uma carta.
- Uma carta? - repetiu a professora com a voz fraca, sentando-
novamente no muro. - Francamente, Dumbledore, voc
acha que pode explicar tudo isso em uma carta? Essas pessoas
jamais vo entend-lo! Ele vai ser famoso, uma lenda. Eu no me
surpreenderia se o dia de hoje ficasse conhecido no futuro como
, o dia de Harry Potter. Vo escrever livros sobre Harry. Todas as
crianas no nosso mundo vo conhecer o nome dele!
- Exatamente - disse Dumbledore, olhando muito srio por
cima dos culos de meia-lua. - Isto seria o bastante para virar a
cabea de qualquer menino. Famoso antes mesmo de saber andar
e falar! Famoso por alguma coisa que ele nem vai se lembrar! Voc
no v que ele estar muito melhor se crescer longe de tudo isso
at que tenha capacidade de compreender?
A professora abriu a boca, mudou de idia, engoliu em seco e
ento disse:
 - , , voc est certo,  claro. Mas como  que o garoto vai
chegar aqui, Dumbledore? - Ela olhou para a capa dele de repente
como se lhe ocorresse que talvez escondesse Harry ali.
- Hagrid vai traz-lo.
 - Voc acha que  sensato confiar a Hagrid uma tarefa importante
como esta?
 - Eu confiaria a Hagrid minha vida - respondeu Dumbledore.
- No estou dizendo que ele no tenha o corao no lugar -
concedeu a professora de m vontade -, mas voc no pode fingir
...que ele  cuidadoso. Que tem uma tendncia a... que foi isso
Um ronco discreto quebrara o silncio da rua. Foi aumentando
cada vez mais enquanto eles olhavam para cima e para baixo da
ra  procura de um sinal de farol de carro; o ronco se transformou
num trovo quando os dois olharam para o cu - e uma
enorme motocicleta caiu do ar e parou na rua diante deles.
Se a motocicleta era enorme, no era nada comparada ao homem
que a montava de lado. Ele era quase duas vezes mais alto
do que um homem normal e pelo menos cinco vezes mais largo.
Parecia simplesmente grande demais para existir e to selvagem -
emaranhados de barba e cabelos negros longos e grossos es-
condiam a maior parte do seu rosto, as mos tinham o tamanho
de uma lata de lixo e os ps calados com botas de couxo pareciam
filhotes de golfinhos. Em seus braos imensos e musculosos ele
segurava um embrulho de cobertores.
- Hagrid - exclamou Dumbledore, parecendo aliviado. -
Finalmente. E onde foi que arranjou a moto?
- Pedi emprestada, Prof. Dumbledore - respondeu o gigante,
desmontando cuidadosamente da moto ao falar. - O jovem
Sirius me emprestou. Trouxe ele, professor.
- No teve nenhum problema?
- No, senhor. A casa ficou quase destruda, mas consegui
tir-lo inteiro antes que os trouxas invadissem o lugar. Ele dormiu
quando estvamos sobrevoando Bristol.
Dumbledore e a Profa. Minerva curvaram-se para o embrulho
de cobertores. Dentro, apenas visvel, havia um menino, que dormia
a sono solto. Sob uma mecha de cabelos muito negros cada
sobre a testa eles viram um corte curioso, tinha a forma de um raio.
- Foi a que...? - sussurrou a professora.
- Foi - confirmou Dumbledore. - Ficar com a cicatriz para
sempre.
- Ser que voc no poderia dar um jeito, Dumbledore?
- Mesmo que pudesse, eu no o faria. As cicatrizes podem vir
a ser teis. Tenho uma acima do joelho esquerdo que  um mapa
perfeito do metr de Londres. Bem, me d ele aqui, Hagrid,  melhor
acabarmos logo com isso.
Dumbledore recebeu Harry nos braos e virou-se para a casa
dos Dursley.
- Ser que eu podia... podia me despedir dele, professor? -
perguntou Hagrid.
Ele curvou a enorme cabea descabelada para Harry e lhe
deu o que deve ter sido um beijo muito spero e peludo.
Depois, sem aviso, Hagrid soltou um uivo como o de um cachorro
ferido.
- Psiu! - sibilou a Profa. Minerva. - Voc vai acordar os
trouxas!
- Des-des-desculpe - soluou Hagrid, puxando um enorme
leno sujo e escondendo a cara nele. - Mas n-n-no consigo
suportar, Llian e Tiago mortos, e o coitadinho do Harry ter de viver
com os trouxas...
- , ,  muito triste, mas controle-se, Hagrid, ou vo nos
descobrir-sussurrou a professora, dando uma palmadinha desajeitada
no brao de Hagrid enquanto Dumbledore saltava a mureta de
pedra e se dirigia  porta da frente. Depositou Harry devagarinho
no batente, tirou uma carta da capa, meteu-a entre os cobertores
do menino e, em seguida, voltou para a companhia dos dois.
Durante um minuto inteiro os trs ficaram parados olhando para o
embrulhinho; os ombros de Hagrid sacudiram, os olhos da Profa.
Minerva piscaram loucamente e a luz cintilante que sempre brilhava
nos olhos de Dumbledore parecia ter-se extinguido.
-Bem- disse Dumbledore finalmente-, acabou-se. No temos
mais nada a fazer aqui. J podemos nos reunir aos outros
para comemorar.
-  - disse Hagrid com a voz muito abafada. - Vou devolver
a moto de Sirius. Boa noite, Profa. Minerva, Professor
Dumbledore...
Enxugando os olhos na manga da jaqueta, Hagrid montou na
moto e acionou o motor com um pontap; com um rugido ela
levantou vo e desapareceu na noite.
- Nos veremos em breve, espero, Profa. Minerva - falou
Dumbledore, com um aceno da cabea. A Profa. Minerva assoou
o nariz em resposta.
Dumbledore se virou e desceu a rua. Na esquina parou e puxou
o "apagueiro". Deu um clique e doze esferas de luz voltaram
aos lampies de modo que a rua dos Alfeneiros de repente iluminou-se
com uma claridade laranja e ele divisou o gato listrado se
esquivando pela outra ponta da rua. Mal dava para enxergar o
embrullhinho de cobertores no batente do nmero quatro.
-Boa sorte, Harry- murmurou ele. Girou nos calcanhares e,
com um movimento da capa, desapareceu.
Uma brisa arrepiou as cercas bem cuidadas da rua dos Alfeneiros,
silenciosas e quietas sob o negror do cu, o ltimo lugar do
mundo em que algum esperaria que acontecessem coisas espantosas.
Harry Potter virou-se dentro dos cobertores sem acordar.
Sua mozinha agarrou a carta ao lado mas ele continuou a dormir,
sem saber que era especial, sem saber que era famoso, sem saber
que iria acordar dentro de poucas horas com o grito da Sra.
Dursley ao abrir a porta da frente para pr as garrafas de leite do
lado de fora, nem que passaria as prximas semanas levando
cutucadas e belisces do primo Duda... ele no podia saber que, neste
mesmo instante, havia pessoas se reunindo em segredo em
todo o pas que erguiam os copos e diziam com vozes abafadas:
- A Harry Potter: o menino que sobreviveu!


CAPTULO DOIS
O vidro que sumiu

Quase dez anos haviam se passado desde o dia em que os Dursley
acordaram e encontraram o sobrinho no batente da porta, mas a
rua dos Alfeneiros no mudara praticamente nada. O sol nascia
para os mesmos jardins cuidados e iluminava o nmero quatro de
bronze  porta de entrada dos Dursley; e penetrava sorrateiro a
sala de estar, que continuava quase igual ao que fora na noite em
que o Sr. Dursley ouvira a funesta notcia sobre as corujas.
Somente as fotografias sobre o console da lareira mostravam o tempo
que j passara. Dez anos antes havia uma poro de fotografias
de uma coisa que parecia uma grande bola de brincar na praia,
usando diferentes chapus coloridos - mas Duda Dursley no era
mais beb; e agora as fotografias mostravam um menino grande e
louro na primeira bicicleta, no carrossel de uma feira, brincando
com o computador do pai, recebendo um beijo e um abrao da
me. A sala no continha nenhuma indicao de que havia outro
menino na casa.
No entanto Harry Potter continuava l, no momento adormecido,
mas no por muito tempo. Sua tia Petnia acordara e foi
sua voz aguda que produziu o primeiro rudo do dia.
-Acorde! Levante-se! Agora!
Harry acordou assustado. A tia bateu  porta outra vez.
-Acorde! -gritou. Harry ouviu-a caminhar em direo 
cozinha e em seguida uma frigideira bater no fogo. Virou-se de costas
e tentou se lembrar do sonho em que estava. Era um sonho
gostoso. Havia uma motocicleta. Tinha a estranha sensao que j
vira esse sonho antes.
A tia voltara  porta.
- Voc j se levantou? - perguntou.
- Quase - respondeu Harry.
- Bem, ande depressa, quero que voc tome conta do bacon.
E no se atreva a deix-lo queimar. Quero tudo perfeito no
aniversrio de Duda.
Harry gemeu.
- Que foi que voc disse? - perguntou a tia com rispidez.
- Nada, nada...
O aniversrio de Duda - como podia ter esquecido? Harry
levantou-se devagar e comeou a procurar as meias. Encontrou-
as debaixo da cama e depois de retirar uma aranha de um p,
calou-as. Harry estava acostumado com aranhas, porque o armrio
sob a escada vivia cheio delas e era ali que ele dormia.
J vestido saiu para o corredor que levava  cozinha. A mesa
quase desaparecera tantos eram os presentes de aniversrio de
Duda. Pelo que via, Duda ganhara o novo computador que queria,
para no falar na segunda televiso e na bicicleta de corrida.
Para o qu, eratamente, Duda queria uma bicicleta de corrida era
um mistrio para Harry, porque Duda era muito gordo e detestava
fazer exerccios - a no ser,  claro, que envolvessem bater em
algum. O saco de pancadas preferido de Duda era Harry, mas
nem sempre Duda conseguia peg-lo. Harry no parecia, mas era
muito rpido.
Talvez fosse porque vivia num armrio escuro, mas Harry
sempre fora pequeno e muito magro para a idade. Parecia ainda
menor e mais magro do que realmente era porque s lhe davam
para vestir as roupas velhas de Duda e Duda era quatro vezes maior
do que ele. Harry tinha um rosto magro, joelhos ossudos, cabelos
negros e olhos muito verdes. Usava culos redondos, remendados
com fita adesiva, por causa das muitas vezes que Duda o socara
no nariz. A nica coisa que Harry gostava em sua aparncia
era uma cicatriz fininha na testa que tinha a forma de um raio.
Existia desde que se entendia por gente e a primeira pergunta que
se lembrava de ter feito  tia Petnia era como a arranjara.
 -No desastre de carro em que seus pais morreram- respondera
ela. - E no faa perguntas.
No faa perguntas - esta era a primeira regra para levar uma
vida tranqila com os Dursley.
Tio Valter entrou na cozinha quando Harry estava virando o
bacon.
- Penteie o cabelo! - mandou,  guisa de bom-dia.
Mais ou menos uma vez por semana, tio Valter espiava por
cima do jornal e gritava que Harry precisava cortar os cabelos.
Harry deve ter feito mais cortes que o resto dos meninos de sua
classe somados, mas no fazia diferena, seus cabelos simplesmente
cresciam daquele jeito - para todo lado.
Harry estava fritando os ovos na altura em que Duda chegou
 cozinha com a me. Duda se parecia muito com o tio Valter. Tinha
um rosto grande e rosado, pescoo curto, olhos azuis pequenos
e aguados e cabelos louros muito espessos e assentados na
cabea enorme e densa. Tia Petnia dizia com freqncia que Duda
parecia um anjinho - Harry dizia com freqncia que Duda
parecia um porco de peruca.
Harry ps os pratos de ovos com bacon na mesa, o que foi
dificil porque no havia muito espao. Entrementes, Duda contava
os presentes. Ficou desapontado.
- Trinta e seis - disse, erguendo os olhos para o pai e a me.
- Dois a menos do que no ano passado.
- Querido, voc no contou o presente de tia Guida, est aqui
debaixo deste grando do papai e da mame, est vendo?
- Est bem, ento so trinta e sete - respondeu Duda ficando
vermelho. Harry, percebendo que Duda estava preparando
um enorme acesso de raiva, comeou a engolir seu bacon o mais
depressa possvel, caso o primo virasse a mesa.
Tia Petnia obviamente tambm sentiu o perigo, porque na
mesma hora disse:
- E vamos comprar mais dois presentes para voc quando
sairmos hoje. Que tal, fofinho? Mais dois presentes. Est bem
assim?
Duda pensou um instante. Pareceu um esforo enorme.
Finalmente respondeu hesitante:
- Ento vou ficar com trinta... trinta...
-Trinta e nove, anjinho - disse tia Petnia.
- Ah. - Duda laxgou-se na cadeira e agarrou o pacote mais
prximo. - Ento, est bem.
Tio Valter deu uma risadinha.
- O baixinho quer tudo a que tem direito, igualzinho ao pai.
 isso a, garoto! - E arrepiou os cabelos de Duda com os dedos.
 Naquele instante o telefone tocou e tia Petnia foi atend-lo,
enquanto Harry e tio Valter assistiam Duda desembrulhar a bicicleta
de corrida, a cmara de filmar, um aeromodelo com controle
remoto, dezesseis jogos de computador e um gravador de
vdeos. Estava rasgando a embalagem de um relgio de ouro
quando tia Petnia voltou do telefone parecendo ao mesmo tempo
zangada e preocupada.
- Ms notcias, Valter. A Sra. Figg fraturou a perna. No pode
ficar com ele. - E indicou Harry com a cabea.
Duda boquiabriu-se de horror mas o corao de Harry deu
um salto. Todo ano, no aniversrio de Duda, os pais dele o levavam
para passar o dia com um amiguinho em parques de aventuras,
lanchonetes ou no cinema. Todo ano deixavam Harry com a
Sra. Figg, uma velha maluca que morava ali perto. Harry detestava
o lugar. A casa inteira cheirava a repolho e a Sra. Figg lhe
mostrava fotografias de todos os gatos que j tivera.
- E agora? - perguntou tia Petnia, olhando furiosa para
Harry como se ele tivesse planejado tudo. Harry sabia que devia
sentir pena da Sra. Figg que quebrara a perna, mas no era fcil
quando lembrava que ia passar um ano sem ter que olhar para o
Tobias, o Nris, Seu Patinhas e o Pompom outra vez.
- Poderamos ligar para a Guida - sugeriu tio Valter.
- No diga bobagem, Vlter, ela detesta o menino.
Com freqncia, os Dursley falavam de Harry assim, como
se ele no estivesse presente - ou melhor, como se ele fosse alguma
coisa muito desprezvel que no conseguisse entend-los,
como uma lesma.
- E aquela sua amiga, como  mesmo o nome dela, Ivone?
- Est passando frias em Majorca - respondeu Petnia, com
rispidez.
- Vocs podiam me deixar aqui - arriscou Harry esperanoso
(ele poderia assistir ao que quisesse na televiso para variar e,
quem sabe, at dar uma voltinha no computador de Duda).
Tia Petnia parecia que tinha engolido um limo.
- E quando voltarmos, encontrar a casa destruda - rosnou.
- No vou explodir a casa - prometeu Harry, mas os tios no
estavam mais escutando.
-Talvez pudssemos lev-lo ao zoolgico - disse tia Petnia
lentamente... e deix-lo no carro...
- O carro  novo. No vou deix-lo sentado no carro sozinho...
Duda comeou a chorar alto. Na realidade no estava chorando,
fazia anos que no chorava de verdade, mas sabia que se fizesse
cara de choro e gritasse a me lhe daria o que quisesse.
- Dudinha, querido, no chore, mame no vai deixar ele
estragar o seu dia! - exclamou, abraando-o.
- No... quero... que... ele... v! - Duda berrou entre grandes
soluos fingidos. - Ele sempre estraga tudo! - E lanou um riso
maldoso por entre os braos da me.
Naquele instante a campainha tocou.
-Ah, meu Deus, so eles chegando! - disse tia Petnia nervosa,
e um minuto depois, o melhor amigo de Duda, Pedro
Polkiss, entrou acompanhado da me. Pedro era um menino
magricela, com cara de rato. Em geral era quem segurava para trs os
braos dos garotos enquanto Duda batia neles. Na mesma hora
Duda parou de fingir que estava chorando.
Meia hora depois, Harry, que no conseguia acreditar em sua
sorte, estava sentado no banco traseiro do carro dos Dursley, com
Pedro e Duda, a caminho do jardim zoolgico, pela primeira vez
na vida. O tio e a tia no tinham conseguido pensar no que fazer
com ele, mas antes de sarem, tio Vlter puxara Harry para o lado.
- Estou-lhe avisando - disse, aproximando a cara grande e
vermelha de Harry. - Estou-lhe avisando, moleque, a primeira
gracinha que fizer, a primeira, vai ficar preso naquele armrio at
o Natal.
- No vou fazer nada - disse Harry -, juro...
Mas tio Vlter no acreditou nele. Ningum nunca acreditava.
O problema era que sempre aconteciam coisas estranhas 
volta de Harry e simplesmente no adiantava dizer aos Dursley
que no era sua culpa.
Uma vez, tia Petnia, cansada de ver Harry voltar do barbeiro
como se no tivesse estado l, apanhara uma tesoura de cozinha
e cortara o cabelo dele to curto que o deixara quase careca,
exceto por uma franja, que ela deixou "para esconder aquela cicatriz
horrorosa". Duda morrera de rir de Harry, que passou a noite
acordado imaginando o que seria a escola no dia seguinte, onde j
riam dele por causa das roupas folgadas e dos culos emendados
com fita adesiva. Na manh seguinte, porm, quando se levantou,
os cabelos estavam eratamente como eram antes de tia Petnia
cort-los. Tinham-no deixado preso uma semana no armrio por
causa disto, apesar de sua tentativa de explicar que no saberia
explicar como  que os cabelos tinham crescido to depressa.
Outra vez, tia Petnia tentara obrig-lo a vestir um macaco
velho de Duda (marrom com pompons cor de laranja). Quanto
mais tentava enfi-lo pela cabea dele, tanto menor o macaco
ficava, at que finalmente parecia feito para um fantochinho de
dedo, e com certeza no ia servir para o Harry. Tia Petnia
concluiu que devia ter encolhido na lavagem e Harry, para seu grande
alivio, no foi castigado.
Por outro lado, ele se metera numa grande encrenca quando
o encontraram no telhado da cozinha da escola. A turma de Duda
o estava perseguindo, como sempre, e tanto para surpresa de
Harry quanto dos outros, ele apareceu sentado na chamin. Os
Dursley receberam uma carta muito zangada da diretora de
Harry, contando que Harry andara escalando os prdios da escola.
Mas s o que tentara fazer (conforme gritou para tio Vlter
atravs da porta trancada do armrio) fora saltar para trs das
grandes latas de lixo  porta da cozinha. Harry supunha que o
vento devia t-lo apanhado na hora em que saltou.
Mas hoje nada ia dar errado. Valia at a pena estar em companhia
de Duda e Pedro para passar o dia em outro lugar que no fosse
a escola, o armrio, ou a sala com cheiro de repolho da Sra. Figg.
Enquanto dirigia, tio Vlter se queixava  tia Petnia. Ele
gostava de se queixar de tudo: das pessoas no trabalho, de Harry, do
conselho, de Harry, o banco e Harry eram seus dois assuntos
preferidos. Esta manh eram as motocicletas.
- ... roncando pelas ruas como loucos, os arruaceiros - disse,
quando uma moto emparelhou com eles.
- Tive um sonho com uma motocicleta - falou Harry,
lembrando-se de repente. - Ela voava.
Tio Valter quase bateu no carro da frente. Virou-se para trs
e gritou com Harry, seu rosto parecendo uma beterraba gigante e
bigoduda:
- MOTOCICLETAS NO VOAM!
Duda e Pedro deram risadinhas.
- Sei que no voam - respondeu Harry - Foi s um sonho.
Mas desejou que no tivesse dito nada. Se havia uma coisa
que os Dursley detestavam mais do que as suas perguntas, era
quando falava de coisas que faziam o que no deviam, no
interessava se era sonho ou desenho animado - pareciam pensar que
ele poderia arranjar idias perigosas.
Era um sbado muito ensolarado e o zo estava cheio de
famlias. Os Dursley compraram grandes sorvetes de chocolate
para Duda e Pedro  entrada e, ento, porque a mulher sorridente
na carrocinha perguntara o que Harry ia querer antes que pudessem
afast-lo depressa dali, eles Lhe compraram um picol barato
de limo. No era ruim, Harry pensou, lambendo-o enquanto
observavam um gorila que coava a cabea e se parecia demais
com Duda, exceto pelos cabelos que no eram louros.
Harry passou a melhor manh que j tivera em muito tempo.
Cuidou de andar um pouco afastado dos Dursley de modo que
Duda e Pedro, que ali pela hora do almoo estavam comeando a
se chatear com os bichos, no recassem no seu passatempo favorito
de bater no primo. Almoaram no restaurante do zo e quando
Duda teve um acesso de raiva porque seu sorveto no era
bastante grande, tio Vlter comprou-lhe outro e deixou Harry
terminar o primeiro.
Depois Harry achou que devia ter adivinhado que estava
bom demais para durar muito tempo.
Terminado o almoo, foram visitar o alojamento dos rpteis.
Era fresco e escuro ali, com quadrados iluminados ao Iongo das
paredes. Por trs dos vidros, rastejavam e deslizavam em pedaos
de pau e em pedras todos os tipos de cobras e lagartos. Duda e
Pedro queriam ver as enormes cobras venenosas e as grossas
pitones que esmagavam um homem. Duda logo encontrou a
maior cobra que havia. Poderia dar duas voltas no carro de tio
Vlter e amass-lo at reduzi-lo ao tamanho de uma lata de lixo -
mas naquela hor ela no estava disposta a fazer nada. Na realidade,
estava dormindo a sono solto.
Duda parou, o nariz comprimido contra o vidro, observando
as espirais marrons e reluzentes.
- Faz ela se mexer - choramingou para o pai. Tio Vlter bateu
no vidro, mas a cobra no se mexeu.
- Faz outra vez - mandou Duda. Tio Vlter bateu no vidro
com os ns dos dedos, mas a cobra continuou dormindo.
- Que chato - queixou-se Duda. E saiu arrastando os ps.
Harry veio se postar na frente do tanque e estudou a cobra
com ateno. No se admiraria se a prpria cobra morresse de tdio
- no tinha companhia a no ser aquela gente idiota que
batucava no vidro, tentando incomod-la o dia inteiro. Era pior do
que ter um armrio por quarto, onde a nica visita era a tia Petnia
esmurrando a porta para acord-lo, mas ao menos ele podia visitar
o resto da casa.
A cobra inesperadamente abriu os olhos, que pareciam contas.
Devagarinho, muito devagarinho, levantou a cabea at seus
olhos chegarem ao nvel dos de Harry
E piscou.
Harry arregalou os olhos. E olhou depressa a toda volta para
ver se havia algum olhando. No havia. E retribuiu o olhar da cobra,
piscando tambm.
A cobra acenou com a cabea na direo de tio Vlter e de
Duda, depois levantou os olhos para o teto. Lanou um olhar a
Harry que dizia com todas as letras:
- Isso  o que me acontece o tempo todo.
 - Eu sei - murmurou Harry pelo vidro, embora no tivesse
muita certeza se a cobra poderia ouvi-lo -, deve ser bem chato.
A cobra concordou com um aceno de cabea enftico.
- Mas de onde  que voc veio? - perguntou Harry.
A cobra apontou com o rabo uma placa prxima ao vidro.
Harry espiou.
Boa Constrictor, Brasil.
- Era bom l?
A jibia apontou novamente a placa com o rabo e Harry leu:
Este espcime nasceu em cativeiro.
-Ah, entendo, ento voc nunca esteve no Brasil?
A cobra sacudiu a cabea, mas um grito ensurdecedor atrs
de Harry fez os dois pularem:
-DUDA! SR. DURSLEY VENHAM VER ESSA COBRA! VOCS NO
VO ACREDITAR NO QUE EST FAZENDO !
Duda veio bamboleando at onde o amigo estava o mais
depressa que pde.
- Cai fora - falou dando um soco nas costelas de Harry.
Apanhado de surpresa, Harry caiu com foxa no cho de concreto. O
que se passou em seguida aconteceu to depressa que ningum
viu como foi: num segundo, Pedro e Duda estavam encostados
no vidro, no segundo seguinte, estavam saltando para trs soltando
uivos de terror.
Harry sentou-se e parou de respirar: o vidro da frente do tanque
da jibia tinha sumido. A grande cobra se desenrolou depressa
e escorregou pelo cho - as pessoas no alojamento dos rpteis
gritaram e comearam a correr para as sadas.
Quando a cobra passou rpido por ele, Harry poderia jurar
que uma voz baixa e sibilante tinha dito: "Brasil, aqui vou eu...
Obrigada, amigo."
O zelador do alojamento dos rpteis ficou em estado de
choque.
- Mas o vidro - ele no parava de repetir -, para onde foi o
vidro?
O diretor do zo em pessoa preparou uma xcara de ch forte
para tia Petnia enquanto se desculpava mil vezes. Pedro e
Duda s conseguiam balbuciar. Pelo que Harry vira, a cobra no
fizera nada a no ser fingir abocanhar os calcanhares deles quando
passou, mas quando chegaram finalmente ao carro do tio
Vlter, Duda estava contando que a cobra quase lhe arrancara a
perna a dentadas, enquanto Pedro jurava que a cobra tentara
apert-lo at matar. Mas o pior de tudo, pelo menos para Harry,
foi Pedro ter se acalmado o suficiente para perguntar:
- Harry estava conversando com ela, no estava, Harry?
Tio Vlter esperou at Pedro estar longe da casa para brigar
com Harry. Estava to zangado que mal podia falar. Conseguiu
apenas dizer:
- V... armrio... Harry... sem comida - antes de desmontar
em uma cadeira e tia Petnia ter que correr para lhe servir uma
boa dose de conhaque.
Muito mais tarde, deitado no seu armrio, Harry desejou ter um
relgio. No sabia que horas eram e no tinha certeza se os
Dursley j estariam dormindo. At que estivessem, ele no poderia
se arriscar a ir escondido at a cozinha buscar alguma coisa
para comer.
Vivia com os Dursley havia quase dez anos, dez infelizes
anos, desde que se lembrava, desde que era beb e seus pais tinham
morrido naquele acidente de carro. No conseguia se lembrar
de ter estado no carro quando os pais morreram. s vezes,
quando forava a memria durante longas horas em seu armrio,
lembrava-se de uma estranha viso: um lampejo ofuscante de luz
verde e uma queimadura na testa. Isto, supunha ele, era o acidente
embora no conseguisse lembrar de onde vinha toda aquela luz
verde. No conseguia lembrar nada dos pais. A tia e o tio nunca
falavam neles e naturalmente tinham-no proibido de fazer
perguntas. E no havia fotografias deles na casa.
Quando era mais novo, Harry sonhara muitas vezes com um
parente desconhecido que vinha lev-lo embora, mas isto nunca
acontecera; os Dursley eram sua nica famlia. Ainda assim, ele
achava (ou talvez fosse s uma esperana) que estranhos na rua o
conheciam. E eram estranhos muito estranhos. Um homenzinho
 de cartola roxa se curvara para ele uma vez quando estava fazendo
compras com tia Petnia e Duda. Depois de perguntar a
Harry, furiosa, se ele conhecia o homem, tia Petnia tinha empurrado
os meninos depressa para fora da loja sem comprar nada.
Uma velha amalucada toda vestida de verde uma vez acenara
alegremente para ele no nibus. Um careca com um longo casaco
prpura chegara a apertar sua mo na rua um dia desses e em
seguida se afastara sem dizer nada. A coisa mais estranha nessas pessoas
era a maneira com que pareciam desaparecer no instante em
que Harry tentava v-los melhor.
Na escola Harry no tinha ningum. Todos sabiam que a turma
de Duda odiava aquele estranho Harry Potter com suas roupas
velhas e folgadas e os culos remendados, e ningum gostava
de contrariar a turma do Duda.


CAPTULO TRS
AS cartas de ningum

A fuga da jibia brasileira rendeu a Harry o seu castigo mais longo.
Na altura em que lhe permitiram sair do armrio, as frias de
vero j haviam comeado e Duda j quebrara a nova filmadora,
acidentara o aeromodelo e, na primeira vez que andara na bicicleta
de corrida, derrubara a velha Sra. Figg quando ela atravessava a
rua dos Alfeneiros de muletas.
Harry ficou contente que as aulas tivessem acabado, mas no
conseguia escapar da turma de Duda, que visitava a casa todo dia.
Pedro, Dnis, Malcolm e Grdon eram todos grandes e burros,
mas como Duda era o maior e o mais burro do bando, era o lider.
Os demais ficavam bastante felizes de participar do esporte favorito
de Duda: perseguir Harry.
Por esta razo Harry passava a maior parte do tempo possvel
fora de casa, perambulando e pensando no fim das frias, no qual
conseguia vislumbrar um raiozinho de esperana. Quando setembro
chegasse ele iria para a escola secundria e, pela primeira vez
na vida, no estaria em companhia de Duda. Duda tinha uma
vaga na antiga escola de tio Vlter, Smeltings. Pedro ia para l
tambm.
Harry, por outro lado, ia para a escola secundria local.
Duda achava muita graa nisso.
- Eles metem a cabea dos garotos no vaso sanitrio no
primeiro dia de escola - contou ele a Harry -, quer ir l em cima
praticar?
- No, obrigado - respondeu Harry. - O coitado do vaso
nunca recebeu nada to horrvel quanto a sua cabea,  capaz de
passar mal. - E correu antes que Duda conseguisse entender o
que dissera.
Certo dia de julho, tia Petnia levou Duda a Londres para
comprar o uniforme da Smeltings e deixou Harry com a Sra. Figg.
A Sra. Figg no estava to ruim quanto de costume. Afinal, fraturara
a perna porque tropeara em um dos gatos e no parecia gostar
tanto deles quanto antes. Deixou Harry assistir  televiso e lhe
deu um pedao de bolo de chocolate que pelo gosto parecia ter
muitos anos.
Naquela noite, Duda desfilou para a familia reunida na sala de
estar vestindo o uniforme novo da Smeltings. Os alunos da
Smeltings usavam casaca marrom-avermelhada, cales cor de
laranja e chapus de palha. Carregavam tambm bengalas nodosas,
que usavam para bater uns nos outros quando os professores no
estavam olhando. Isto era considerado um bom treinamento para
o futuro.
Ao contemplar Duda nos cales laranja novos, tio Vlter
disse com a voz embargada que aquele era o momento de maior
orgulho em sua vida. Tia Petnia rompeu em lgrimas e disse
que no podia acreditar que era o seu Dudinha, estava to bonito
e adulto. Harry no confiou no que poderia dizer. Achou que
duas de suas costelas talvez j tivessem partido s com o esforo
para no rir.
Havia um cheiro horrvel na cozinha na manh seguinte
quando Harry entrou para o caf da manh. Parecia vir de uma
grande tina de metal dentro da pia. Ele se aproximou para espiar.
A tina aparentemente estava cheia de trapos sujos que boiavam
em gua cinzenta.
- O que  isso? - perguntou  tia Petnia. Os lbios dela se
contraram como costumavam fazer quando ele se atrevia a fazer
uma pergunta.
- O seu uniforme novo de escola - respondeu.
Harry espiou para dentro da tina outra vez.
- Ah - comentou -, eu no sabia que tinha que ser to
molhado.
- No seja idiota - retorquiu tia Petnia com rispidez. - Estou
tingindo de cinzento umas roupas velhas de Duda para voc.
Vo ficar iguaizinhas s dos outros quando eu terminar.
Harry tinha srias dvidas, mas achou melhor no discutir.
Sentou-se  mesa e tentou pensar na aparncia que teria no
primeiro dia de aula - como se estivesse usando retalhos de pele de
elefante velho, provavelmente.
Duda e tio Vlter entraram ambos com os narizes franzidos
por causa do cheiro do novo uniforme de Harry. Tio Vlter abriu
o jornal como sempre fazia e Duda bateu na mesa com a bengala
da Smeltings, que ele carregava para todo lado.
Ouviram o clique da portinhola para cartas e o som da
correspondncia caindo no capacho da porta.
-Apanhe o correio, Duda - disse tio Vlter por trs do jornal.
-Mande o Harry apanhar.
-Apanhe o correio Harry
- Mande o Duda apanhar.
- Cutuque ele com a bengala da Smeltings, Duda.
Harry se esquivou da bengala da Smeltings e foi apanhar o
correio. Havia trs coisas no capacho: um postal da irm do tio
Vlter, Guida, que estava passando frias na ilha de Wight, um
envelope pardo que parecia uma conta e - uma carta para Harry.
Harry apanhou-a e ficou olhando, o corao vibrando como
um elstico gigante. Ningum, jamais, em toda a sua vida, lhe
escrevera. Quem escreveria? Ele no tinha amigos, nem outros
parentes - no era scio da biblioteca, de modo que jamais recebera
sequer os bilhetes grosseiros pedindo a devoluo de livros.
Contudo, ali estava, uma carta, endereada to claramente que
no podia haver engano.
Sr. H. Potter.
O Armrio sob a Escada
Rua dos Alfeneiros 4
Little Whinging
Surrey.
O envelope era grosso e pesado, feito de pergaminho amarelado
e endereado com tinta verde-esmeralda. No havia selo.
Quando virou o envelope, com a mo trmula, Harry viu um
lacre de cera prpura com um braso; um leo, uma guia, um
texugo e uma cobra circulando uma grande letra "H".
- Anda depressa, moleque! - gritou tio Vlter da cozinha. -
Est fazendo o qu, procurando cartas-bombas? - E riu da prpria
piada.
Harry voltou  cozinha, ainda de olhos fixos na carta. Entregou
a conta e o postal ao tio Vlter, sentou-se e comeou a abrir
lentamente o envelope amarelo.
Tio Vlter rasgou o envelope da conta, deu um bufo de
desdm e virou o postal.
- Guida est doente - informou  tia Petnia, - Comeu um
marisco suspeito...
- Pai! - exclamou Duda de repente. -Ah! Harry recebeu uma
carta!
Harry ia desdobrar a carta, escrita no mesmo pergaminho
grosso como o envelope,,uando tio Vlter arrancou-a de sua mo.
- minha! - disse Harry, tentando recuper-la.
- Quem iria escrever para voc? - zombou tio Vlter, sacudindo
a carta com uma das mos para desdobr-la e percorrendo-
a com o olhar. Seu rosto passou de vermelho para verde mais rpido
do que um sinal de trfego. E no parou a. Segundos depois
ficou branco-acinzentado, cor de mingau de aveia velho.
    -P-P-Petnia!- ofegou.
Duda tentou agarrar a carta para l-la, mas tio Vlter segurou-
a no alto fora do seu alcance. Tia Petnia apanhou-a cheia de
curiosidade e leu a primeira linha. Por um instante pareceu que ela
talvez fosse desmaiar. Levou as duas mos  garganta e produziu
um rudo de engasgo.
- Vlter! Ah, meu Deus, Vlter!
Eles se encararam, parecendo ter esquecido que Harry e
Duda continuavam na cozinha. Duda no estava acostumado a
ser desprezado. Deu uma bengalada forte na cabea do pai.
- Quero ler esta carta - falou alto.
- Quero l-la - disse Harry furioso -, porque  minha.
Saiam, os dois - ordenou com voz rouca tio Vlter, enfiando
a carta no envelope.
Harry no se mexeu.
- QUERO MINHA CARTA! - gritou.
-Me deixa ver! - exigiu Duda.
- FoRA! - berrou tio Vlter, e agarrando os dois, Harry e Duda,
pelo cangote atirou-os no corredor e bateu a porta da cozinha.
Harry e Duda na mesma hora tiveram uma briga furiosa mas, silenciosa,
para saber quem ia escutar  fechadura; Duda ganhou, por
isso Harry, os culos pendurados em uma orelha, deitou-se de barriga
no cho para escutar pela fresta entre a porta e o cho.
- Vlter - disse tia Petnia com voz trmula - , olhe s o
endereo. Como  que eles poderiam saber onde ele dorme? Voc
acha que esto vigiando a casa?
- Vigiando, espionando, talvez nos seguindo - murmurou tio
Vlter enlouquecido.
- Mas o que vamos fazer, Vlter? Vamos responder  carta?
Dizer a eles que no queremos...
Harry via os sapatos pretos lustrosos do tio Vlter andando
para c e para l na cozinha.
- No - disse ele decidido. - No, vamos ignor-la. Se no
receberem uma resposta... ,  o melhor... no vamos fazer
nada...
- Mas...
- No vou ter um deles em casa, Petmia! Ns no juramos
quando o recebemos que amos acabar com aquela bobagem
perigosa?
Aquela noite, quando voltou do trabalho, tio Vlter fez uma
coisa que nunca fizera antes; visitou Harry no armrio.
- Cad minha carta? - perguntou Harry, no instante em que
tio Vlter se espremeu pela porta. - Quem me escreveu?
- Ningum. Enderearam a voc por engano - disse tio
Vlter secamente. - Queimei a carta.
- No foi um engano - retrucou Harry com raiva -, tinha o
endereo do meu armrio.
- CALADO! - gritou tio Vlter e algumas aranhas caram do
 teto. Ele inspirou algumas vezes e ento fez fora para produzir
um sorriso que pareceu bem penoso.
- Hum, sim, Harry, sobre este armrio. Sua tia e eu estivemos
pensando... voc realmente est ficando grande demais para ele...
achamos que seria bom se voc se mudasse para o segundo quarto
de Duda.
- Por qu? - perguntou Harry
-No faa perguntas - disse com rispidez o tio. -Leve essas
coisas para cima agora.
A casa dos Dursley tinha quatro quartos: um para tio Vlter e
tia Petna, um para hspedes (em geral a rm de tio Vlter,
Guda), um onde Duda dormia e um onde Duda guardava todos
os brinquedos e pertences que no cabiam no primeiro quarto.
Harry precisou de apenas uma viagem para mudar tudo o que tinha
do armrio para o quarto no andar de cima. Sentou-se na
cama e deu uma olhada  sua volta. Quase tudo ali estava quebrado.
A filmadora com apenas um ms de uso estava jogada em
cima de um pequeno tanque com que certa vez Duda atropelara
o cachorro do vizinho; no canto estava o primeiro televisor de
Duda, no qual ele enfiara o p quando seu programa favorito fora
cancelado; havia uma grande gaiola de pssaros, antigamente
habitada por um papagaio que Duda trocara na escola por uma
espingarda de ar de verdade, e que estava guardada numa prateleira
com a ponta dobrada porque Duda se sentara em cima dela.
Outras prateleiras estavam cheias de livros. Eram as nicas coisas no
quarto que pareciam nunca ter sido tocadas.
L de baixo veio o barulho de Duda gritando com a me:
- Eu no quero ele l... eupreciso daquele quarto... mande ele sair.
Harry suspirou e se esticou na cama. Ontem ele teria dado
qualquer coisa para estar ali. Hoje, preferia estar no seu armrio
com aquela carta do que ali em cima sem ela.
Na manh seguinte, no caf, todos estavam muito quietos.
Duda estava em estado de choque. Berrara, batera no pai com a
bengala, vomtara de propsito, dera pontaps na me e atirara
sua tartaruga pelo teto da estufa de plantas e nem assim conseguira
o quarto de volta. Harry pensava no dia anterior quela hora,
desejando com amargura que tivesse aberto a carta no hall. Tio
Vlter e tia Petnia se entreolhavam, ameaadores.
Quando o correio chegou, tio Vlter, que parecia estar tentando
ser agradvel com Harry, fez Duda ir busc-lo. Eles o ouviram
bater nas coisas do corredor com a bengala da Smeltings. Ento
ele gritou:
- Chegou outra! Sr. H. Potter, O Menor Quarto da Casa, Rua
dos Alfeneiros 4...
Com um grito sufocado tio Vlter saltou da cadeira e saiu cordo
pelo corredor, Harry logo atrs dele. Tio Vlter teve que lutar
e derrubar Duda no cho para lhe tirar a carta, o que foi
dificultado por Harry que agarrara o pescoo do tio Vlter por trs.
Depois de um minuto confuso de luta, em que todos levaram
vrias bengaladas, tio Vlter se endireitou, ofegante, com a carta de
Harry apertada na mo.
- V para o seu armrio, quero dizer, para o seu quarto -
chiou para Harry - Duda, saia, saia logo.
Harry deu voltas e mais voltas no novo quarto. Algum sabia
que ele se mudara do armrio e parecia saber que ele no recebera
a primeira carta. Isto significava com certeza que ia tentar outra
vez? E desta vez ele tomaria providncias para que desse certo. Tinha
um plano.
O despertador consertado tocou s seis horas na manh seguinte.
Harry desligou-o depressa e se vestiu em silncio. No podia
acordar os Dursley. Desceu as escadas sorrateiro sem acender
nenhuma luz.
Ia esperar pelo carteiro na esquina da Alfeneiros e receber
primeiro as cartas endereadas ao nmero quatro. Seu corao batia
com fora quando atravessou sem rudo o corredor escuro at a
porta de entrada.
- AAAAARRREE!
Harry deu um salto no ar - pisara em alguma coisa grande e
mole no capacho - uma coisa viva!
As luzes se acenderam no primeiro andar e, para seu horror,
Harry percebeu que a coisa grande e mole tinha a cara do tio. Tio
 Vlter estava dormindo junto  porta de entrada em um saco de
dormir para impedir que Harry ftzesse exatamente o que estava
tentando fazer. Gritou com Harry quase meia hora e depois lhe
disse para ir preparar uma xcara de ch. Harry foi para a cozinha
arrastando os ps, infeliz, e quando conseguiu voltar o correio tinha
sido entregue, bem no colo de tio Vlter. Harry viu trs cartas
endereadas em tinta verde.
- Quero... - comeou, mas tio Vlter estava rasgando as cartas
em pedacinhos bem diante dos seus olhos.
Tio Vlter no foi trabalhar naquele dia. Ficou em casa e
pregou a portinhola para cartas.
- Entende - explicou  tia Petnia por entre os lbios cheios
de pregos -, se eles no puderem entregar ento tero de desistir.
- No tenho muita certeza de que isto vai dar certo, Vlter.
- Ah, a cabea dessa gente funciona de maneira estranha,
Petnia, eles no so como voc e eu - disse tio Vlter tentando
bater um prego com um pedao de bolo de frutas que tia Petnia
acabara de Lhe trazer.
Na sexta-feira chegaram nada menos de doze cartas para Harry.
Como no passavam pela portinhola da correspondncia tinham
sido empurradas por baixo da porta, metidas pelos lados e algumas
at foradas pela janelinha do banheiro no trreo.
Tio Vlter ficou em casa de novo. Depois de queimar todas as
cartas, apanhou martelo e pregos e fechou com tbuas as frestas
em volta das portas da frente e dos fundos, de modo que ningum
pudesse sair. Cantarolou "P ante p no campo de tulipas"
enquanto trabalhava, e se assustava com qualquer rudo.
No sbado as coisas comearam a fugir ao seu controle. Vinte e
quatro cartas acabaram entrando em casa, enroladas e escondidas
nas duas dzias de ovos que o leiteiro, muito confuso, entregara 
tia Petnia pela janela da sala de estar. Enquanto tio Vlter dava
telefonemas furiosos para o correio e a leiteria tentando encontrar
algum a quem se queixar, tia Petnia picava as cartas no
processador de alimentos.
- Mas quem  que quer falar tanto assim com voc ? - Duda?
perguntou espantado a Harry.
Na manh do domingo, tio Vlter sentou-se  mesa do caf
parecendo cansado e um tanto doente, mas feliz.
- No tem correio aos domingos - lembrou a todos, contente,
passando gelia nos jornais -, nada de cartas idiotas hoje...
Alguma coisa desceu chiando pela chamin do fogo enquanto
ele falava e bateu com fora em sua nuca. No instante seguinte,
trinta ou quarenta cartas saram velozes da lareira como se fossem
tiros. Os Dursley se abaixaram, mas Harry deu um salto no ar para
apanhar uma...
- Fora! Fora!
Tio Vlter agarrou Harry pela cintura e atirou-o no corredor.
Depois que tia Petnia e Duda tinham corrido para fora
protegendo o rosto com os braos, tio Vlter bateu a porta. Eles podiam
ouvir as cartas disparando para dentro da cozinha, ricocheteando
nas paredes e no cho.
- J chega - disse tio Vlter, tentando falar com calma mas,
ao mesmo tempo, arrancando tufos de plos dos bigodes. -
Quero vocs aqui de volta em cinco minutos prontos para sair.
Vamos viajar. Ponham apenas algumas roupas nas malas. No
quero discusso!
Ele parecia to perigoso com metade dos bigodes arrancados
que ningum se atreveu a discutir. Dez minutos depois eles tinham
retirado as tbuas para passar nas portas e estavam no carro, correndo
em direo  estrada. Duda fungava no banco traseiro; o pai tinha
Ihe dado um tapa na cabea por atras-los tentando empacotar
a televiso, o vdeo e o computador na mochila esportiva.
Eles viajaram no carro. E viajaram. Nem tia Petnia se atrevia
a perguntar aonde iam. De vez em quando tio Vlter fazia uma
curva fechada e seguia na direo oposta por algum tempo.
- Para despist-los... despist-los - resmungava sempre que
fazia isso.
No pararam para comer nem beber o dia inteiro. Quando a
noite caiu Duda estava uivando. Nunca tivera um dia to ruim na
vida. Estava com fome, sentia falta dos cinco programas de televiso
que queria assistir e nunca levara tanto tempo sem explodir
um aliengena no computador.
Tio Vlter parou finalmente  porta de um hotel de aspecto
sombrio na periferia de uma grande cidade. Duda e Harry dividiram
um quarto com duas camas iguais e lenis midos que cheiravam
a mofo. Duda roncou mas Harry ficou acordado, sentado
no peitoril da janela, espiando as luzes dos carros que passavam
enquanto pensava...
Comeram cereal velho e torradas com tomates enlatados frios
no caf da manh do dia seguinte. Tinham acabado de comer
quando a proprietria do hotel aproximou-se da mesa.
- Com licena, mas um dos senhores  o Sr. H. Potter?  que
eu tenho umas cem dessas na recepo.
E ergueu uma carta para eles poderem ler o endereo em tinta
verde:
Sr. H. Potter
Quarto 17
Railview Hotel
Cokeworth
Harry tentou pegar a carta mas tio Vlter afastou sua mo. A
mulher ficou olhando.
- Eu recebo as cartas - disse tio Vlter, levantando-se depressa
e seguindo a mulher que se retirava do salo de refeies.
- No seria melhor simplesmente irmos para casa, querido? -
tia Petnia sugeriu timidamente horas depois, mas tio Vlter no
parecia ouvi-la. Exatamente o que andava procurando ningum
sabia. Ele os levou at o meio de uma floresta, desceu do carro,
espiou  volta, sacudiu a cabea, tornou a embarcar no carro e
partiram outra vez. A mesma coisa aconteceu no meio de um
campo arado, no meio de uma ponte pnsil e no alto de um
edificio garagem.
- Papai enlouqueceu, no foi? - Duda perguntou, cansado, 
tia Petnia no fim daquela tarde. Tio Vlter estacionara no litoral,
passara a chave no carro com todos dentro e desaparecera.
Comeou a chover. Grandes gotas batiam no teto do carro.
Duda choramingou.
-  segunda-feira - falou  me. - O Grande Humberto vai se
apresentar hoje  noite. Quero estar em algum lugar que tenha teleriso.
Segunda-feira. Isto lembrou a Harry uma coisa. Se era
segunda-feira - e em geral podia-se confiar que Duda soubesse os
dias da semana, por causa da televiso - ento o dia seguinte,
tera-feira, era o dcimo primeiro aniversrio de Harry. Naturalmente
seus aniversrios no eram l muito divertidos - no ano
anterior, os Dursley tinham-lhe dado um cabide e um par de
meias velhas do tio Vlter. Ainda assim, no se fazia onze anos
todos os dias.
Tio Vlter voltou sorrindo. Carregava um pacote comprido e
fino e no respondeu  tia Petnia quando ela perguntou o que
comprara.
- Encontrei o lugar perfeito! - falou. - Vamos! Saiam todos!
Fazia muito frio do lado de fora do carro. Tio Vlter apontou
para o que parecia ser um grande rochedo no meio do mar.
Encarrapitado no alto do rochedo havia o casebre mais miservel
que se pode imaginar. Uma coisa era certa, ali no havia televiso.
- Esto anunciando uma tempestade para hoje! - disse tio
Vlter alegre, batendo palmas. - E este senhor teve a bondade de
concordar em nos emprestar seu barco!
Um homem desdentado vinha descansadamente em direo
a eles, e apontava com um sorriso muito maldoso para um
barco a remos velho que subia e descia nas guas cinza-grafite l
embaixo.
- J comprei algumas raes para ns - disse tio Vlter -,
Portanto, todos a bordo!
Fazia muito frio no barco. Salpicos de gua gelada do mar
escorriam pelos pescoos deles e um vento cortante fustigava
seus rostos. Depois do que pareceram horas eles chegaram ao
rochedo, onde Tio Vlter, escorregando, levou-os at a casa em
runas.
O interior era horrvel; cheirava a algas marinhas, o vento
assobiava pelas frestas nas paredes de tbuas e a lareira estava mida
e vazia. Havia apenas dois quartos.
Afinal as raes de tio Vlter eram uma embalagem de cereal
para cada um e quatro bananas. Ele tentou acender a lareira mas a
embalagem de cereal apenas fumegou e carbonizou.
- Aquelas cartas viriam a calhar agora, heim! - disse ele
animado.
Estava de muito bom humor. Obviamente achava que ningum
teria chance de alcan-lo ali, durante uma tempestade, para
entregar cartas. Harry concordava intimamente, embora este
pensamento no o animasse nem um pouco.
Quando a noite caiu, a tempestade prometida desabou ao redor
deles. A espuma das altas ondas chapinhava nas paredes do
casebre e um vento ameaador sacudia as janelas imundas. Tia
Petnia encontrou uns cobertores mofados no segundo quarto e
preparou uma cama para Duda no sof comido pelas traas. Ela e
tio Vlter foram se deitar na cama cheia de calombos ao lado e
deixaram Harry procurar a parte mais macia do soalho e se enrolar
no cobertor mais rasgado e ralo.
A tempestade rugia cada vez com maior ferocidade  medida
que a noite avanava. Harry no conseguia dormir. Tremia e
revirava, tentando encontrar uma posio confortvel, seu estmago
roncando de fome. Os roncos de Duda eram abafados pela
trovoada que comeou por volta da meia-noite. O mostrador luminoso
do relgio de Duda, que estava pendurado para fora do sof
em seu pulso gordo, informava a Harry que dentro de dez minutos
ele completaria onze anos. Deitado, ele viu seu aniversrio se
aproximar, perguntando-se se os Dursley se lembrariam, 
perguntando-se onde estaria o remetente das cartas agora.
Faltavam cinco minutos. Harry ouviu alguma coisa estalar l
fora. Desejou que o teto no casse, embora quem sabe conseguise
se esquentar se isto acontecesse. Quatro minutos. Talvez a
casa na rua dos Alfeneiros estivesse to abarrotada de cartas que
quando voltassem ele pudesse surrupiar uma.
Trs minutos. Seria o mar batendo to forte na rocha? E (faltavam
dois minutos) que barulho esquisito de triturao era aquele?
Ser que a rocha estava se desintegrando no mar?
Mais um minuto e ele completaria onze anos. Trinta segundos...
vinte... dez - nove - talvez acordasse Duda, s para
aborrec-lo - trs - dois - um...
BUM.
O casebre todo estremeceu e Harry sentou-se reto, arregalando
os olhos para a porta. Havia algum l fora, que batia, querendo
entrar.


- CAPTULO QUATRO -
O guardio das chaves

Bum. Bateram outra vez. Duda acordou assustado.
- Onde est o canho? - perguntou abobado.
Ouviram alguma coisa cair atrs deles e tio Vlter entrou
derrapando pela sala. Trazia um rifle nas mos - agora sabiam o que
era aquele pacote fino e comprido que ele carregava.
- Quem est a? - gritou. - Olha que estou armado!
Silncio. E em seguida...
Tram!
A porta levou uma pancada to violenta que se soltou das
dobradias e, com um baque ensurdecedor, desabou no cho.
Um homem gigantesco estava parado ao portal. Tinha o rosto
completamente oculto por uma juba muito peluda e uma barba
selvagem e desgrenhada, mas dava para se ver seus olhos,
luzindo como besouros negros debaixo de todo aquele cabelo.
O gigante espremeu-se para entrar no casebre, curvando-se
de modo que a cabea apenas roou o teto. Abaixou-se, apanhou
a porta e tornou a encaix-la sem esforo no portal. O rudo da
tempestade l fora diminuiu um pouco. Ele se virou para encarar
todos.
- No poderia preparar uma xcara de ch para ns, poderia?
No foi uma viagem fcil...
E dirigiu-se ao sof onde Duda estava paralisado de medo.
- Chegue para l, gordo - disse o estranho.
Duda soltou um guincho e correu a se esconder atrs da me,
que parara encolhida, aterrorizada, atrs de tio Vlter.
-Ah, e aqui est o Harry! - disse o gigante.
Harry ergueu os olhos para a cara feroz e selvagem em sombras
e viu que os olhos de besouro se enrugavam em um sorriso.
-A ltima vez que o vi, voc era um beb - disse o gigante. -
Voc parece muito com o seu pai, mas tem os olhos da sua me.
Tio Vlter fez um som estranho e rascante.
- Exijo que saia imediatamente! - disse. - O senhor invadiu
minha casa!
- Ah, cala a boca, Dursley, seu cara de passa - disse o gigante;
esticou o brao para trs do sof e arrancou a arma das mos de
tio Vlter, vergou-a no meio como se ela fosse de borracha e ati-
rou-a a um canto da sala.
Tio Vlter fez outro som esquisito, como um camundongo
sendo pisado.
- Em todo caso, Harry- disse o gigante, dando as costas para
os Dursley -, feliz aniversrio para voc. Tenho uma coisa para
voc aqui; talvez tenha sentado nela sem querer mas o gosto
continua bom.
De um bolso interno do casaco preto ele tirou uma caixa
meio amassada. Harry abriu-a com os dedos trmulos. Dentro havia
um grande e pegajoso bolo de chocolate com a frase Feliz
Aniversrio escrita em glac vexde.
Harry olhou para o gigante. Quis dizer obrigado, mas as
palavras se perderam a caminho da boca, e em lugar disso o que
disse foi:
- Quem  voc?
O gigante deu uma risada abafada.
-  verdade, no me apresentei. Rbeo Hagrid, Guardio das
Chaves e das Terras de Hogwaxts.
Estendeu uma mo enorme e sacudiu o brao inteiro de
Harry.
- E que tal o ch, hein? - perguntou esfregando as mos. - Eu
no diria no a uma pessoa mais forte, se  que voc me entende.
Seus olhos bateram na lareira vazia em que ficara o pacote
carbonizado de cereal e ele soltou uma risadinha desdenhosa.
Curvou-se para a lareira; no viram o que ele estava fazendo mas
quando se afastou um segundo depois, havia dentro dela um claro
ribombante. O fogo estrondoso encheu todo o casebre mido
com sua luz tremeluzente e Harry sentiu o calor envolv-lo
como se tivesse mergulhado em um banho quente.
O gigante se recostou no sof, que afundou um pouco sob o
seu peso, e comeou a tirar coisas de todo gnero dos bolsos do
casaco: uma chaleira de cobre, uma embalagem amassada de
salsichas, um espeto, um bule de ch, vrias xcaras lascadas e uma
garrafa de um liquido mbar de que ele tomou um gole antes de
comear a preparar o ch. Logo o casebre se encheu com o rudo
e o cheiro de salsichas fritas. Ningum disse nada enquanto o
gigante trabalhava, mas assim que ele empurrou as primeiras salsichas
gordas e suculentas, ligeiramente queimadas, do espeto,
Duda se mexeu. Tio Vlter disse com rispidez:
- No toque em nada que ele lhe der, Duda.
O gigante deu uma risadinha ameaadora.
- Esse pudim de banha do seu filho no precisa engordar
mais, Dursley, no se preocupe.
E passou as salsichas para Harry, que estava to faminto e
nunca provara nada to maravilhoso, mas ainda assim no conseguia
tirar os olhos do gigante. Finalmente, como ningum parecia
disposto a explicar nada, ele disse:
- Me desculpe, mas continuo sem saber realmente quem
voc .
O gigante tomou um grande gole de ch e limpou a boca com
as costas da mo.
- Me chame de Rbeo,  como todos me chamam. E como
lhe disse, sou o guardio das chaves de Hogwarts, voc sabe tudo
sobre Hogwarts,  claro.
-Ah, no-disse Harry.
Hagrid pareceu chocado.
- Sinto muito - apressou-se Harry a dizer.
- Sente muito? - vociferou Hagrid, virando-se para encarar
os Dursley, que tinham recuado para as sombras. - Eles  que
deviam sentir muito! Eu sabia que voc no estava recebendo as cartas,
mas nunca pensei que nem ao menos sabia da existncia de
Hogwarts, para apelar! Voc nunca se perguntou onde foi que
seus pais aprenderam tudo?
- Tudo o qu? - perguntou Harry.
- TuDo o Qu? -berrou Hagrid. - Ora espere a um segundo!
Ele se levantara de um salto. Na raiva parecia encher o casebre
todo. Os Dursley se encolliiam contra a parede.
- Vocs vo querer me dizer - rosnou para os Duxsley - que
este menino, este menino!, no sabe nada, de Nada?
Harry achou que a coisa estava indo longe demais. Afinal tinha
freqentado a escola e suas notas no eram ruins.
- Eu sei alguma coisa - falou. - Sei, sabe, matemtica e outras
coisas.
Mas Hagrid dispensou-o com um abano de mo e disse:
- Do nosso mundo, quero dizer. Seu mundo. Meu mundo. O
mundo do sseus pais.
- Que mundo?
Hagrid parecia prestes a explodir.
- DURSLEy! - urrou ele.
Tio Vlter, que ficara muito plido, murmurou alguma coisa
ininteligvel. Hagrid olhou alucinado para Harry.
- Mas voc deve saber quem foram sua me e seu pai - disse.
- Quero dizer, eles so famosos. Voc  famoso.
- Qu? Meu pai e minha me eram famosos?
- Voc no sabe... voc no sabe... - Hagrid correu os dedos
pelos cabelos, fixando em Harry um olhar perplexo.
- Voc no sabe quem  ? - perguntou finalmente
Tio Vlter de repente encontrou a voz.
- Pare! - ordenou. - Pare agora mesmo! Eu o probo de
contar qualquer coisa ao menino!
 homem mais corajoso do que Vlter Dursley teria se
intimidado com o olhar furioso que Hagrid lhe deu; quando Hagrid
falou, cada slaba tremia de raiva.
- Voc nunca contou? Nunca contou o que Dumbledore
deixou escrito naquela carta para ele? Eu estava l! Eu vi Dumbledore
deixar a carta, Duxsley! E voc escondeu dele todos esses anos?
- Escondeu o que de mim? -perguntou Harry ansioso.
- PARE! EU O PROBO! - gritou tio Vlter em pnico.
Tia Petmia deixou escapar um grito sufocado de horror.
- Ah, vo tomar banho, vocs dois - disse Hagrid. - Harry,
voc  um bruxo.
O casebre mergulhou em silncio. Ouviam-se apenas o mar e
o assobio do vento.
- Eu sou o qu ? - ofegou Harry
- Um bruxo,  claro - repetiu Hagrid, recostando-se no sof,
que gemeu e afundou ainda mais -, e um bruxo de primeira, eu diria,
depois que receber um pequeno treino. Com uma me e um
pai como os seus, o que mais voc poderia ser? E acho que j est
na hora de ler a sua carta.
Harry estendeu a mo finalmente para receber o envelope meio
amarelo, endereado em tinta verde para Sr. H. Potter, O Soalho,
Casebre-sobre-o-Rochedo, O Mar. Ele puxou a carta e leu:
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA HOGWARTS
Diretor: Alvo Dumbledore
(Ordem de Merlin, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe,
Cacique Supremo, Confederao Internacional de Bruxos.
Prezado Sr. Potter,
Temos a honra de  informar que Tl Sa tem uma vaga na
Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma
lista dos livros e equipamentos necessrios.
O ano letivo comea em 1 de setembro. Aguardamos sua
coruja at 31 de julho, no mais tardar.
Atenciosamente,
Minerva McGonagall
Diretora Substituta
As perguntas explodiam na cabea de Harry como fogos de
artifcio, e ele no conseguia decidir o que perguntar primeiro.
Passados alguns minutos, gaguejou:
- O que querem dizer com "esto aguardando a minha
coruja"?
- Grgulas galopantes! Isto me lembra uma coisa - disse
Hagrid, batendo a mo na testa com foxa suficiente para derrubar
um cavalo, e de outro bolso interno do casaco tirou uma
coruja - uma coruja de verdade, viva, meio arrepiada - , uma longa
pena e um rolo de pergaminho. Com a lngua entre os dentes, ele
rabiscou um bilhete que Harry pde ler de cabea para baixo:
"Prezado Sr. Dumbledore,
Entreguei a carta a Harry. TJou lev-lo amanh para comprar o
material. O tempo est horrvel. Espero que o senhor esteja bem.
Hagrid. "
Hagrid enrolou o pergaminho, entregou-o  coruja, que o
prendeu no bico, depois ele foi at a porta e lanou a ave na
tempestade. Quando voltou, sentou-se como se aquilo fosse to normal
quanto pegar o telefone.
Harry percebeu que sua boca se abrira e fechou-a rapidamente.
- Onde  que eu estava? - disse Hagrid, mas naquele
momento, tio Vlter, ainda cor de cera, mas parecendo muito furioso,
adiantou-se at a luz da lareira.
- Ele no vai - falou.
Hagrid resmungou.
- Eu gostaria de ver um grande trouxa como voc impedi-lo
- respondeu.
- Um o qu? - perguntou Harry interessado.
- Um trouxa - disse Hagrid -,  como chamamos gente que
no  mgica como ns. E voc teve o azar de ser criado na famlia
dos maiores trouxas que j vi na vida.
- Juramos quando o aceitamos que poriamos um fim nessa
bobagem - disse tio Vlter -, juramos que erradicaramos isso
nele. Bruxo, francamente!
- Voc sabia? - perguntou Harry - Voc sabia que sou um...
bruxo?
- Sabia! - guinchou tia Petnia de repente. - Sabia! Claro que
sabamos! Como poderia no ser, a maldita da minha irm sendo
o que era? Ah, ela recebeu uma carta igual a essa e desapareceu,
foi para aquela - aquela escola - e voltava para casa nas frias com
os bolsos cheios de ovas de sapo, transfrmando xcaras em ratos.
Eu era a nica que a via como ela era - um aborto da natureza!
Mas para minha me e meu pai, ah no, era Llian isso e Llian
aquilo, tinham orgulho de ter uma bruxa na familia!
Ela parou para suspirar profundamente e a continuou seu
discurso. Parecia que estava querendo dizer aquilo havia anos.
- Ento ela conheceu Potter na escola e eles saram de casa,
casaram e tiveram voc, e  claro que eu sabia que voc ia ser igual,
esquisito, anormal, e ento ela vai e me faz o favor de se explodir e
nos deixar entalados com voc!
Harry ficara muito branco. Assim que encontrou a voz, disse:
- Se explodir? Voc me disse que eles morreram num acidente
de carro!
-ACIDENTE DE CARRO! - rugiu Hagrid, erguendo-se com tanta
raiva que os Dursley voltaram correndo para o canto da sala. -
Como  que um acidente de carro poderia matar Llian e Tiago
Potter! Isto  um absurdo! Um escndalo! E Harry Potter no
conhecer a prpria histria, quando qualquer garoto no nosso mundo
conhece o nome dele!
- Mas por qu? O que aconteceu? - perguntou Harry ansioso.
A raiva desapareceu do rosto de Hagrid. Ele pareceu
repetinanmente aflito.
- Eu nunca esperei isso - disse numa voz contida e preocupada.
- Eu no fazia idia do quanto voc desconhecia, quando
Dumbledore me disse que eu poderia ter problemas para
encontr-lo. Ah, Harry, no sei se sou a pessoa certa para lhe contar,
mas algum tem de contar, voc no pode viajar para
Hogwarts sem saber.
Ele lanou um olhar feio aos Dursley.
- Bom,  melhor voc saber o que eu puder lhe contar, mas
no posso lhe contar tudo,  um grande mistrio, algumas partes...
Ele se sentou, fitou o fogo durante alguns segundos e ento falou:
- Comea, eu acho, com... com uma pessoa chamada, mas 
incrvel voc no saber o nome dele, todo o mundo no nosso
mundo sabe...
- Quem?
-Bom... no gosto de dizer o nome dele se puder evitar. Ningum
gosta.
- Por que no?
- Grgulas vorazes, Harry, as pessoas ainda esto apavoradas.
Droga, como  difcil. Olha, havia um bruxo que virou... mau.
To mau quanto algum pode virar. Pior. Pior do que o pior. O
nome dele era...
Hagrid engoliu em seco, mas no conseguiu dizer nada.
- E se voc escrevesse? - sugeriu Harry.
- No, no sei soletrar o nome dele. Est bem, Voldemort. -
Hagrid estremeceu. - No me faa repetir. Em todo o caso, esse...
esse bruxo, faz uns vinte anos agora, comeou a procurar seguidores.
E conseguiu, alguns por medo, outros porque queriam ter um
pouco do poder dele, sim, porque ele estava ficando poderoso. Dias
funestos, Harry, ningam sabia em quem confiar, ningum se atrevia
a ficar amigo de bruxas ou bruxos desconhecidos... Coisas
horrveis aconteciam. Ele estava tomando o poder.  claro que algumas
pessoas se opuseram a ele, e ele as matou. Terrvel. Um dos
nicos lugares seguros que restaram foi Hogwarts. Acho que
Dumbledore era o nico de quem Voc-Sabe-Quem tinha medo.
No ousou se apoderar da escola, no no comeo, pelo menos.
"Ora, sua me e seu pai eram os melhores bruxos que eu j
conheci. Primeiros alunos em Hogwarts no seu tempo! Suponho
que o mistrio era por que Voc-Sabe-Quem nunca tentou
convencer os dois a se aliar a ele antes... provavelmente sabia que
eram muito chegados a Dumbledore para querer alguma coisa
com o lado das Trevas.
" Talvez ele achasse que podia convenc-los... talvez quisesse tirar
os dois do caminho. S o que sabemos  que ele apareceu na vila
em que vocs estavam morando, num dia das bruxas, faz dez anos.
Na poca voc s tinha um ano de idade. Ele foi  sua casa e... e..."
Hagrid puxou depressa um leno muito sujo e manchado e
assoou o nariz, fazendo o barulho de uma buzina de nevoeiro.
- Desculpe - disse. - Mas  muito triste, conheci sua me e
seu pai e no podia existir gente melhor, em todo o caso...
"Voc-Sabe-Quem matou os dois. E ento, e esse  o verdadeiro
mistrio da coisa, ele tentou matar voc. Queria fazer o servio
completo, acho, ou ento tinha comeado a gostar de matar. Mas
no conseguiu. Voc nunca se perguntou como arranjou essa marca
na testa? Isso no foi um corte normal. Isso  o que se ganha
quando um feitio poderoso e maligno atinge a gente; destruiu os
seus pais e at a sua casa, mas no fez efeito em voc, e  por isso
que voc  famoso, Harry. Ningum nunca sobreviveu depois que
ele decidia mat-lo, ningum a no ser voc, e ele j havia matado
alguns dos melhores bruxos da poca, os McKinnon, os Bone, os
Priuet, e voc era apenas um beb, e sobreviveu."
Algo muito doloroso passou pela cabea de Harry Quando a
histria de Hagrid ia terminando ele viu de novo um lampejo
ofuscante de luz verde, com mais clareza do que se lembrava
antes - e se lembrou de mais uma coisa, pela primeira vez na vida -
uma risada alta, fria e cruel.
Hagrid o observava com tristeza.
- Eu mesmo o retirei da casa destruda, por ordem de
Dumbledore. Trouxe voc para essa gente...
- Um monte de baboseiras antigas - disse tio Vlter.
Harry se assustou, quase esquecera que os Dursley estavam
ali. Tio Vlter, sem dvida, tinha recuperado a coragem. Olhava
ameaador para Hagrid e tinha os punhos fechados.
- Agora, oua aqui, moleque - vociferou -, aceito que voc
seja meio estranho, provavelmente nada que uma boa surra no
pudesse ter curado, e quanto aos seus pais, bem, eles eram excntricos,
no h como negar, e o mundo est melhor sem eles,
receberam o que mereciam por se meter com essa gente dada a bruxarias,
foi o que previ, sempre soube que iam acabar mal.
Mas naquele instante, Hagrid ergueu-se de um salto do sof e
puxou um guarda-chuva cor-de-rosa e arrebentado de dentro do
casaco. Apontou-o como uma espada para tio Vlter, e disse:
- Estou lhe avisando, Dursley, estou lhe avisando, nem mais
uma palavra...
Ameaado de ser furado pela ponta de um guarda-chuva por
um gigante barbudo, a coragem de tio Vlter fraquejou outra vez;
ele se achatou contra a parede e ficou em silncio.
-Assim est melhor- disse Hagrid, arquejando e tornando a
se sentar no sof, que desta vez afundou de vez at o cho.
Harry, nesse meio tempo, continuava a ter perguntas a fazer,
centenas delas.
- Mas o que aconteceu ao Vol... desculpe... quero dizer,
Voc-Sabe-Quem?
- Boa pergunta, Harry Desapareceu. Sumiu. Na mesma noite
em que tentou matar voc. O que faz voc ainda mais famoso.
 o maior mistrio, entende... ele estava ficando cada dia mais
poderoso, por que foi embora?
"Tem quem diga que ele morreu. Besteira, na minha opinio.
No sei se ainda tinha humanidade suficiente para morrer. Tem
quem diga que ainda est l fora esperando, ou coisa parecida,
mas no acredito. Gente que estava do lado dele voltou para o
nosso. Uns pareciam que estavam saindo de uma espcie de transe.
Acho que no teriam feito isso se ele fosse voltar.
"A maioria de ns acha que ele ainda anda por a mas perdeu
os poderes. Est fraco demais para continuar. Porque alguma coisa
em voc acabou com ele, Harry. Aconteceu alguma coisa, naquela
noite, com que ele no estava contando, eu no sei o que foi, ningum
sabe, mas alguma coisa em voc o aleijou, para valer"
Hagrid fitou Harry com calor e respeito iluminando seus
olhos, mas Harry, ao invs de se sentir contente e orgulhoso, teve
a certeza de que tinha havido um terrvel engano. Bruxo? Ele?
Como era possvel? Passara a vida dominado por Duda e
infernizado pela tia Petnia e pelo tio Vlter; se era realmente um
bruxo, por que eles no tinham se transformado em sapos toda
vez que tentaram prend-lo no armrio? Se uma vez derrotara o
maior feiticeiro do mundo, como  que Duda sempre pudera
chut-lo para c e para l como se fosse uma bola de futebol?
- Rbeo - disse calmo -, acho que voc deve ter cometido
um engano. Acho que no posso ser um bruxo.
Para sua surpresa, Hagrid deu uma risadinha abafada.
- No  bruxo, hein? Nunca fez nada acontecer quando estava
apavorado ou zangado?
Harry olhou para o fogo. Pensando bem... cada coisa estranha
que deixara os seus tios furiosos tinha acontecido quando ele,
Harry, estava perturbado ou com raiva... perseguido pela turma
de Duda, pusera-se de repente fora do seu alcance... receoso de ir
para a escola com aquele corte ridculo, conseguira fazer os cabelos
crescerem de novo... e da ltima vez que Duda batera nele, no
fora  forra sem perceber que estava fazendo isto? No mandara
uma cobra atac-lo?
Harry olhou para Hagrid, sorrindo, e viu que ele ria abertamente
para ele.
- Viu? - disse Hagrid. - Harry Potter no  bruxo? Espere
voc vai ser famoso em Hogwarts.
Mas tio Vlter no ia ceder sem brigar.
- Eu no j disse que ele no vai? - sibilou. - Ele vai para a escola
secundria local e vai me agradecer por isso. Li aquelas cartas
e dizem que ele precisa de um monte de lixo - livros de feitios,
varinhas mgicas e...
- Se ele quiser ir, um trouxo como voc no vai poder impedir
- resmungou Hagrid raivoso. - Impedir o filho de Llian e
Tiago Potter de ir para Hogwarts! Voc enlouqueceu. Ele est
inscrito desde que nasceu. Vai freqentar a melhor escola de bruxos
e bruxedos do mundo. Sete anos l e ele nem vai se reconhecer.
Vai estudar com garotos iguais a ele, para variar, e va estudar com
o maior mestre que Hogwarts j teve, Alvo Dumbled...
- NO VOU PAGAR A NENHUM VELHO BIRUTA E PATETA PARA
ENSIN-LO A FAZER MGICAS! -gritou tio Vlter.
Mas ele finalmente fora longe demais. Hagrid agarrou o
guarda-chuva e girou-o por cima da cabea.
- NuNca - trovejou - ... Insulte ALvo Dumbledore ... NA...
MINHA FRENTE!
E girou o guarda-chuva no ar baixando-o at apontar para
Duda - houve um lampejo de luz violeta, o estalo de uma
bombinha, um grito agudo e, no segundo seguinte, Duda estava
danando no mesmo lugar com as mos apertando a barriga
banhuda, guinchando de dor. Quando Duda virou de costas,
Harry viu um rabo de porco enroscado saindo de um buraco nas
calas dele.
Tio Vlter urrou. Puxando tia Petnia e Duda para o quarto,
lanou um ltimo olhar aterrorizado a Hagrid e bateu a porta
ao sair.
Hagrid olhou para o guarda-chuva e coou a barba.
- No devia ter perdido as estribeiras - disse arrependido -,
mas em todo o caso saiu errado. Queria transform-lo em porco,
mas acho que ele j parecia tanto com um que no pude fazer
muita coisa.
E olhou de esguelha para Harry, por baixo das sobrancelhas
peludas.
- Fico agradecido se no contar isso para ningum em
,Hogwarts - falou. - No, hum, tenho permisso para fazer mgicas
rigorosamente falando. Permitiram que eu fizesse alguma coisa
para seguir voc e entregar as cartas e coisas assim, uma das
razes por que eu queria tanto este trabalho.
- Por que voc no pode fazer mgicas? - perguntou Harry.
- Ah, bom... eu estive em Hogwarts mas... hum... fui expulso,
para falar a verdade. No terceiro ano. Eles partiram a minha varinha
ao meio e tudo o mais. Mas Dumbledore me deixou ficar
como guarda-caa. Grande sujeito o Dumbledore.
- Por que voc foi expulso?
- J est ficando tarde e temos muito o que fazer amanh -
disse Hagrid em voz alta. - Temos que ir  cidade, comprar os
seus livros e etctera.
Ele tirou o grosso casaco preto e atirou-o a Harry
- Pode ficar com ele. No se assuste se ele se mexer um pouco,
acho que ainda tenho uns ratos do campo em um dos bolsos.

- CAPTULO CINCO
O Beco Diagonal

Harry acordou cedo na manh seguinte. Embora soubesse que j
era dia, continuou com os olhos bem fechados.
"Foi um sonho", disse a si mesmo com firmeza. "Sonhei que
um gigante chamado Rbeo Hagrid veio me dizer que eu ia para
uma escola de magia. Quando abrir os olhos estarei em casa no
meu armrio."
De repente ouviu um rudo alto de batidas.
" a tia Petnia batendo na porta", pensou Harry, desanimando.
Mas, ainda assim, no abriu os olhos. Tinha sido um
sonho to bom.
Bum. Bum. Bum.
- Est bem - resmungou Harry - J estou levantando.
Sentou-se e o pesado casaco de Hagrid escorregou de seu
corpo. O casebre estava inundado de sol, a tempestade passara, o
prprio Hagrid estava dormindo no sof desmontado e havia
uma coruja batendo com a garra na janela, trazendo um jornal no
bico.
Harry ergueu-se de um pulo, sentia-se feliz como se houvesse
um grande balo crescendo dentro dele. Foi direto  janela e
abriu-a com um pnumo. A coruja entrou voando e deixou cair o
jornal em cima de Hagrid, que nem acordou. A coruja ento voou
pelo cho e comeou a atacar o casaco do gigante Hagrid.
-No faaisso.
Harry tentou espantar a coruja, mas ela o ameaou com o
bico e continuou a atacar ferozmente o casaco.
- Rbeo! - chamou Harry alto. - Tem uma coruja...
- Pague a ela - resmungou Hagrid dentro do sof.
- Qu?
- Ela quer receber o pagamento pela entrega do jornal.
Procure nos bolsos.
O casaco de Hagrid parecia ser feito s de bolsos - molhos de
chaves, fichas de metal, rolinhos de barbante, balas de hortel,
saquinhos de ch... e, finalmente, Harry pnumou um punhado de
moedas estranhas.
- D a ela cinco nuques - disse Hagrid sonolento.
- Nuques?
-As moedinhas de bronze.
Harry contou cinco moedinhas de bronze e a coruja esticou a
perna para ele enfiar o dinheiro numa carteirinha de couro que
trazia presa. Em seguida saiu voando pela janela aberta.
Hagrid bocejou alto, sentou-se, espreguiou-se.
-  melhor nos despacharmos, Harry, temos muito o que
fazer hoje, temos que ir a Londres comprar todo o seu material
escolar.
Harry revirava as moedas mgicas para examin-las. Acabara
de pensar em uma coisa que o fez se sentir como se o balo da
felicidade que havia dentro dele tivesse furado.
- Hum... Hagrid?
- Hum - respondeu Rbeo, calando as enormes botas.
- No tenho dinheiro nenhum, e voc ouviu tio Vlter  noite
passada, ele no vai pagar para eu aprender magia.
- No se preocupe com isso - disse Hagrid, coando a cabea
enquanto se levantava. - Voc acha que seus pais no lhe
deixaram nada?
- Mas se a casa foi destruda...
- Eles no guardavam o ouro que tinham em casa, garoto!
No, nossa primeira parada vai ser em Gringotes. O banco dos
bruxos. Coma uma salsicha, elas no so ruins frias, e eu no
deixaria de comer uma fatia do seu bolo de aniversrio.
-Bruxos tm banco.?
- S este. Gringotes.  administrado por duendes.
 Harry deixou cair o pedao de salsicha que tinha na mo.
- Duendes?
- ,  por isso que s um louco tentaria roubar o banco,  o
que lhe digo. Nunca se meta com duendes, Harry. Gringotes  o
lugar mais seguro do mundo para qualquer coisa que voc queira
guardar bem, com exceo de Hogwarts, talvez. Alis, preciso
mesmo ir a Gringotes. Para Dumbledore. Negcios de Hogwarts.
- Hagrid se endireitou, orgulhoso. - Ele sempre me manda tratar
de assuntos que acha importantes. Buscar voc, pegar coisas em
Gringotes, sabe que pode confiar em mim, entende? Apanhou
tudo? Vamos, ento.
Harry seguiu Hagrid em direo ao rochedo. O cu estava
bem claro agora e o mar cintilava ao sol. O barco que tio Vlter
alugara continuava l, com muita gua no fundo depois da
tempestade.
- Como foi que voc chegou aqui? - perguntou Harry,
proccurando um segundo barco.
- Voando - respondeu Hagrid.
- Voando?
- ... mas vamos voltar nisso a. No tenho permisso de usar
mgica depois de apanhar voc.
Eles se acomodaram no barco, Harry ainda de olhos arregalados
para Hagrid, tentando imagin-lo voando.
- Mas parece um desperdcio remar - disse Hagrid, lanando
a Harry um dos seus olhares de esguelha. - Se eu quisesse...
hum... apressar um pouco as coisas, voc se importaria de no dizer
nada em Hogwarts?
- Claro que no - falou Harry, ansioso para ver mais mgicas.
Hagrid pnumou outra vez o guarda-chuva cor-de-rosa, deu duas
pancadinhas no lado do barco e eles dispararam em direo ao
continente.
- Por que s um louco tentaria roubar Gringotes? - perguntou
Harry.
- Feitios... encantamentos - disse Hagrid desdobrando o seu
jornal. - Dizem que h drages guardando os cofres de seguran.a
E depois  preciso conhecer o caminho. Gringotes fica embaixo
de Londres, centenas de quilmetros abaixo, entenda. Mais
fundo que o metr. Voc morreria de fome tentando sair de l
mesmo que conseguisse pr as mos em alguma coisa.
Harry ficou sentado pensando no que ouvira enquanto
Hagrid lia o jornal, O Profeta Dirio. Harry aprendera com o tio
Vlter que as pessoas gostavam de ser deixadas em paz quando
faziam isso, mas era muito difcil, nunca tivera tantas perguntas
para fazer na vida.
- O Ministrio da Magia anda aprontando as trapalhadas de
sempre - resmungou Hagrid, virando a pgina.
- Tem um ministro da Magia? - perguntou Harry antes que
conseguisse se conter.
- Claro. Queriam nomear Dumbledore ministro,  claro, mas
ele nunca ia largar Hogwarts, ento o velho Cornelius Fudge
ficou com o cargo. Trapalho como ele s. Por isso ele bombardeia
Dumbledore com corujas, toda manh, pedindo conselhos.
- Mas o que  que o Ministrio da Magia faz?
- Bom, a principal tarefa  esconder dos trouxas que ainda
existem bruxas e bruxos andando pelo pas.
- Por qu?
- Por qu? Ora, Harry, todo o mundo ia querer solucionar os
problemas com mgicas. No,  melhor que nos deixem em paz.
Nesse instante o barco bateu suavemente na parede do cais.
Hagrid dobrou o jornal e eles subiram os degraus de pedra que
levavam  rua.
As pessoas que passavam olhavam muito para Hagrid enquanto
os dois atravessaram a cidadezinha at a estao. Harry no
podia culp-los. No s Hagrid era duas vezes mais alto do que todo o
mundo, como tambm no parava de apontar para coisas absolutamente
comuns como parqumetros e comentar em voz alta:
- Est vendo isso, Harry? As coisas que esses trouxas inventam,
hein?
- Rbeo - disse Harry, meio ofegante de correr para acompanhar
o passo dele. - Voc disse que h drages em Gringotes?
- Bem,  o que dizem - falou Hagrid. - Maneiro, eu gostaria
de ter um drago.
- Voc gostaria de ter um?
- Sempre quis ter um desde pequeno,  aqui que vamos.
Tinham chegado  estao. Havia um trem para Londres dali
a cinco minutos. Hagrid, que no entendia o dinheiro dos trouxas,
como o chamava, entregou as notas a Harry para comprar as passagens.
No trem as pessoas ficaram olhando ainda mais. Hagrid
ocupou dois lugares e se ps a tricotar uma coisa amarelo-canrio que
lembrava uma lona de circo.
- Voc guardou sua carta, Harry? - perguntou enquanto
contava as malhas do tric.
Harry tirou o envelope de pergaminho do bolso.
-timo. A tem uma lista de tudo que voc vai precisar.
Harry desdobrou um segundo pedao de papel em que no
reparara na noite anterior e leu:
ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS
Uniforme
Os estudantes do primeiro ano precisam de:
1. Trs conjuntos de vestes comuns de trabalho (pretas)
2. Um chapu pontudo simmples (preto para uso dirio)
3. Umpar de luvas protetoras (couro de drago ou similar)
4. Uma capa de inverno (preta com fechosprateados)
As roupas do aluno devem ter etiquetas com seu nome.
Livros
Os alunos devem comprar um exemplar de cada um dos seguintes:
Livro padro de feitios (1a srie) de Miranda Goshawk
Histria da magia de Batilda Bagshot
Teoria da magia de Adalberto Waffing
Guia de transfigurao para iniciantes de Emerico Switch
Mil ervas e fungos mgicos de Flida Spore
Bebidas e poes mgicas de Arsnio Jigger
Animais fantsticos e seu hbitat de Newton Scamander
As foras das trevas: Um guia de autoproteo de Quintino Trimble.
Outros Equipamentos
1 varinha mgica
  caldeiro (estanho, tamanho padro)
1 conjunto de frascos
1 telescpio
1 balanfa de lato
Os alunos podem ainda trazer uma coruja ou um gato ou um sapo.
LEMBRAMOS AOS PAIS QUE OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO NO PODEM
USAR VASSOURAS PESSOAIS.
- Podemos comprar tudo isso em Londres? - perguntou-se
Harry em voz alta.
- Se voc souber aonde ir - respondeu Hagrid.
Harry nunca estivera em Londres antes. Hagrid, embora parecesse
saber aonde ia, obviamente no estava acostumado a chegar l
pelos meios comuns. Ficou entalado na roleta do metr e
queixou-se em voz alta que os assentos eram demasiado pequenos e
os trens demasiado lentos.
- No sei como os trouxas conseguem se arranjar sem mgica
- disse, quando subiam uma escada rolante gasta que levava a
uma rua movimentada com lojas dos dois lados.
Hagrid era to grande que abria caminho pela multido sem
esforo, Harry s precisava segui-lo de perto. Passaram por livrarias
e lojas de msica, lanchonetes e cinemas, mas nenhuma loja
parecia vender varinhas mgicas. Aquela era apenas uma rua
comum cheia de gente comum. Seria realmente possvel que
houvesse montes de ouro dos bruxos enterrados quilmetros abaixo
dali? Haveria realmente lojas que vendessem livros de feitios
vassouras? No seria talvez uma grande pea que os Dursley
tinham pregado? Se Harry no soubesse que os Dursley no tinham
senso de humor, poderia ter tirado uma dessas concluses;
mas, por alguma razo, embora tudo que Hagrid tivesse dito at
ali fosse inacreditvel, Harry no podia deixar de confiar nele.
-  aqui- disse Hagrid parando. - O Caldeiro Furado.  um
lugar famoso.
Era um barzinho sujo. Se Hagrid no o tivesse apontado,
Harry nem teria reparado que existia. As pessoas que passavam
apressadas nem olhavam para aquele lado. Os olhos delas corriam
da grande livraria a um lado  loja de discos no outro como se
nem conseguissem ver O Caldeiro Furado. Na verdade Harry
teve a sensao muito estranha de que somente ele e Hagrid eram
capazes de v-lo. Antes que pudesse comentar isto, Hagrid o
empurrou para dentro.
Para um lugar famoso, o Caldeiro era muito escuro e miservel.
Havia umas velhas sentadas a um canto, bebendo pequenos
clices de xerez. Uma delas fumava um longo cachimbo. Um
homenzinho de cartola conversava com o velho garom do bar, que
era bem careca e parecia uma noz viscosa. O zunzum das conversas
parou quando eles entraram. Todos pareciam conhecer
Hagrid; acenaram e sorriram para ele, e o garom apanhou um
copo, perguntando:
- O de sempre, Hagrid?
- No posso, Tom, estou a servio de Hogwarts - disse
Hagrid, dando uma palmada com a manzorra no ombro de
Harry, o que fez os joelhos do garoto dobrarem.
- Meu Deus - exclamou o garom, fitando Harry - ... ser
possvel?
O Caldeiro Furado repentinamente parou e fez-se um silncio
total.
- Valha-me Deus - murmurou o velho garom. - Harry
Potter... que honra.
E saiu correndo de trs do balco, precipitou-se para Harry e
agarrou suas mos, as lgrimas nos olhos.
- Seja bem-vindo, Sr. Potter, seja bem-vindo.
Harry no sabia o que dizer. Todos tinham os olhos nele. A
velha com o cachimbo pnumava o fumo sem se dar conta de que o
cachimbo apagara. Hagrid sorria radiante.
Logo houve um grande arrastar de cadeiras e no momento
seguinte Harry se viu apertando as mos de todos n'O Caldeiro 
Furado.
- Dris Crockford, Sr. Potter, no acredito que finalmente
posso conhec-lo.
- Estou to orgulhosa, Sr. Potter, to orgulhosa.
- Sempre quis apertar sua mo. Estou nas nuvens.
- Encantado, Sr. Potter, nem sei lhe dizer o quanto, Diggle 
o meu nome, Ddalo Diggle.
- J vi o senhor antes! - disse Harry, e a cartola de Diggle caiu
de tanta excitao. - O senhor se curvou para mim uma vez numa
loja.
- Ele se lembra! - exclamou Ddalo Diggle, olhando todos 
volta. - Vocs ouviram isso? Ele se lembra de mim!
Harry apertou muitas mos. Dris Crockford no parava de
voltar para um novo aperto.
Um rapaz plido adiantou-se, muito nervoso. Um olho
trmulo.
- Prof. Quirrell! - disse Hagrid. - Harry, o Prof. Quirrell vai
ser um dos seus professores em Hogwarts.
- P-P-Potter - gaguejou o Prof. Quirrell, apertando a mo de
Harry - n-n-em sei d-d-dizer que p-p-p-prazer enorme  c-c-
conhec-lo.
- Que tipo de mgica o senhor ensina, Prof. Quirrell?
- D-d-defesa c-c-ontra as axt-t-tes das t-t-trevas - murmurou
o Prof. Quirrell, como se preferisse no pensar no assunto. - N-n-
no que voc p-p-precise, hein, Potter? - Ele riu nervoso. - V v-
voc veio c-c-comprar o material, suponho? Tenho que c-c-com-
prar um livro n-n-novo sobre vampiros. - Parecia aterrorizado s
de pensar.
Mas os outros no queriam deixar o Prof. Quirrell ficar com
Harry s para ele. Levou bem uns dez minutos para o menino se
livrar de todos. Finalmente, Hagrid conseguiu se fazer ouvir
naquela balbrdia.
- Precisamos nos apressar. Temos muitas compras a fazer.
Vamos, Harry.
Dris Crockford apertou a mo de Harry uma ltima vez e
eles passaram pelo bar e saram num pequeno ptio murado, onde
no havia nada exceto uma lata de lixo e um pouco de mato.
Hagrid sorriu para Harry.
- Eu lhe falei, no foi? Falei que voc era famoso. At o
professor Quirrell ficou tremendo de emoo de o conhecer, mas,
em geral, ele est sempre tremendo.
- Ele  sempre to nervoso?
- Ah, . Coitado. Uma cabea brilhante. Foi bem enquanto
estudou em livros mas quando tirou um ano para aprender na
prtica... Dizem que encontrou vampiros na Floresta Negra e teve
um problema feio com uma feiticeira, nunca mais foi o mesmo.
Tem pavor dos alunos, tem pavor da matria que ensina, agora,
cad o meu guarda-chuva?
Vampiros? Feiticeiras? A cabea de Harry estava girando.
Entrementes, Hagrid contava tijolos na parede por cima da lata
de lixo.
- Trs para cima... dois para o lado... - murmurou. - Certo,
chegue para trs, Harry.
Ele bateu na parede trs vezes com a ponta do guarda-chuva.
E o tijolo que tocou estremeceu, torceu-se. No meio apareceu
um buraquinho, que se foi alargando cada vez mais. Um segundo
depois se viram diante de um arco bastante grande at para
Hagrid, um arco que abria para uma rua de pedras irregulares,
serpeava e desaparecia de vista.
- Bem-vindo - disse Hagrid - ao Beco Diagonal.
Ele xiu do espanto de Harry. Atravessram o arco. Harry deu
uma espiada rpida por cima do ombro e viu o arco encolher
instantaneamente e virar uma parede slida.
O sol refulga numa pilha de caldeires  porta da loja mais
prxima. Caldeiro
de Prata - Automexedio - Dobrvel, dizia um letreiro acima.
- , voc vai precisar de um - disse Hagrid -, mas temos de
apanhar o seu dinheiro primeiro.
Harry desejou ter oito olhos. Virava a cabea para todo o lado
enquanto caminhavam pela rua, tentando ver tudo ao mesmo
tempo: as lojas, as coisas s portas, as pessoas fazendo compras.
Uma mulher gorducha do lado de fora de uma farmcia abanou a
cabea quando passaram por ela e disse:
- Fgado de drago, dezessete sicles trinta gramas, eles
endoidaram...
Um pio baixo e suave veio de uma loja escura com um letreiro
onde se lia "Emprio de Corujas - douradas, das-torres, do
campo, marrons e brancas".
Vrios garotos mais ou menos da idade de Harry espremiam
os narizes contra a vitrine que tinha vassouras.
- Olhe - Harry ouviu um deles dizer - a nova Nimbus 2000,
mais veloz que nunca.
Havia lojas que vendiam vestes, lojas que vendiam telescpios e
estranhos instrumentos de prata que Harry nunca vira antes,
lojas com pilhas de barris contendo baos de morcegos e olhos de
enguias, pilhas mal equilibradas de livros de feitios, penas de
aves para escrever e rolos de pergaminhos, vidros de poes,
globos de...
- Gringotes - anunciou Hagrid.
Tinham chegado a um edifcio muito branco que se erguia
acima das lojinhas. Parado diante das portas de bronze polido,
usando um uniforme vermelho e dourado, havia...
- ,  um duende - disse Hagrid baixinho, enquanto subiam
os degraus de pedra branca at o duende. Ele era uma cabea mais
baixo do que Harry. Tinha uma cara escura e inteligente, uma barba
em ponta e, Harry reparou, mos e ps muito compridos. O
duende os cumprimentou com uma reverncia quando entraram.
Em seguida depararam com um segundo par de portas, desta vez
de prata, onde havia gravado o seguinte:
Entrem, estranhos, masprestem ateno
Ao que espera o pecado da ambio,
Porque os que tiram o que no ganharam
Tero  que pagar muito caro,
Assim, seprocuram sob o nosso cho
Um tesouro que nunca enterraram,
Ladro, voc foi avisado, cuidado,
pois vai encontrar mais do que procurou.
- No te disse? S um louco tentaria roubar o banco - lembrou
Hagrid.
Dois duendes se curvaram quando eles passaram pelas portas
de prata e desembocaram em um grande saguo de mrmore.
Havia mais de cem duendes sentados em banquinhos altos atrs de
um longo balco, escrevendo em grandes livros-caixas, pesando
moedas em balanas de lato, examinando pedras preciosas com
culos de joalheiro. Havia ao redor do saguo portas demais para
contar, e outros tantos duendes acompanhavam as pessoas que
entravam e saam por elas. Hagrid e Harry se dirigiram ao balco.
- Bom dia - disse Hagrid a um duende desocupado. - Viemos
sacar algum dinheiro do cofre do Sr. Harry Potter.
- O senhor tem a chave?
-Tenho em algum lugar - disse Hagrid e comeou a esvaziar
os bolsos em cima do balco, espalhando um punhado de
biscoitos de cachorro mofados em cima do livro-caixa do duende. O
duende franziu o nariz. Harry observou o duende do lado direito
pesar um monte de rubis do tamanho de carves em brasa.
"Achei", exclamou Hagrid finalmente, mostrando uma
chavinha de ouro.
O duende examinou-a cuidadosamente.
-Parece estar em ordem.
- E tenho aqui tambm uma carta do professor Dumbledore
- falou Hagrid com ar importante, tirando-a do bolso do casaco.
- sobre Voc-Sabe-O-Qu que est no cofre setecentos e treze.
O duende leu a carta com ateno.
- Muito bem! - falou, devolvendo a carta a Hagrid. - Vou
mandar algum lev-lo aos dois cofres. Grampo!
Grampo era outro duende. Depois que Hagrid enfiou todos
os biscoitos de cachorro de volta nos bolsos, ele e Harry acompanharam
Grampo a uma das portas que havia no saguo.
- O que  o Voc-Sabe-O-Qu no cofre setecentos e treze? -
perguntou Harry.
- No posso lhe contar - respondeu Hagrid misterioso. -
Muito secreto. Negcios de Hogwarts. Dumbledore me confiou.
Meu emprego vale mais do que a vontade de lhe contar.
Grampo segurou a porta aberta para eles passarem. Harry,
que esperara mais mrmore, surpreendeu-se. Encontravam-se
em uma passagem estreita de pedra, iluminada por archotes
chamejantes. Era uma descida ngreme, em que havia pequenos
 trilhos. Grampo assobiou e um vagonete disparou pelos
trilhos em sua direo. Eles embarcaram - Hagrid com alguma
dificuldade - e partiram.
A princpio eles apenas viajaram em alta velocidade por um
labirinto de passagens cheias de cutvas. Harry tentou memorizar,
esquerda, direita, direita, esquerda, em frente no
entrocamento, direita, esquerda, mas era impossvel. O vagonete
barulhento parecia conhecer o caminho, porque Grampo no o estavaba
dirigindo.
Os olhos de Harry ardiam no ar frio que passava rpido por
eles, mas mantinha-os bem abertos. Uma vez, ele pensou ter visto
uma labareda no fim da passagem e se virou para conferir se era
um drago, mas foi tarde demais - eles mergulharam ainda mais
fundo, passaram por um lago subterrneo onde se acumulavam
no teto e no cho enormes estalactites e estalagmites.
- Eu nunca sei - gritou Harry para Hagrid poder ouvi-lo -
qual  a diferena entre uma estalagmite e uma estalactite.
- Estalagmite tem um "m" - disse Hagrid. - E no me faa
perguntas agora, acho que vou enjoar.
Ele realmente estava muito verde e quando o vagonete afinal
parou ao lado de uma portinhola na passagem, Hagrid saltou e
precisou se apoiar na parede para os joelhos pararem de tremer.
Grampo destrancou a porta. Saiu uma grande nuvem de fumaa
verde e enquanto ela se dissipava, Harry ficou sem respirar.
Dentro havia montes de moedas de ouro. Colunas de prata. Pilhas
de pequenos nuques de bronze.
-  tudo seu - sorriu Hagrid.
Tudo de Harry - era inacreditvel. Os Dursley com certeza
no sabiam da existncia daquilo ou teriam tirado tudo mais rpido
do que uma piscadela. Quantas vezes tinham se queixado do
quanto lhes custava criar Harry? E durante todo aquele tempo
havia uma pequena fortuna que lhe pertencia, enterrada no subsolo
de Londres.
Hagrid ajudou Harry a guardar um pouco do dinheiro em
uma saca.
- As moedas de ouro so galees - explicou ele. - Dezessete
sicles de prata fazem um galeo e vinte e nove nuques fazem um
sicle,  bem simples. Certo, isto dever ser suficiente para uns dois
perodos letivos, guardaremos o resto bem guardado para voc.
- Hagrid virou-se para Grampo. - O cofre setecentos e treze
agora, por favor, e ser que podemos ir mais devagar?
- S tem uma velocidade - falou Grampo.
Viajaram mais para o fundo agora e ganharam velocidade. O
ar foi se tornando cada vez mais frio enquanto disparavam pelas
curvas fechadas.
Sacolejavam por uma ravina subterrnea e Harry debruou-
se para um lado para tentar ver o qu havia no fundo, mas Hagrid
gemeu e o puxou para trs pelo cangote.
O cofre setecentos e treze no tinha fechadura.
-Para trs - disse Grampo com ar de importncia. Alisou a
porta devagarinho com o seu dedo comprido e ela simplesmente
se dissolveu.
- Se algum que no fosse um duende de Gringotes tentasse
fazer o mesmo, seria engolido pela porta e ficaria preso l dentro
- explicou Grampo.
- Com que freqncia voc vem ver se tem algum l dentro?
-perguntou Harry.
- Uma vez a cada dez anos - disse Grampo, com um sorriso
maldoso.
Devia haver alguma coisa realmente extraordinria nesse cofre
de segurana mxima, Harry tinha certeza, e se curvou para a
frente proressuroso, esperando ver no mnimo jias fabulosas -
mas no primeiro momento achou que estava vazio. Depois notou
um embrulhinho encardido no cho. Hagrid apanhou-o e o guar-
dou muito bem no casaco. Harry tinha muita vontade de saber o
que era, mas sentia que era melhor no perguntar.
- Vamos, vamos voltar para esse vagonete infernal, e no fale
comigo no caminho de volta,  melhor eu ficar de boca fechada - 
recomendou Hagrid.
Depois de mais uma viagem no vagonete descontrolado, eles
chegaram  claridade do sol do lado de fora de Gringotes. Harry
no sabia aonde correr primeiro agora que tinha uma saca cheia
de dinheiro. No precisava saber quantos galees perfaziam
uma libra para saber que estava carregando mais dinheiro do
que jamais tivera na vida inteira - mais dinheiro at do que
Duda jamais tivera.
- Vamos comprar logo o seu uniforme - falou Hagrid,
indicando com a cabea a loja Madame Malkin - Roupas para Todas as
Ocasies - Escute aqui, Harry, voc se importa se eu der uma corrida
n'O Caldeiro Furado para tomar um tnico? Detesto esses
vagonetes de Gringotes. - Ele realmente parecia meio enjoado,
por isso Harry entrou na loja Madame Malkin sozinho, um pouco
nervoso.
Madame Malkin era uma bruxa baixa, gorda e sorridente,
toda vestida de lils.
- Hogwarts, querido? - perguntou quando Harry comeou
a falar. - Tenho tudo aqui. Para falar a verdade, tem outro
rapazinho agora ajustando uma roupa.
Nos fundos da loja, um garoto de rosto plido e pontudo
estava em p em cima de um banquinho enquanto uma segunda
bruxa encurtava suas compridas vestes pretas. Madame Malkin
colocou Harry num banquinho ao lado do outro, enfiou-lhe uma
veste comprida pela cabea e comeou a marcar a bainha na altura
certa.
-Al - cumprimentou o garoto. -Hogwarts tambmp?
-  - confirmou Harry
- Meu pai est na loja ao lado comprando meus livros e
minha me est mais adiante procurando varinhas - disse o garoto.
Tinha numa voz de tdio, arrastada. - Depois vou levar os dois
para dar uma olhada nas vassouras de corridas. No vejo por que
os alunos de primeira srie no podem ter vassouras individuais.
Acho que vou obrigar papai a me comprar uma e vou
contrabande-la para a escola s escondidas.
O garoto lhe lembrou muito o Duda.
- Voc tem vassoura? -perguntou o garoto.
-No.
- Sabe jogar quadribol?
- No - respondeu novamente Harry, perguntando-se que
diabo seria esse tal de quadribol.
- Eu sei, meu pai falou que vai ser um crime se no me escolherem
para jogar pela minha casa, e sou obrigado a dizer que
concordo. J sabe em que csa voc vai ficar?
- No - respondeu Harry, sentindo-se a cada minuto mais
idiota.
- Bom, ningum sabe mesmo at chegar l, no , mas sei
que vou ficar na Sonserina, toda a nossa famlia ficou l, imagine
ficar na Lufa-lufa, acho que eu saa da escola, voc no?
- Hum-hum - concordou Harry, desejando que pudesse
responder algo um pouquinho mais interessante.
- Caramba, olha aquele homem! - falou o garoto de repente,
indicando com a cabea a vitrine. Rbeo estava parado diante
dela, rindo para Harry e apontando para dois grandes sorvetes
para explicar que no podia entrar.
-  o Rbeo - disse Harry, contente por saber alguma coisa
que o garoto no sabia. - Ele trabalha em Hogwarts.
-Ah, ouvi falar dele.  uma espcie de empregado, no ?
-  o guarda-caa - explicou Harry A cada segundo gostava
menos do garoto.
- , isso mesmo. Ouvi falar que  uma espcie de .selvagem.
Mora num barraco no terreno da escola e de vez em quando toma
um pileque, tenta fazer mgicas e acaba tocando fogo na cama.
-Acho que ele  brilhante - retorquiu Harry com fiieza.
-Acha, ? - disse o garoto com um leve desdm. - Por que 
que ele est acompanhando voc? Onde esto os seus pais?
- Esto mortos - respondeu Harry secamente. No tinha
muita vontade de alongar o assunto com esse garoto.
- Ah, lamento - disse o outro, sem parecer lamentar nada.
- Mas eram do nosso povo, no eram?
- Eram bruxos, se  isso que voc est perguntando.
- Eu realmente acho que no deviam deixar outro tipo de
gente entrar, e voc? No so iguais a ns, nunca foram educados
para conhecer o nosso modo de viver. Alguns nunca sequer ouviram
falar de Hogwarts at receberem a carta, imagine. Acho que
deviam manter a coisa entre as famMias de bruxos. Por falar nisso,
como  o seu sobrenome?
Mas antes que Harry pudesse responder, Madame Malkin
anunciou:
- Terminei com voc, querido. - E Harry, nada frustrado
com a desculpa para interromper a conversa com o garoto, pulou
do banquinho para o cho.
- Bom, vejo voc em Hogwarts, suponho - disse o garoto
de voz arrastada.
Harry ficou muito quieto enquanto comia o sorvete que
Hagrid tronumera (chocolate e amora com nozes picadas).
- Que foi? - perguntou Hagrid.
- Nada - mentiu Harry.
Eles pararam para comprar pergaminho e penas. Harry se
animou um pouco quando descobriu um vidro de tinta que
mudava de cor enquanto a pessoa escrevia. Quando saram da loja,
perguntou:
- Rbeo, o que  quadribol?
- Caramba, Harry, vivo me esquecendo que voc no sabe
quase nada - raios, no saber o que  quadribol!
- No faa eu me sentir pior. - E contou a Hagrid sobre o
garoto plido na loja de Madame Malkin.
- ... e ele disse que nem deviam permitir a gente que pertence
 famlia de trouxas...
- Voc no pertence a uma familia de trouxas. Se ele soubesse
quem voc ... ele cresceu sabendo o seu nome se os pais dele
forem bruxos. Voc viu o pessoal n'O Caldeiro Furado. Em todo
o caso, o que  que ele sabe das coisas, alguns dos melhores bruxos
que j conheci vinham de uma longa linhagem de trouxas.
Veja a sua me! Veja s quem  irm dela!
- Ento, o que  quadribol?
-  o nosso esporte. Esporte de bruxos.  como o futebol
no mundo dos trouxas. Todos praticam quadribol. A gente joga
no ar montado em vassouras com quatro bolas.  meio dificil
explicar as regras.
- E o que so Sonserina e Lufa-lufa?
- Casas na escola. So quatro. Todo mundo diz que Lufa-lufa
s tem panacas, mas...
-Aposto que estou na Lufa-lufa - disse Harry deprimido.
-  melhor a Lufa-lufa do que a Sonserina - sentenciou
Hagrid, misterioso. - No tem um nico bruxo nem uma nica
bruxa desencaminhados que no tenham passado por Sonserina.
Voc-Sabe-Quem foi um deles.
- Vol... desculpe... Voc-Sabe-Quem esteve em Hogwarts?
- H muitos e muitos anos.
Eles compraram os livros escolares de Harry em uma loja
chamada Floreios e Borres, onde as prateleiras estavam
abarrotadas at o teto com livros do tamanho de paraleleppedos
encardenados
em couro, livros do tamanho de selos postais com capas
de seda; livros cobertos de smbolos curiosos e alguns livros sem
nada. At Duda, que nunca lia nada, teria ficado doido para pr as
mos em alguns desses livros. Hagrid quase teve de arrastar Harry
para longe do Pragas e Contrapragas (Encante os seus amigos e
confunda os seus inimigos com as ltimas vinganas: perda de cabelos,
pernas bambas, lngua presa e muitas, muitas mais) do Prof.
Vindicto Viridiano.
-Eu estava tentando descobrir como rogar uma praga para o
Duda.
- No vou dizer que no  uma boa idia, mas voc no pode
usar mgica no mundo dos trouxas a no ser em situaes muito
especiais - disse Hagrid. - De qualquer modo, voc ainda no
poderia lanar nenhuma dessas pragas, vai precisar de muito estudo
antes de chegar a esse nvel.
Hagrid no deixou Harry comprar um caldeiro de ouro
macio, tampouco ("Diz estanho na sua lista"), mas compraram uma
balana bonita para pesar os ingredientes das poes e um telescpio
desmontvel de lato. Visitaram a farmcia, que era bem
fascinante para compensar seu cheiro horrvel, uma mistura de
ovo estragado e repolho podre. Havia no cho barricas de coisas
viscosas, frascos com ervas, razes secas e ps coloridos cobriam
as paredes, feixes de penas, fieiras de dentes e garras retorcidas
pendiam do teto. Enquanto Hagrid pedia ao homem atrs do
balco um conjunto de ingredientes bsicos para preparar poes
para Harry, o prprio Harry examinava chifres de prata de
unicrnios, a vinte e um galees cada, e minsculos olhos
faiscantes de besouros (cinco nuques uma concha).
Ao sarem da farmcia, Hagrid verificou a lista de Harry mais
uma vez.
- S falta a varinha. Ah , e ainda no comprei o seu presente
de aniversrio.
Harry sentiu o rosto corar.
- Voc no precisa...
- Eu sei que no preciso. Vamos fazer o seguinte, vou comprar
um bicho para voc. No vai ser sapo, os sapos saram de
moda h muitos anos, todo mundo ia rir de voc, e no gosto de
gatos, eles me fazem espirrar. Vou-lhe comprar uma coruja.
Todos os garotos querem corujas, so muito teis, levam cartas e
tudo o mais.
Vinte minutos depois, eles saram do Emprio de Corujas,
que era escuro e cheio de rudos e brilhos e olhos que cintilavam
como jias. Harry agora carregava uma grande gaiola com uma
bela coruja branca como a neve, que dormia profundamente, a
cabea debaixo da asa. Ele no parava de agradecer, parecia at o
Prof. Quirrell.
- No tem do qu - respondia Hagrid rouco. - Acho que
voc nunca ganhou muitos presentes dos Dursley. Agora s falta
Olivaras, a nica loja de varinhas, Olivaras, e voc precisa ter a
melhor varinha do mundo.
Uma varinha mgica... era realmente o que Harry andara
desejando.
A ltima loja era estreita e feiosa. Letras de ouro descascadas
sobre a porta diziam Olivaras Artesos de Varinhas depualidade
desde 382 a. C. Havia numa nica varinha sobre uma almofada prpura
desbotada, na vitrine empoeirada.
Um sininho tocou em algum lugar no fundo da loja quando
eles entraram. Era uma lojinha mnima, vazia, exceto por uma
nica cadeira alta e estreita em que Hagrid se sentou para esperar.
Harry teve uma sensao esquisita como se tivesse entrado em
uma biblioteca muito exclusiva; engoliu um monte de perguntas
novas que tinham acabado de lhe ocorrer e ficou espiando os
milhares de caixas estreitas arrumadas com cuidado at o teto. Por
alguma razo, sentiu um arrepio na nuca. A prpria poeira e o
silncio ali pareciam retinir com uma magia secreta.
- Boa tarde - disse uma voz suave. Harry se assustou.
Hagrid devia ter-se assustado tambm, porque se ouviu um rangido
alto e ele se levantou rapidamente da cadeira alta e estreita.
Havia um velho parado diante deles, os olhos grandes e muito
claros brilhando como duas luas na penumbra da loja.
-Al - disse Harry sem jeito.
-Ah, sim - disse o homem. - Sim, sim. Achei que ia v-lo
em breve. Harry Potter. - No era uma pergunta. - Voc tem os
olhos de sua me. Parece que foi ontem que ela esteve aqui,
,comprando a primeira varinha. Vinte e seis centmetros de comprimento
farfalhante, feita de salgueiro. Uma boa varinha para
encantamentos.
O Sr. Olivaras chegou mais perto de Harry. Harry desejou que
ele piscasse. Aqueles olhos prateados lhe davam um pouco de medo.
- J o seu pai, deu preferncia a uma varinha de mogno. Vinte
e oito centmetros. Flexvel. Um pouco mais de poder e
excelente para transformaes. Bom, digo que seu pai deu preferncia,
na realidade  a varinha que escolhe o bruxo,  claro.
O Sr. Olivaras chegara to perto que ele e Harry estavam quase
encostando os narizes. Harry viu-se refletido naqueles olhos.
- E foi a que...
O Sr. Olivaras tocou a cicatriz feita pelo relmpago na testa de
Harry com um dedo branco e longo.
-Lamento dizer que vendi a varinha que fez isso - disse ele
suavemente. - Trinta e cinco centmetros. Nossa. Uma varinha
poderosa, muito poderosa nas mos erradas... Bom, se eu tivesse
sabido o que a varinha ia sair por a fazendo...
Ele sacudiu a cabea e ento, para alvio de Harry, viu Hagrid.
- Hagrid! Hagrid, Hagrid! Que bom ver voc de novo...
Carvalho, quarenta centmetros, meio mole, no era?
- Era, sim senhor.
- Boa varinha, aquela. Mas suponho que a tenham partido ao
meio quando o expulsaram? - disse o Sr. Olivaras, repentinamente
srio.
- Hum... partiram,  verdade - disse Hagrid, arrastando os
ps. - Mas ainda guardo os pedaos - acrescentou animado.
-Mas voc no os usa?- perguntou o Sr. Olivaras severo.
-Ah, no senhor - respondeu depressa Hagrid. Harry reparou
que ele apertou o guarda-chuva cor-de-rosa com fora ao
responder.
- Hum - resmungou o Sr. Olivaras, lanando um olhar
penetrante a Hagrid. - Bom, agora, Sr. Potter, vamos ver. - E tirou
uma longa fita mtrica com nmeros prateados do bolso. - Qual
 o brao da varinhap
- Hum, bom, sou destro - respondeu Harry
- Estique o brao. Isso. - Ele mediu Harry do ombro ao
dedo, depois do pulso ao cotovelo, do ombro ao cho, do joelho
 axila e ao redor da cabea. Enquanto media, disse: -'Toda varinha
Olivaras tem o miolo feito de uma poderosa substncia mgica,
Sr. Potter. Usamos plos de unicrnio, penas de cauda de fnix
e cordas de corao de drago. No h duas varinhas Olivaras
iguais, como no h unicrnios, drages nem fnix iguais. E  claro,
o senhor jamais conseguir resultados to bons com a varinha
de outro bruuxo.
Harry de repente percebeu que a fita mtrica, que o media
entre as narinas, estava medindo sozinha. O Sr. Olivaras andava
rapidamente em volta das prateleiras, descendo caixas.
- J chega - falou, e a fita mtrica aproxumou e caiu formando
um montinho no cho. - Certo, ento, Sr. Potter. Experimente
esta. Faia e corda de corao de drago. Vinte e trs centmetros.
Boa e flexvel. Apanhe e experimente.
Harry apanhou a varinha e (sentindo-se bobo) fez alguns
mop vimentos com ela, mas o Sr. Olivaras a tirou de sua mo quase
imediatamente.
-Bordo e pena de fnix. Dezoito centmetros. Bem elstica.
Experimente.
Harry experimentou - mas mal erguera a varinha quando,
mais uma vez, o Sr. Olivaras a tirou de sua mo.
- No, no. Tome, bano e plo de unicrnio, vinte e dois
centmetros, flexvel. Vamos, vamos, experimente.
Harry experimentou. E experimentou. No fazia idia do que
 que o Sr. Olivaras estava esperando. A pilha de varinhas
experimentadas
estava cada vez maior em cima da cadeira alta e estreita,
mas, quanto mais varinhas o Sr. Olivaras tirava das prateleiras,
mais feliz parecia ficar.
- Fregus dificil, hein? No se preocupe, vamos encontrar a
varinha perfeita para o senhor em algum lugar, estou em dvida,
agora... , por que no?, uma combinao incomum, azevinho e
pena de fnix, vinte e oito centmetzos, boa e malevel.
Harry apanhou a varinha. Sentiu um repentino calor nos dedo.s
Ergueu a varinha acima da cabea, baixou-a cortando o ar
empoeirado com um zunido, e uma torrente de fascas douradas
e vermelhas saram da ponta como um fogo de artifcio, atirando
fagulhas luminosas que danavam nas paredes. Hagrid gritou
entusiasmado e bateu palmas e o Sr. Olivaras exclamou:
- Bravo! Mesmo, ah, muito bom. Ora, ora, ora... que curioso.
curiosssimo...
Reps a varinha de Harry na caixa e embrulhou-a em papel
pardo, ainda resmungando:
-Curioso... curioso...
- O senhor me desculpe - disse Harry-, mas o que  curioso?
O Sr. Olivaras encarou Harry com aqueles olhos claros.
-Lembro-me de cada varinha que vendi, Sr. Potter. De cada
uma. Acontece que a fnix cuja pena est na sua varinha produziu
mais uma pena, apenas mais uma.  muito curioso que o
senhor tenha sido destinado para esta varinha porque a irm dela,
ora, a irm dela produziu a sua cicatriz.
Harry engoliu em seco.
- , tinha trinta e quatro centmetros. Puxa.  realmente
curioso como essas coisas acontecem. A varinha escolhe o bruxo,
lembre-se... Acho que podemos esperar grandes feitos do senhor,
Sr. Potter... Afmal, Aquele-Que-No-Se-Deve-Nomear realizou
grandes feitos, terrveis, sim, mas grandes.
Harry estremeceu. No tinha muita certeza se gostava do Sr.
Olivaras. Pagou sete galees pela varinha e o Sr. Olivaras curvou-
se  sada deles.
O sol de fim de tarde quase chegara ao horizonte quando Harry e
Hagrid refizeram o caminho para sair do Beco Diagonal, atravessar
a parede e passar novamente pelo Caldeiro Furado, agora
vazio. Harry no disse uma palavra enquanto caminhavam pela rua;
nem ao menos reparou quantas pessoas se boquiabriam para eles
no metr, carregados que estavam com todos aqueles pacotes de
formatos esquisitos, a coruja branca adormecida no colo de
Harry. Subiram a escada rolante para a estao de Paddington;
Harry s percebeu onde estavam quando Hagrid bateu em seu ombro.
-Temos tempo para comer alguma coisa antes do trem sair -
falou.
Comprou um hambrguer para Harry e se sentaram em bancos
de plstico para com-los. Harry no parava de olhar a toda
volta. Por alguma razo tudo parecia to estranho.
- Voc est bem, Harry? Est muito calado - comentou
Hagrid.
Harry no tinha muita certeza de poder explicar. Tivera o
melhor aniversrio de sua vida, porm... e mastigava o hambrguer,
tentando encontrar as palavras.
-Todo o mundo acha que sou especial - disse finalmente. -
Todas aquelas pessoas no Caldeiro Furado, o Prof. Quirrell, o Sr.
Olivaras... mas eu no conheo nadinha de mgica. Como podem
esperar grandes feitos de mim? Sou famoso e nem ao menos me
lembro o porqu. No sei o que aconteceu quando Vol... 
descupe...quero dizer, na noite que meus pais morreram.
Hagrid se debruou sobre a mesa. Por trs da barba e das sobrancelhas
desgrenhadas tinha um sorriso bondoso.
- No se proreocupe, Harry Voc vai aprender bem deproressa.
Todos comeam pelo comeo em Hogwarts, voc vai se dar bem.
Seja voc mesmo. Sei que  difcil. Voc vai ser discriminado e isso
 muito duro. Mas vai se divertir a valer em Hogwarts. Eu me
diverti; e ainda me divirto, para dizer a verdade.
Hagrid ajudou Harry a embarcar no trem que o levaria de volta
aos Dursley, ento lhe entregou um envelope.
- A sua passagem para Hogwarts. Primeiro de setembro, na
estao de King's Cross, est tudo na passagem. Qualquer problema
com os Dursley, me mande uma carta pela coruja, ela saber
onde me encontrar... Vejo voc em breve, Harry.
O trem parou na estao. Harry queria ficar espiando Hagrid
at ele desaparecer de vista; levantou-se, espremeu o nariz contra
o vidro da janela, mas quando piscou os olhos Hagrid tinha
desaparecido.


- CAPTULO SEIS -
O Embarque na plataforma nove e meia

O ltimo ms de Harry na casa dos Dursley no foi nada divertido.
 verdade que Duda agora estava to apavorado com Harry
que no queria nem ficar no mesmo aposento com ele, e tia
Petnia e tio Vlter no trancaram Harry no armrio nem o obrigaram
a fazer nada, tampouco gritaram com ele - na verdade,
sequer falaram com ele. Meio aterrorizados, meio furiosos, agiam
como se a cadeira em que Harry se sentasse estivesse vazia.
Embora isso fosse sob muitos aspectos um progresso, tornou-se um
tanto deprimente depois de algum tempo.
Harry ficava em seu quarto, com a nova coruja por companhia.
Decidira cham-la Edwiges, um nome que encontrara na
Histria da magia. Seus livros de escola eram muito interessantes.
Deitava-se na cama e lia at tarde da noite. Edwiges voava para
dentro e para fora da janela, quando queria. Era uma sorte que tia
Petnia no aparecesse mais para passar o aspirador de p, porque
Edwiges no parava de trazer ratos mortos para o quarto.
Toda noite, antes de se deitar para dormir, Harry riscava mais um
dia no pedao de papel que pregara na parede, para contar os dias
que faltavam at primeiro de setembro.
No ltimo dia de agosto ele achou melhor falar com os tios
sobre a ida  estao no dia seguinte, por isso desceu  sala de estar
onde eles estavam assistindo a um programa de auditrio na
televiso. Pigarreou para avisar que estava ali e Duda deu um berro
e saiu correndo da sala.
- Hum... tio Vlter?
Tio Vlter resmungou para indicar que estava escutando.
- Hum... preciso estar amanh na estao para... embarcar
para Hogwarts.
Tio Vlter resmungou outra vez.
- Ser que o senhor podia me dar uma carona?
Resmungo. Harry sups que quisesse dizer sim.
- Muito obrigado.
E j ia voltando para cima quando tio Vlter falou de verdade.
- Que modo engraado de ir para a escola de magia, de trem.
Os tapetes mgicos furaram todos?
Harry no respondeu.
- Onde fica essa escola afinal?
- No sei - disse Harry pensando nisso pela primeira vez. 
Tirou do bolso o bilhete de passagem que Hagrid lhe dera.
- Vou tomar o trem na plataforma nove e meia s onze
horas - leu.
A tia e o tio arregalaram os olhos.
- Plataforma o qu?
- Nove e meia.
- No diga bobagens - repreendeu tio Vlter. - No existe
plataforma nove e meia.
- Est no meu bilhete.
- Loucos - disse tio Vlter - de pedra, todos eles. Voc vai
ver.  s esperar. Est bem, levaremos voc at a estao. De
qualquer maneira tnhamos de ir a Londres amanh ou nem me
daria o trabalho.
- Por que o senhor vai a Londres? - perguntou Harry,
tentando manter a conversa cordial.
-Vamos levar Duda ao hospital rosnou tio Vlter. - Precisamos
mandar cortar aquele rabo vermelho antes de mand-lo
para Smeltings.
Harry acordou s cinco horas na manh seguinte e estava demasiado
excitado e nervoso para voltar a dormir. Levantou-se e ves-
tiu o jeans porque no queria entrar na estao com as vestes de
bruxo - mudaria de roupa no trem. Verificou novamente a lista
de Hogwarts para se certificar de que tinha tudo de que precisava,
viu se Edwiges estava bem trancada na gaiola e ento ficou
andando pelo quarto  espera que os Dnumsley se levantassem. Duas
horas mais tarde, a mala enorme e pesada de Harry fora colocada
no carro dos Dursley. Tia Petnia convencera Duda a se sentar ao
lado do primo e eles partiram.
Chegaram  estao de King's Cross s 10:30h. Tio Vlter jogou
a mala de Harry num carrinho e empurrou-o at a estao
para ele. Harry achou o gesto curiosamente bondoso at tio
Vlter parar diante das plataformas com um sorriso maldoso.
- Bom, aqui estamos, moleque. Plataforma nove, plataforma
dez. A sua plataforma devia estar a no meio, mas parece que
ainda no a construram, no  mesmo?
Ele tinha razo,  claro. Havia um grande nmero nove de
plstico no alto de uma plataforma e um grande nmero dez no
alto da plataforma seguinte, mas no meio, no havia nada.
- Tenha um bom perodo letivo - disse tio Vlter com um
sorriso ainda mais maldoso. E foi-se embora sem dizer mais nada.
Harry se virou e viu o carro dos Dursley partir. Os trs estavam
rindo. Harry sentiu a boca seca. Que diabo iria fazer? Estava
comeando a atrair uma poro de olhares curiosos por causa da
Edwiges. Teria que perguntar a algum.
Parou um guarda que ia passando, mas no mencionou a
plataforma nove e meia. O guarda nunca ouvira falar em Hogwarts e
quando Harry no soube lhe dizer em que parte do pas a escola
ficava, ele comeou a mostrar aborrecimento, como se Harry
estivesse se fazendo de burro de propsito. Desesperado, Harry
perguntou pelo trem que partia s onze horas, mas o guarda disse
que no havia nenhum. Ao fim, o guarda se afastou, resmungando
contra pessoas que o faziam perder tempo. Harry tentou por
tudo no mundo no entrar em pnico. Pelo grande relgio em
cima do quadro que anunciava os trens que chegavam, s lhe
restavam mais dez minutos para embarcar no trem de Hogwarts e
ele no tinha idia de como ia fazer isso; estava perdido no meio
da estao com uma mala que mal podia levantar, o bolso cheio
de dinheiro de bruxo e uma corujona.
Hagrid devia ter esquecido de lhe dizer alguma coisa que tinha
de fazer, como bater no terceiro tijolo  esquerda para
entrar no Beco Diagonal. Perguntou-se se deveria tirar a varinha
da mala e comear a bater no coletor de bilhetes entre as plataformas
nove e dez.
Naquele instante um grupo de pessoas passou s suas costas
e ele entreouviu algumas palavras que diziam.
... cheio de trouxas ,  claro...
Harry deu meia-volta. Era uma mulher gorda que falava com
quatro meninos, todos de cabelos cor de fogo. Cada um deles estava
empurrando  frente uma mala como a de Harry - e levavam
uma coruja. O corao aos saltos, Harry os seguiu empurrando o
carrinho. Eles pararam e ele tambm, bem prximo para ouvir o
que diziam.
- Agora, qual  o nmero da plataformap - perguntou a me
dos meninos.
- Nove e meia - ouviu-se a voz fina de uma menininha, tambm
de cabelos ruivos que estava segurando a mo da mulher.
-Mame, no posso ir...
- Voc ainda no tem idade, Gina, agora fique quieta. Est
bem, Percy, voc vai primeiro.
O que parecia o menino mais velho marchou em direo s
plataformas nove e dez. Harry observou-o, tomando o cuidado
de no piscar para no perder nada - mas assim que o menino
chegou  linha divisria entre as duas plataformas, um grande
grupo de turistas invadiu a plataforma  frente dele e quando a
ltima mochila acabou de passar, o menino havia desaparecido.
- Fred, voc agora - mandou a mulher gorda.
- Eu no sou Fred, sou Jorge - retrucou o menino. -
Francamente, mulher, voc diz que  nossa me? No consegue ver
que sou o Jorgep
-Desculpe, Jorge, querido.
-  brincadeira, eu sou o Fred - disse o menino, e foi. O
irmo gmeo gritou para ele se apressar, e ele deve ter atendido,
porque um segundo depois, sumiu, mas como fizera aquilop
Agora o terceiro irmo estava se encaminhando rapidamente
para a barreira - estava quase l - e, ento, de repente, no estava
mais em parte alguma. 
E foi s.
- Com licena - dirigiu-se Harry  mulher gorda.
- Ol, querido.  a primeira vez que vai a Hogwartsp. O Rony
 novo tambm.
Ela apontou o ltimo filho, o mais moo. Era alto, magro e
desengonado, com sardas, mos e ps grandes e um nariz
comprido.
-  - respondeu Harry - A coisa ... a coisa  que no sei
como...
- Como chegar  plataforma? - disse ela com bondade, e
Harry concordou com a cabea.
-No se preocupe. Basta caminhar diretamente para a barreira
entre as plataformas nove e dez. No pare e no tenha medo de
bater nela, isto  muito importante. Melhor fazer isso meio
correndo se estiver nervoso. V, v antes de Rony
- Hum... OK.
E Harry virou o carrinho e encarou a barreira. Parecia muito
slida.
Ele comeou a andar em direo a ela. As pessoas a caminho
das plataformas nove e dez o empurravam. Harry apressou o passo.
Ia bater direto no coletor de bilhetes e ento ia se complicar -
curvando-se para o carrinho ele desatou a correr - a barreira
estava cada vez mais prxima - no poderia parar - o carrinho
estava descontrolado - ele estava a um passo de distncia - fechou
os olhos se preparando para a coliso...
E ela no aconteceu... ele continuou correndo... abriu os olhos.
Uma locomotiva vermelha a vapor estava parada  plataforma
apinhada de gente. Um letreiro no alto informava Expresso de
Hogwarts, 11 hora.r. Harry olhou para trs e viu um arco de ferro
forjado no lugar onde estivera o coletor de bilhetes, com os dizeres
Plataforma nove e meia. Conseguira.
A fumaa da locomotiva se dispersava sobre as cabeas das
pessoas que conversavam, enquanto gatos de todas as cores tran-
avam por entre as pernas delas. Corujas piavam umas para as
outras, descontentes, sobrepondo-se  balbrdia e ao barulho das
malas pesadas que eram arrastadas.
Os primeiros vages j estavam cheios de estudantes, uns
debruados s janelas conversando com as famlias, outros
brigando por causa dos lugares. Harry empurrou o carrinho pela
plataforma procurando um lugar vago. Passou por um garoto de rosto
redondo que estava dizendo:
- V, perdi meu sapo outra vez.
- Ah, Neville - ele ouviu a senhora suspirar.
Um garoto com cabelos rastafri estava cercado por um pequeno
grupo de meninos.
-Deixe a gente espiar, Lino, vamos.
O menino levantou a tampa de uma caixa que carregava nos
braos e as pessoas em volta deram gritos e berros quando uma
coisa dentro da caixa esticou para fora uma perna comprida e
peluda.
Harry continuou andando pela aglomerao at que encontrou
um compartimento vago no final do trem. Primeiro ps
Edwiges para dentro e comeou a empurrar e a forar com a mala
em direo  porta do trem. Tentou ergu-la pelos degraus acima
mas mal conseguiu suspender uma ponta e duas vezes deixou-a
cair dolorosamente em cima do p.
- Quer uma ajuda? - Era um dos gmeos ruivos que ele
seguira para atravessar a barreira.
- Por favor - Harry ofegou.
- Ei, Fred! Vem dar uma ajuda aqui!
Com a ajuda dos gmeos, a mala de Harry finalmente foi
colocada a um canto do compartimento.
- Obrigado - disse Harry, afastando os cabelos suados dos
olhos.
- Que  isso? - perguntou de repente um dos gmeos
apontando para a cicatriz de Harry.
- Caramba - disse o outro gmeo. - Voc ...?
- Ele  - disse o outro gmeo. - No ? - acrescentou para
Harry.
- O qup - indagou Harry.
-HarryPotter - disseram os gmeos em coro.
-Ah, ele - disse Harry - Quero dizer, , sou. 
Os dois garotos olharam boquiabertos e Harry sentiu que
estava corando. Ento, para seu alivio, ouviram uma voz pela porta
aberta do trem.
- Fred Jorge? Vocs esto ap
- Estamos indo, mame.
Dando uma ltima espiada em Harry, os gmeos saltaram
para fora do trem.
Harry sentou-se  janela onde, meio escondido, podia observar
a famlia de cabelos ruivos na plataforma e ouvir o que diziam.
A me tinha acabado de puxar o leno.
- Rony, voc est com uma coisa no nariz.
O menino mais novo tentou fugir, mas ela o agarrou e comeou
a limpar a ponta do nariz dele.
-Mame, sai para l. - Desvencilhou-se.
- Aaaah, o Roniquinho est com uma coisa no nariz? -
caoou um dos gmeos.
- Cale a boca - disse Rony.
- Onde est o Percyp - perguntou a me.
- Est vindo a.
O garoto mais velho vinha vindo. J vestira as vestes largas e
pretas de Hogwaxts e Harry reparou que tinha um distintivo de
prata reluzente com a letra M.
- No posso demorar, me - falou ele. - Estou l na frente,
os monitores tm dois vages separados...
-Ah, voc  monitor, Percy - perguntou um dos gmeos, com
ar de grande surpresa. - Devia ter avisado, no fazamos idia.
- Espere a, acho que me lembro de ter ouvido ele dizer alguma
coisa - disse o outro gmeo. - Uma vez...
- Ou duas...
- Um minuto...
- O vero todo.
-Ah, calem a boca - disse Percy, o monitor.
- Afinal por que foi que o Percy ganhou vestes novas? - disse
um dos gmeos.
- Porque  monitor- disse a me com carinho. - Est bem,
querido, tenha um bom ano letivo - mande-me uma coruja quando
chegar.
Ela beijou Percy no rosto e ele foi embora. Ento virou-se
para os gmeos.
- Agora, vocs dois: este ano, se comportem. Se receber
mais uma coruja dizendo que vocs... vocs explodiram um
banheiro ou...
- Explodiram um banheirop. Nunca explodimos um banheiro.
- Mas  uma grande idia, obrigado, mame.
-No tem graa. E cuidem do Rony.
- No se preocupe, Roniquinho est seguro com a gente.
- Cale a boca - mandou Rony outra vez. J era quase to alto
quanto os gmeos e seu nariz continuava vermelho onde a me o
esfregara.
- Ei, me, adivinha? Adivinha quem acabamos de encontrar
no trem?
Harry recuou o corpo rpido para que eles no o vissem
olhando.
- Sabe aquele menino de cabelos pretos que estava perto da
gente na estao? Sabe quem ele ?
- Quem?
-Harry Potter!
Harry ouviu a voz da garotinha.
-Ah, mame, posso subir no trem para ver ele, mame, ah,
por favor...
- Voc j o viu, Gina, e o coitado no  um bicho de zoolgico
para voc ficar olhando.  ele mesmo, Fred? Como  que voc
sabe?
- Perguntei a ele. Vi a cicatriz. Est l mesmo, parece
um raio.
- Coitadinho. No admira que estivesse sozinho. Foi to educado
quando me perguntou como entrar na plataforma.
- Deixa para l, voc acha que ele se lembra como era o Voc-
Sabe-Quem?
De repente a me ficou muito sria.
- Probo-lhe de perguntar a ele, Fred. No, no se atreva.
Como se ele precisasse de algum para Lhe lembrar uma coisa dessas
no primeiro dia de escola.
- Est bem, no precisa ficar nervosa.
Ouviu-se um apito.
- Depressa! - disse a me, e os trs garotos subiram no trem.
Debruaram-se na janela para a me lhes dar um beijo de despedida
e a irmzinha comeou a chorar.
-No chore, Gina, vamos lhe mandar um monte de corujas.
- Vamos lhe mandar uma tampa de vaso de Hogwarts.
- Jorge!
- Estou s brincando, mame.
O trem comeou a andar. Harry viu a me dos garotos
acenando e a irm, meio risonha, meio chorosa, correndo para
acompanhar o trem at ele ganhar velocidade e ela ficar para trs
acenando.
Harry observou a menina e a me desaparecerem quando
o trem fez a curva. As casas passaram num relmpago pela janela.
 Harry sentiu uma grande excitao. No sabia aonde estava
indo mas tinha de ser melhor do que o lugar que estava deixando
para trs.
A porta da cabine se abriu e o ruivinho mais moo entrou.
- Tem algum sentado aqui? - perguntou, apontando para o
assento em frente ao de Harry - O resto do trem est cheio.
Harry respondeu que no, com um aceno de cabea, e o garoto
se sentou. Olhou para Harry e em seguida olhou depressa para
fora, fingindo que no tinha olhado. Harry reparou que ele ainda
tinha uma mancha preta no nariz.
- Oi, Rony
Os gmeos estavam de volta.
- Escuta aqui, vamos para o meio do trem. Lino Jordan trouxe
uma tarntula gigante.
- Certo - resmungou Rony.
- Harry - disse o outro gmeo -, ns j nos apresentamos?
Fred e Jorge Weasley. E este  o Rony, nosso irmo. Vejo vocs
mais tarde, ento.
- Tchau - disseram Harry e Rony. Os gmeos fecharam a
porta da cabine ao passar.
- Voc  Harry Potter mesmo? - Rony deixou escapar.
Harry confirmou com a cabea.
- Ah, bom, pensei que fosse uma brincadeira do Fred e do
Jorge. E voc tem mesmo... sabe...
Apontou para a testa de Harry
Harry afastou a franja para mostrar a cicatriz em forma de
raio. Rony olhou.
- Ento foi a que Voc-Sabe-Quem...
- Foi, mas no me lembro.
- De nada? - perguntou Rony, ansioso.
- Bom... lembro de muita luz verde, mas nada mais.
- Uau. - Ele ficou parado uns minutos olhando para Harry,
depois, como se de repente tivesse se dado conta do que estava
fazendo, olhou deproressa para fora da janela outra vez.
- Todos na sua famlia so bruxos? - perguntou Harry, que
achava Rony to interessante quanto Rony o achava.
- Hum... so, acho que sim. Acho que mame tem um primo
em segundo grau que  contador, mas ningum nunca fala nele.
- Ento voc j deve saber muitas mgicas.
Os Weasley aparentemente eram uma dessas antigas famlias
de bruxos de que o menino plido no beco Diagonal falara.
- Ouvi dizer que voc foi viver com os trouxas. Como  que
eles so?
- Horrveis... bom, nem todos. Mas minha tia e meu tio e meu
primo so, eu gostaria de ter tido trs irmos bruxos.
- Cinco. - Por alguma razo, ele pareceu triste. - Sou o sexto
de minha familia a ir para Hogwarts. Pode-se dizer que tenho de
fazer justia ao nosso nome. Gui e Carlinhos j terminaram a
escola. Gui foi chefe dos monitores e Carlinhos foi capito do time
de quadribol. Agora Percy  monitor. Fred e Jorge fazem muita
baguna, mas tiram notas muito boas e todo mundo acha que eles
so realmente engraados. Todos esperam que eu me saia to bem
quanto os outros, mas se eu me sair bem, no ser nada de mais,
porque eles fizeram isso primeiro. E tambm no se ganha nada
novo quando se tem cinco irmos. Uso as vestes velhas de Gui, a
varinha velha de Carlinhos e o rato velho de Percy.
Rony meteu a mo no bolso interno do palet e tirou um rato
cinzento e gordo que estava dormindo.
- O nome dele  Pereba e ele  intil, quase nunca acorda.
Percy ganhou uma coruja de meu pai por ter sido escolhido
monitor, mas eles no podiam ter... quero dizer, em vez disso
ganhei Pereba.
As orelhas de Rony ficaram vermelhas. Parecia estar achando
que falara demais, porque voltou a olhar para fora pela janela.
Harry no achava nada de mais que algum no tivesse
dinheiro para comprar uma coruja. Afinal, ele nunca tivera dinheiro
algum na vida at um ms atrs, e disse isso ao Rony, e disse tambm
o que sentira quando usava as roupas velhas de Duda e
jamais ganhara um preresente de aniversrio decente. Isto pareceu
animar Rony um pouco.
- ... e at Rbeo me contar, eu no sabia o que era ser bruxo
nem quem exam meus pais nem o Voldemort.
Rony ficou pasmo.
- Que foip
- Voc disse o nome do Voc-Sab quem!- exclamou Rony parecendo
ao mesmo tempo chocado e improressionado. - Eu achava
que de todas as pessoas voc...
- No estou tentando ser corajoso nem nada dizendo o
nome dele.  que nunca soube que no se podia dizer. Est vendo
o que quero dizer? Tenho muito o que aprender... aposto -
acrescentou, pondo pela primeira vez em palavras algo que
o andava preocupando muito ultimamente. - Aposto que vou se
o pior da classe.
- No vai ser, no. Tem uma poro de gente que vem de
famlias de trouxas  e aprorende bem depressa.
Enquanto conversavam, o trem saiu de Londres. Agora
corriam por campos cheios de vacas e carneiros. Ficaram calados
um tempo, contemplando os campos e as estradinhas passar
num lampejo.
Por volta do meio-dia e meia ouviram um grande barulho no
corredor e uma mulher toda sorrisos e covinhas abriu a porta.
perguntou:
- Querem alguma coisa do carrinho, queridos?
Harry, que no tomara caf da manh, ergueu-se de um salto,
mas as orelhas de Rony ficaram vermelhas outra vez e ele murmurou
que trouxeera sanduches. Harry foi at o corredor.
Nunca tivera dinheiro para doces na casa dos Dursley e agora
que seus bolsos retiniam com moedas de ouro e prata, estava
disposto a comprar quantas barrinhas de chocolate pudesse carregar.
- mas a mulher no tinha barrinhas. Tinha feijezinhos de todos
os sabores, balas de goma, chicles de bola, sapos de chocolate,
tortinhas de abbora, bolos de caldeiro, varinhas de alcauz e
vrias outras coisas estranhas que Harry nunca vira na vida. No
querendo perder nada, ele comprou uma de cada e pagou  mulher
onze sicles de prata e sete nuques.
Rony arregalou os olhos quando Harry trouxe tudo para a
cabine e despejou no assento vazio.
- Que fome, hein?
- Morrendo de fome - respondeu Harry, dando uma grande
dentada na tortinha de abbora.
Rony tirara um embrulho encaroado e abriu-o. Havia quatro
sanduches dentro. Abriu um e disse:
- Ela sempre se esquece que no gosto de carne enlatada.
- Troco com voc por um desses - props Harry, oferecendo
um pastelo de carne. - Tome...
- Voc no vai querer isso,  muito seco. Ela no tem muito
tempo - acrescentou depressa. - Voc sabe, somos cinco.
- Tome, coma um pastelo - disse Harry, que nunca tivera
nada para dividir com algum antes, alis, nem ningum com
quem dividir. Era uma sensao gostosa, sentar-se ali com Rony,
acabar com todas as tortas e bolos de Harry (os sanduches ficaram
esquecidos).
- Que  isso? - perguntou Harry a Rony, mostrando um
pacote de sapos de chocolate. - Eles no so sapos de verdade, so?
- Estava comeando a achar que nada o surpreenderia.
-No. Mas v qual  a figurinha, est me faltando a Agripa.
- O qu?
- Claro que voc no sabe, os sapos de chocolate tm
figurinhas dentro, sabe, para colecionar, bruxas e bruxos famosos.
Tenho umas quinhentas, mas no tenho a Agripa nem o Ptolomeu.
Harry abriu o sapo de chocolate e procurou a figurinha. Era a
cara de um homem. Usava culos de meia-lua, tinha um nariz
comprido e torto, cabelos esvoaantes cor de prata, barba e bigode.
Sob o retrato havia o nome Alvo Dumbledore.
- Ento este  Dumbledore! - exclamou Harrry.
- No me diga que nunca ouviu falar de Dumbledore! Quer
me dar um sapo? Quem sabe eu tiro a Agripa. Obrigado.
Harry virou o verso da figurinha e leu:
Alvo Dumbledore, atualmente diretor de Hogwarts Considerado por
muitos o maior bruxo dos tempos modernos. Dumbledore 
particularmente famoso por ter derrotado Grindelwald, o bruxo das
Trevas, em 1945, por ter descoberto os doze usos do sangue de drago e
por desenvolver um trabalho em alquimia emparceria com Nicolau
Flamel. O ProfessorDumbledoregosta de msica de cmara e boliche.
Harry virou de novo o carto e viu, para seu espanto, que o
rosto de Dumbledore havia desaparecido.
- Ele desapareceu!
- Ora, voc no pode esperar que ele fique a o dia todo.
Depois ele volta. No, tirei a Morgana outra vez e j tenho umas
seis... voc quer? Pode comear a colecionar.
Os olhos de Rony se desviaram para a pilha de sapos de
chocolate que continuavam fechados.
- Sirva-se - disse Harry. - Mas, sabe, no mundo dos trouxas,
as pessoas ficam paradas nas fotos.
- Ficam? O que, eles no se mexem? - Rony parecia surpreso.
- Que coisa esquisita!
Harry arregalou os olhos quando Dumbledore voltou para a
figurinha e lhe deu um sorrisinho. Rony estava mais interessado
em comer os sapos do que em olhar os bruxos e bruxas famosos,
mas Harry no conseguia despregar os olhos deles. Logo no tinha
s Dumbledore e Morgana, como tambm Hengisto de
Woodcroft, Alberico Grunnion, Circe, Paracelso e Merlin. Por
fim ele despregou os olhos da druda Cliodna que estava coando
o nariz, para abrir o saquinho de feijezinhos de todos os sabores.
- Voc vai ter que tomar cuidado com essas a - alertou Rony.
- Quando dizem todos os sabores eles querem dizer todos os sabores.
Sabe, todos os sabores comuns como chocolate, hortel e
laranja, mas tambm espinafre, fgado e bucho. Jorge achou que
sentiu gosto de bicho-papo uma vez.
Rony apanhou uma balinha verde, examinou-a atentamente e
mordeu uma ponta.
- Eca! Est vendo? Couve-de-bruxelas.
Eles se divertiram comendo as balas. Harry tirou torrada,
coco, feijo cozido, morango, caril, capim, caf, sardinha e chegou
a reunir coragem para morder a ponta de uma bala cinzenta meio
gozada que Rony no queria pegar, e que era pimenta.
Os campos que passavam agora pela janela estavam ficando
mais silvestres. As plantaes tinham desaparecido. Agora havia
matas, rios serpeantes e morros verde-escuros.
Ouviram uma batida  porta da cabine e o menino de rosto
redondo, por quem Harry passara na plataforma nove e meia,
entreou. Parecia choroso.
-Desculpem, mas vocs viram um sapo?
Quando os dois sacudiram a cabea, ele chorou.
- Perdi ele! Est sempre fugindo de mim!
- Ele vai aparecer - consolou Harry.
- Vai- disse o menino infeliz. - Se voc vir ele...
E saiu.
- No sei por que ele est to chateado - disse Rony - Se eu
tivesse trazido um sapo ia querer perder ele o mais depressa que
pudesse. Mas, trouxe Pereba, por isso nem posso falar nada.
O rato continuava a tirar sua soneca no colo de Rony.
- Ele podia estar morto e ningum ia saber a diferena - disse
Rony desgostoso. - Tentei mudar a cor dele para amarelo para
deixar ele mais interessante, mas o feitio no deu certo. Vou-lhe
mostrar. Olhe...
Remexeu na mala e tirou uma varinha muito gasta. Estava
lascada em alguns pontos e havia uma coisa branca brilhando na
ponta.
- O plo do unicrnio est quase saindo. Em todo o caso...
Tinha acabado de erguer a varinha quando a porta da cabine
abriu outra vez. O menino sem o sapo estava de volta, mas desta
vez vinha numa garota em sua companhia. Ela j estava usando as
vestes novas de Hogwarts.
- Algum viu um sapo? Neville perdeu o dele. - Tinha um
tom de voz mando, os cabelos castanhos muito cheios e os dentes
da frente meio grandes.
-J dissemos a ele que no vimos o sapo - respondeu Rony, mas
a menina no estava escutando, olhava para a varinha na mo dele.
- Voc est fazendo mgicas? Quero ver.
Sentou-se. Rony pareceu desconcertado.
- Hum... est bem.
Pigarreou.
- Sol, margaridas, amarelo maduro, muda para amarelo esse
rato velho e burro.
Ele agitou a varinha, mas nada aconteceu. Pereba continuou
cinzento e completamente adormecido.
- Voc tem certeza de que esse feitio est certo? - perguntou
a menina. - Bem, no  muito bom, j Experimentei uns
feitios simples s para praticar e deram certo. Ningum na minha
famlia  bruxo, foi uma surpresa enorme quando recebi a carta,
mas fiquei to contente,  claro, quero dizer,  a melhor escola de
brxaria que existe, me disseram. J sei de cor todos os livros que
nos mandaram comprar,  claro, s espero que seja suficiente;
alis, sou Hermione Granger, e vocs quem so?
Ela disse tudo isso muito depressa.
Harry ollzou para Rony e sentiu um grande alivio ao ver, por
sua cara espantada, que ele no aprendera todos os livros de cor
tampouco.
- Sou Rony Weasley.
- Harry Potter.
- Verdade? J ouvi falar de voc,  claro. Tenho outros livros
recomendados, e voc est na Histria da magia moderna e em Ascenso
e queda das artes das trevas e em Grandes acontecimentos mgicos do
sculo XX.
- Estou? - admirou-se Harry sentindo-se confuso.
- Nossa, voc no sabia, eu teria procurado saber tudo que
pudesse se fosse comigo - disse Hermione. - J sabem em que
casa vo ficar? Andei perguntando e espero ficar na Grifmria,
me parece a melhor, ouvi dizer que o prprio Dumbledore foi de
l, mas imagino que a Corvinal no seja muito ruim... Em todo o
caso, acho melhor irmos procurar o sapo de Neville. E  melhor
vocs se trocarem, sabe, vamos chegar daqui a pouco.
E foi-se embora, levando o menino sem sapo.
- Seja qual for a minha casa, espero que ela no esteja l -
comentou Rony. E jogou a varinha de volta na mala. - Feitio besta.
Foi o Jorge que me ensinou, aposto que sabia que no prestava.
- Em que casa esto os seus irmosp - perguntou Harry.
- Grifinria. - A tristeza parecia estar se apoderando dele
outra vez. - Mame e papai estiveram l tambm. No sei o que vo
dizer se eu no estiver. Acho que a Corvinal no seria muito ruim,
mas imagine se me puserem na Sonserina.
- a casa em que Vol... quero dizer, Voc-Sabe-Quem estevep?
- . - E afundou novamente no assento, parecendo deprimido.
- Sabe, acho que as pontas dos bigodes de Pereba ficaram um
pouquinho mais claras - disse Harry, tentando distrair o pensamento
de Rony das casas. - Ento, o que  que os seus irmos
mais velhos fazem agora que j terminaram?
Harry estava imaginando o que fazia um bruxo depois que
terminava a escola.
- Carlinhos est na Romnia estudando drages e Gui est na
Africa fazendo um servio para o Gringotes. Voc soube o que
aconteceu com o Gringotes? O Profeta Dirio s fala nisso, mas
acho que morando com os trouxas voc no recebe o jornal. Uns
caras tentaram roubar um cofre de segurana mxima.
Harry arregalou os olhos.
- Verdade? E o que aconteceu com eles?
- Nada,  por isso que  uma notcia to importante. No
foram pegos. Papai disse que deve ter sido um bruxo das trevas
poderoso para enganar Gringotes, mas esto achando que eles no
levaram nada, isso  que  esquisito.  claro que todo o mundo
fica apavorado quando uma coisa dessas acontece porque Voc-
Sabe-Quem pode estar por trs da coisa.
Harry repassou as notcias mentalmente. Estava comeando
a sentir um arrepio de medo toda vez que Voc-Sabe-Quem era
mencionado. Supunha que isso fazia parte do ingresso no mundo
da magia, mas tinha sido muito mais confortvel dizer Voldemort
sem se proreocupar.
- Qual  o seu time de quadribol? - perguntou Rony
- Hum... no conheo nenhum - confessou Harry
- O qup - Rony parecia pasmo. - Ah, espere a,  o melhor
jogo do mundo. - E saiu explicando tudo sobre as quatro bolas e
as posies dos sete jogadores, descreveu jogos famosos a que
fora com os irmos e a vassoura que gostaria de comprrar se tivesse
dinheiro. Estava mostrando a Harry as qualidades do jogo
quando a porta da cabine se abriu mais uma vez, mas agora no
era Neville, o menino sem sapo, nem Hermione Granger.
Trs garotos entraram e Harry reconheceu o do meio na hora:
era o garoto plido da loja de vestes de Madame Malkin. Olhou
para Harry com um interesse muito maior do que revelara no
Beco Diagonal.
-  verdadep - perguntou. - Esto dizendo no trem que
Harry Potter est nesta cabine. Ento  vocp
- Sou - respondeu Harry. Observava os outros garotos. Os
dois eram fortes e pareciam muito maus. Postados dos lados do
menino plido eles pareciam guarda-costas.
-Ah, este  Crabbe e este outro, Goyle - apresentou o garoto
plido displicentemente, notando o interesse de Harry. - E
meu nome  Drago Malfoy
Rony tossiu de leve, o que poderia estar escondendo uma
risadinha. Malfoy olhou para ele.
- Acha o meu nome engraado, ? Nem preciso perguntar
quem voc . Meu pai me contou que na famlia Weasley todos
tm cabelos ruivos e sardas e mais filhos do que podem sustentar.
Virou-se para Harry.
- Voc no vai demorar a descobrir que algumas famlias de
bruxos so bem melhores do que outras, Harry Voc no vai querer
fazer amizade com as ruins. E eu posso ajud-lo nisso.
Ele estendeu a mo para apertar a de Harry, mas Harry no a
apertou.
- Acho que sei dizer qual  o tipo ruim sozinho, obrigado -
disse com frieza.
Drago no ficou vermelho, mas um ligeiro rosado coloriu seu
rosto plido.
- Eu teria mais cuidado se fosse voc, Harry - disse lentamente.
- A no ser que seja mais educado, vai acabar como os
seus pais. Eles tambm no tinham juzo. Voc se mistura com
gentinha como os Weasley e aquele Rbeo e vai acabar se
contaminando.
Harry e Rony se levantaram. O rosto de Rony estva vermelho
como os cabelos.
-Repete isso.
- Ah, voc vai brigar com a gente, vai? - Drago caoou.
-A no ser que voc se retire agora - disse Harry com uma
coragem maior do que sentia, porque Crabbe e Goyle eram bem
maiores do que ele ou Rony.
- Mas no estamos com vontade de nos retirar, estamos,
garotos? J comemos toda a nossa comida e parece que vocs ainda
tm alguma coisa.
Goyle fez meno de apanhar os sapos de chocolate ao lado
de Rony. Rony deu um pulo para a frente, mas antes que
encostasse em Goyle, este soltou um berro terrvel.
Pereba, o rato, estava pendurado em seu dedo, os dentinhos
afiados enterrados na junta de Goyle. Crabbe e Drago recuaram
enquanto Goyle rodava e rodava o brao, urrando, e quando
Pereba finalmente se soltou e bateu na janela, os trs desapareceram
na mesma hora. Talvez achassem que havia mais ratos escondidos
nos doces, ou talvez tivessem ouvido passos porque um
segundo depois, Hermione Granger entrou.
- Que foi que aconteceup - perguntou, vendo os doces
espalhados no cho e Rony apanhando Pereba pela cauda.
-Acho que apagaram ele - disse Rony a Harry E examinou
Pereba mais atentamente. - No... no acredito... ele voltou a
dormir.
E dormira mesmo.
- Voc j conhecia Drago Malfoy?
Harry contou o encontro deles no Beco Diagonal.
- J ouvi falar na famlia dele - disse Rony sombrio. - Foram
os primeiros a voltar para o nosso lado depois que Voc-Sabe-
Quem desapareceu. Disseram que tinham sido enfeitiados. Papai
no acredita nisso. Diz que o pai de Drago no prerecisou de
desculpa para se bandear para o lado das Trevas. - E virou-se para
Hermione. - Podemos fazer alguma coisa por voc?
-  melhor vocs se apressarem e trocarem de roupa. Acabei
de ir l na frente perguntar ao maquinista e ele me disse que
estamos quase chegando. Vocs andaram brigando? Vo se meter
em encrenca antes mesmo de chegarmos l!
- Pereba andou brigando, ns no - disse Rony, fazendo cara
zangada. - Voc se importa de sair para podermos nos trocar?
- Est bem. S vim para c porque as pessoas nas outras
cabines esto se comportando feito crianas, correndo pelos
corredores - disse Hermione em tom choroso. - E voc est com o
nariz sujo, sabia?
Rony amarrou a cara quando ela se retirou. Harry espiou pela
janela. Estava escurecendo. Viu montanhas e matas sob um cu
arroxeado. O trem parecia estar diminuindo a velocidade.
Ele e Rony tiraram os palets e puseram as vestes longas e
pretas. A de Rony estava um pouco curta, dava para ver as calas
por baixo.
Uma voz ecoou pelo trem:
- Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por
favor deixem a bagagem no trem, ela ser levada para a escola.
O estmago de Harry revirou de nervoso e ele reparou que
Rony parecia plido sob as sardas. Os dois encheram os bolsos
com o resto dos doces e se reuniram  garotada que apinhava os
corredores.
O trem foi diminuindo a velocidade e finalmente parou. As
pessoas se empurraram para chegar  porta e descer na pequena
plataforma escura. Harry estremeceu ao ar frio da noite. Ento
apareceu uma lmpada balanando sobre as cabeas dos estudantes
e Harry ouviu uma voz conhecida.
- Alunos do prorimeiro ano! Primeiro ano aqui! Tudo bem,
Harry?
O rosto grande e peludo de Rbeo Hagrid sorria por cima de
um mar de cabeas.
- Vamos, venham comigo. Mais algum do primeiro ano?
Aos escorreges e tropees, eles seguiram Hagrid por um
caminho de aparncia ngreme e estreita. Estava to escuro em volta
que Harry achou que devia haver grandes rvores ali. Ningum
falou muito. Neville, o menino que vivia perdendo o sapo, fungou
umas duas vezes.
- Vocs vo ter a primeira viso de Hogwarts em um segundo
- Hagrid gritou por cima do ombro -, logo depois dessa curva.
Ouviu-se um Aooooooh muito alto.
O caminho estreito se abrira de repente at a margem de um
grande lago escuro. Encarrapitado no alto de um penhasco na
margem oposta, as janelas cintilando no cu estrelado, havia um
imenso castelo com muitas torres e torrinhas.
- S quatro em cada barco! - gritou Hagrid, apontando para
uma flotilha de barquinhos parados na gua junto  margem.
Harry e Rony foram seguidos at o barco por Neville e
Hermione.
- Todos acomodados? - gritou Hagrid, que tinha um barco
s para si. - Ento... Vamos!
E a flotilha de barquinhos largou toda ao mesmo tempo,
deslizando pelo lago que era liso como um vidro. Todos estavam
silenciosos, os olhos fixos no grande castelo no alto. A construo
se agigantava  medida que se aproximavam do penhasco em que
estava situado.
-Abaixem as cabeas! -berrou Hagrid quando os primeiros
barcos chegaram ao penhasco; todos abaixaram as cabeas e os
barquinhos atravessaram uma cortina de hera que ocultava uma
larga abertura na face do penhasco. Foram impelidos por um
tnel escuro, que parecia lev-los para debaixo do castelo, at uma
espcie de cais subterrneo, onde desembarcaram subindo e
pisando em pedras e seixos.
- Ei, voc a!  o seu sapo? - perguntou Hagrid, que verificava
os barcos  medida que as pessoas desembarcavam.
-Trevo! - gritou Neville feliz, estendendo as mos.
Ento eles subiram por uma passagem aberta na rocha,
acompanhando a lanterna de Hagrid, e desembocaram finalmente
em um gramado fofo e mido  sombra do castelo.
Galgaram uma escada de pedra e se aglomeraram em torno
da enorme porta de carvalho.
- Esto todos aqui? Voc a, ainda est com o seu sapo?
Hagrid ergueu um punho gigantesco e bateu trs vezes na
porta do castelo.

- CAPTULO SETE
O chapu seletor

A porta abxiu-se de chofre. E apareceu uma bruxa alta de cabelos
negros e vestes verde-esmeralda. Tinha o rosto muito severo e o
primeiro pensamento de Harry foi que era uma pessoa a quem
no se devia aborrecer.
-Alunos do primeiro ano, Profa. Minerva McGonagall -
informou Hagrid.
- Obrigada, Hagrid. Eu cuido deles daqui em diante.
Ela escancarou a porta. O saguo era to grande que teria
cabido a casa dos Dursley inteira dentro. As paredes de pedra estavam
iluminadas com archotes flamejantes como os de Gringotes,
o teto era alto demais para se ver, e uma imponente escada de
mrmore em frente levava aos andares superiores.
Eles acompanharam a Profa. Minerva pelo piso de lajotas de
pedra. Harry ouviu o murmrio de centenas de vozes que vinham
de uma porta  direita - o restante da escola j devia estar reunido.
Mas a Profa. Minerva levou os alunos da primeira srie a uma
sala vazia ao lado do saguo. Eles se agruparam l dentro, um
pouco mais apertados do que o normal, olhando, nervosos, para
os lados.
- Bem-vindos a Hogwarts - disse a Profa. Minerva. - O
banquete de abertura do ano letivo vai comear daqui a pouco, mas
antes de se sentarem s mesas, vocs sero selecionados por casas.
A Seleo  uma cerimnia muito importante porque, enquanto
estiverem aqui, sua casa ser uma espcie de famlia em Hogwarts.
Vocs assistiro a aulas com o restante dos alunos de sua casa,
dormiro no dormitrio da casa e passaro o tempo livre na sala
comunal. 
"As quatro casas chamam-se Grifinria, Lufa-lufa, Corvinal e
Sonserina. Cada casa tem sua histria. honrosa e cada uma produziu
bruxas e bruxos extraordinrios. Enquanto estiverem em
Hogwarts os seus acertos rendero pontos para sua casa, enquanto
os erros a fro perder. No fim do ano, a casa com o maior
nmero de pontos receber a taa da casa, uma grande honra. Espero
que cada um de vocs seja motivo de orgulho para a casa  qual
vier a pertencer.
"A Cerimnia de Seleo vai se realizar dentro de alguns
minutos na presena de toda a escola. Sugiro que vocs se arrumem
o melhor que puderem enquanto esperam."
O olhar dela se demorou por um instante na capa de Neville,
que estava afivelada debaixo da orelha esquerda, e no nariz sujo de
Rony. Harry, nervoso, tentou achatar os cabelos.
- Voltarei quando estivermos prontos para receber vocs -
disse a Profa. Minerva. - Por favor, aguardem em silncio.
E se retirou da sala. Harry engoliu em seco.
- Mas como  que eles selecionam a gente para as casas? -
Harry perguntou a Rony.
- Devem fazer uma espcie de teste, acho. Fred diz que di 
cabea, mas acho que estava brincando.
O corao de Harry deu um pulo terrvel. Um teste? Na frente
da escola toda? Mas ele ainda nem conhecia mgica nenhuma -
que diabo teria que fazer? No previra nada do gnero assim logo
na chegada. Olhou  volta, ansioso, e viu que os outros tambm
pareciam apavorados. Ningum falava muito a no ser Hermione,
que cochichava muito depressa todos os feitios que aprendera,
sem saber o que precisaria mostrar. Harry fez fora para no escutar
o que ela dizia. Nunca se sentira to nervoso, nunca, nem mesmo
quando tivera que levar um boletim escolar para os Dursley
dizendo que, no sabiam como, ele fizera a peruca do professor
ficar azul. Ele manteve os olhos grudados na porta. A qualquer
segundo agora a Profa. Minerva voltaria e o conduziria ao seu triste
fim.
Ento aconteceu uma coisa que o fez pular bem uns trinta
centmetros no ar- vrias pessoas atrs dele gritaram.
- Que di...
Ele ofegou. E as pessoas  sua volta tambm. Uns vinte
fantasmas passaram pela parede dos fundos: Brancos-prola e ligeiramente
transparentes, eles deslizaram pela sala conversando entre
si, mal vendo os alunos do primeiro ano. Pareciam estar discutindo.
O que lembrava um fradinho gorducho ia dizendo: Perdoar e
esquecer, eu diria, vamos dar a ele uma segunda chance...
- Meu caro frei, j no demos a Pirraa todas as chances que
ele merecia? Ele mancha a nossa reputao e, voc sabe, ele nem
ao menos  um fantasma. Nossa, o que  que essa garotada est
fazendo aqui?
Um fantasma, que usava uma gola de rufos engomados e
meles, de repente reparou nos alunos do primeiro ano.
Ningum respondeu.
-Alunos novos! - disse o frei Gorducho, sorrindo para eles.
- Esto esperando para ser selecionados, imaginop.
Alguns garotos confirmaram com a cabea, mudos.
- Espero ver vocs na Lufa-lufa! - falou o frei. - A minha
casa antiga, sabe?
- Vamos andando agora - disse uma voz enrgica. - A Cerimnia
de Seleo vai comear.
A Profa. Minerva voltara. Um a um os fantasmas saram voando
pela parede oposta.
-Agora faam fila e me sigam.
Sentindo-se pouco  vontade como se suas pernas tivessem
virado chumbo, Harry entrou na fila atrs de um garoto de cabelos
cor de palha e na frente de Rony, e todos saram da sala, tornaram
a atravessar o saguo e as portas duplas que levavam ao Grande
Salo.
Harry jamais imaginara um lugar to diferente e esplndido.
Era iluminado por milhares de velas que flutuavam no ar sobre
quatro mesas compridas, onde os demais estudantes j se
encontravam sentados. As mesas estavam postas com pratos e taas
douradas. No outro extremo do salo havia mais uma mesa
comprida em que se sentavam os professores. A Profa. Minerva levou
os alunos de primeiro ano at ali, de modo que eles pararam 
enfileirados diante dos outros, tendo os professores s suas costas.
As centenas de rostos que os contemplavam pareciam lanternas
fracas  luz trmula das velas. Misturados aqui e ali aos estudantes,
os fantasmas brilhavam como prata envolta em nvoa. Principalmente
para evitar os olhares fixos neles, Harry olhou para cima e
viu um teto aveludado e negro salpicado de estrelas. Ouviu
Hermione cochichar:
-  enfeitiado para parecer o cu l fora, li em Hogwarts, uma
histria.
Era dificil acreditar que havia um teto ali e que o Salo Principal
simplesmente no se abria para o infinito.
Harry baixou depressa os olhos quando a Profa. Minerva
silenciosamente colocou um banquinho de quatro pernas diante
dos alunos do primeiro ano. Em cima do banquinho ela ps um
chapu pontudo de bruxo. O chapu era remendado, esfiapado e
sujssimo. Tia Petnia no teria permitido que um objeto nessas
condies entrasse em casa.
Talvez tivessem que tentar tirar um coelho de dentro dele,
Harry pensou delirando, parecia apropriado - reparando que todos
no salo agora olhavam para o chapu, ele olhou tambm. Por
alguns segundos fez-se um silncio total. Ento o chapu
mexeu. Um rasgo junto  aba se abriu como uma boca - e o chapu
comeou a cantar:
A.h, vocs podem me acharpouco atraente,
Mas no me julguem spela aparncia
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapu mais inteligente do que opapai aqui.
Podem guardar seus chapus-coco bempretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque sou o Chapu Seletor de Hogwarts
E dou de dez  a zero em qualquer outro chapu.
No h nada escondido em sua cabea
que o Chapu Seletor no consiga ver,
Por isso  s me porem na cabea que vou dizer
Em que casa de Hogwarts devero ficar.
quem sabe sua morada  a Grifinria,
Casa onde habitam os corapes indmitos.
Ousadia e sangue frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinria dos demais;
quem sabe  na Lufa-lufa que voc vai morar,
Onde seus moradores so justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor;
Ou ser a velha e sbia Corvinal,
A casa dos que tm a mente sempre alerta,
Onde os homens degrande esprito e saber
Sempre encontraro companheiros seus iguais;
Ou quem sabe a Sonserina ser a sua casa
E ali far seus verdadeiros amigos,
Homens de astci que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem!No devem temer!
Nem se atrapalhar! Estaro em boas mos!
(Mesmo que os chapus no tenham ps nem mos)
Porque sou nico, sou um Chapu Pensador!
O salo inteiro prorrompeu em aplausos quando o chapu
acabou de cantar. Ele fez uma reverncia para cada uma das quatro
mesas e em seguida ficou muito quieto outra vez.
- Ento s precisamos experimentar o chapu! - cochichou
Rony a Harry. Vou matar o Fred, ele no parou de falar numa luta
contra um trasgo.
Harry deu um sorriso sem graa. , experimentar um chapu
era bem melhor do que precisar fazer um feitio, mas desejou que
pudessem ter experimentado o chapu sem toda aquela gente
olhando. O chapu parecia estar pedindo muito; Harry no se sentia
corajoso nem inteligente nem qualquer outra coisa naquele
momento. Se ao menos o chapu tivesse mencionado uma casa para
gente que se sentia meio nervosa, quem sabe teria sido a sua casa.
A Profa. Minerva ento se adiantou segurando um longo rolo
de pergaminho.
- Quando eu chamar seus nomes, vocs poro o chapu e se
sentaro no banquinho para a seleo. Ana Abbott!
Uma garota de rosto rosado e marias-chiquinhas louras saiu
aos tropeos da fila, ps o chapu, que lhe afundou direto at os
olhos, e se sentou. Uma pausa momentnea...
- LUFA-LUFA! - anunciou o chapu.
A mesa  direita deu vivas e bateu palmas quando Ana foi se
sentar  mesa da Lufa-lufa. Harry viu o fantasma do fradinho
Gorducho acenar alegremente para ela..
- Susana Bones!
- LUFA-LUFA! - anunciou o chapu outra vez, e Susana saiu
depressa e foi se sentar ao lado de Ana.
-Teo Boot!
- CORVINAL!
Desta vez foi a segunda mesa  esquerda que aplaudiu; vrios
alunos da Corvinal se levantaram para apertar a mo de Teo quando
o menino se reuniu a eles.
Mdi Brocklehurst foi para a Corvinal tambm, mas Lil
Brown foi a primeira a ser escolhida para a Grifinria e a mesa na
extrema esquerda explodiu em vivas; Harry viu os irmos gmeos
de Rony assobiarem.
Mila Bulstrode se tornou uma Sonserina. Talvez fosse a
imaginao de Harry, mas depois de tudo que ouvira sobre a
Sonserina, achou que eles formavam um grupo de aparncia
desagradvel.
Estava comeando a se sentir decididamente mal agora.
Lembrou-se da seleo para os times, nas aulas de esporte de sua velha
escola.. Sempre fora o ltimo a ser escolhido, no porque no fosse
bom, mas porque ningum queria que Duda pensasse que gostavam
dele.
- Justino Finch-Fletchley!
- LUFA-LUFA!
s vezes, Harry reparou, o chapu anunciava logo o nome da
casa, mas outras levava um tempo para se decidir.
Simas Finnigan, o menino de cabelos cor de palha ao lado de
Harry na fila, passou sentado no banquinho quase um minuto,
antes do chapu anunciar que ia para a Grifinria.
- Hermione Granger! .
Hermione saiu quase correndo at o banquinho e enfiou o
chapu, ansiosa.
- GRIFINRIA! - anunciou o chapu. Rony gemeu.
Um pensamento horrvel ocorreu a Harry, como fazem os
pensamentos horrveis quando a pessoa est nervosa. E se ele no
fosse escolhido? E se ficasse ali sentado com o chapu na cabea,
cobrindo seus olhos durante um tempo, at a Profa. Minerva
arranc-lo de sua cabea e dizer que obviamente houvera um
engano e era melhor ele pegar o trem de volta?
Quando Neville Longbottom, o menino que no parava dep
perder o sapo, foi chamado, levou um tombo a caminho do
banquinho. O chapu demorou muito tempo para se decidir
sobre Neville. Quando finalmente anunciou "GRIFINRIA", Neville
saiu correndo com o chapu na cabea; e teve de voltar em meio
a uma avalanche de risadas para entreg-lo a Morag MacDougal.
Malfoy se adiantou, gingando, quando chamaram seu nome e
teve seu desejo realizado imediatamente: o chapu mal tocara sua
cabea quando anunciou:
- SONSERINA!
Faltava pouca gente agora.
Moon..., Nott..., Parkinson..., depois duas gmeas, Patil e
Patil..., depois Perks, Sara... e ento, finalmente...
- Harry Potter!
Quando Harry se adiantou, correu um burburinho por todo
o salo como um fogo de rastilho.
- Potter, foi o que ela disse?
- O Harry Potter?
 A ltima coisa que Harry viu antes de o chapu lhe cair sobre
os olhos foi um salo cheio de gente se espichando para lhe dar
uma boa olhada. Em seguida s viu a escurido dentro do chapu.
- Difcil. Muito difcil. Bastante coragem, vejo. Uma mente
nada m. H talento, ah, minha nossa, uma sede razovel de se
provar, ora isso  interessante... Ento, onde vou coloc-lo?
    Harry apertou as bordas do banquinho e pensou "Sonserina
no, Sonserina, no".
- Sonserina, no, hein? - disse a vozinha. - Tem certeza?
Voc poderia ser grande, sabe, est tudo aqui na sua cabea, e a
Sonserina lhe ajudaria a alcanar essa grandeza, sem dvida
nenhuma, no? Bem, se voc tem certeza, ficar melhor na
GRIFINRIA!
Harry ouviu o chapu anunciar a ltima palavra para todo o
salo. Tirou o chapu e se encaminhou trmulo para a mesa de
Grifinria. Sentia tanto alivio por ter sido selecionado e ter
escapado de Sonserina, que nem reparou que estava recebendo a maior
ovao da cerimnia. Percy, o Monitor, se levantou e apertou sua
mo com energia, enquanto os gmeos Weasley gritavam
"Ganhamos Potter! Ganhamos Potter!" Harry sentou-se defronte do
fantasma com a gola de rufos que vira antes da cerimnia. O
fantasma lhe deu uma palmadinha no brao, produzindo em Harry a
sensao horrvel e repentina de que acabara de mergulhar num
balde de gua gelada.
Agora ele via bem a Mesa Principal. Na extremidade mais
prxima sentava-se Rbeo Hagrid, cujo olhar encontrou o seu e
lhe fez um sinal de aprovao. Harry retribuiu o seu sorriso. E ali,
no centro da Mesa Principal, em um cadeiro dourado,
encontrava-se Alvo Dumbledore. Harry o reconheceu imediatamente
pela figurinha que tirara no sapo de chocolate comprado no trem.
Os cabelos prateados de Dumbledore eram a nica coisa no salo
inteiro que brilhava tanto quanto os fantasmas. Harry viu o Prof.
Quirrell tambm, o rapaz nervoso do Caldeiro Furado. Parecia
muito extravagante num grande turbante prpura.
E agora s faltavam trs pessoas para serem selecionadas.
Lisa Turpin virou uma Corvinal e depois foi a vez de Rony A essa
altura ele estava branco-esverdeado. Harry cruzou os dedos sob a
mesa para dar sorte e um segundo depois o chapu anunciou
GRIFINRIA!
Harry bateu palmas bem alto com os demais quando Rony se
largou numa cadeira a seu lado.
- Muito bem, Rony, excelente - disse Percy Weasley pomposamente
por cima de Harry, na mesma hora em que Bls Zabini
era mandado para a Sonserina. A Profa. Minerva enrolou o pergaminho
e recolheu o Chapu Seletor.
Harry baixou os olhos para o prato dourado e vazio diante
dele. Acabara de perceber como estava faminto. As tortinhas de
abbora pareciam ter sido comidas havia anos.
Alvo Dumbledore se levantara. Sorria radiante para os estudantes,
os braos bem abertos, como se nada no mundo pudesse
ter-lhe agradado mais do que v-los todos reunidos ali.
- Sejam bem-vindos! - disse. - Sejam bem-vindos para um
novo ano em Hogwarts! Antes de comearmos nosso banquete,
eu gostaria de dizer umas palavrinhas: Pateta! Choro!
Destabocado! Belisco! Obrigado.
E sentou-se. Todos bateram palmas e deram vivas. Harry no
sabia se ria ou no.
- Ele ... um pouquinho maluco:' -perguntou, incerto, a percy.
- Maluco? - disse Percy despreocupado. - Ele  um gnio! O
melhor bruxo do mundo! Mas  um pouquinho maluco, sim.
Batatas, Harry?
O queixo de Harry caiu. Os pratos diante dele agora estavam
cheios de comida. Ele nunca vira tantas coisas que gostava de
comer em uma mesa s: rosbife, galinha assada, costeletas de porco
e de carneiro, pudim de carne, ervilhas, cenouras, molho, ketchup
e, por alguma estranha razo, docinhos de hortel.
No  que os Dursley tivessem deixado Harry com fome,
mas nunca lhe permitiram comer tanto quanto quisesse. Duda
sempre tirava tudo que Harry realmente queria, mesmo que
acabasse doente. Harry encheu o prato com um pouco de cada coisa
exceto os docinhos e comeou a comer. Estava tudo uma delicia.
- Isto est com uma cara tima - disse o fantasma de gola de
rufos observando, tristemente, Harry cortar o rosbife.
- O senhor no pode...?
-No como h quase quatrocentos anos -explicou o fantasma.
- No preciso,  claro, mas a pessoa sente falta. Acho que ainda
no me apresentei? Cavalheiro Nicholas de Mimsy-Porpington
s suas ordens. Fantasma residente da torre da Grifinria.
- Eu sei quem o senhor ! - disse Rony inesperadamente. -
Meus irmos me falaram do senhor. O senhor  o Nick Quase
Sem Cabea.
- Eu prefiro que voc me chame de cavalheiro Nicholas de
Mimsy - o fantasma comeou muito formal, mas o louro Simas
Finnigan o interrompeu.
- Quase Sem Cabea? Como  que algum pode ser quase sem
cabea?
Sir Nicholas parecia muitssimo aborrecido, como se aquela
conversinha no estivesse tomando o rumo que ele queria.
-Assim - disse com irritao. E agarrou a orelha esquerda e
puxou. A cabea toda girou para fora do pescoo e caiu por cima
do ombro como se estivesse presa por uma dobradia. Era bvio
que algum tentara decapit-lo, mas no fizera o servio direito.
Satisfeito com a cara de espanto dos garotos, Nick Quase Sem
Cabea empurrou a cabea de volta ao pescoo, tossiu e disse:
- Ento, novos moradores da Grifinria! Espero que nos ajudem
a ganhar o campeonato das casas este ano! Grifinria nunca
passou tanto tempo sem ganhar a taa. Sonserina tem ganhado
nos ltimos seis anos! O baro Sangrento est ficando quase
insuportvel. Ele  o fantasma da Sonserina.
Harry deu uma olhada na mesa de Sonserina e viu um fantasma
horroroso sentado l, os olhos vidrados, uma cara muito
magra e vestes sujas de sangue prateado. Estava ao lado de Malfoy,
que, Harry ficou contente de ver, no parecia muito satisfeito
com a distribuio dos lugares.
- Como foi que ele ficou coberto de sangue? - perguntou
Simas muito interessado.
- Nunca perguntei - respondeu Nick Quase Sem Cabea,
educadamente.
Depois que todos comeram tudo o que podiam, as sobras
desapareceram dos pratos deixando-os limpinhos como no incio.
Logo depois surgiram as sobremesas. Tijolos de sorvete de todos
os sabores que se possa imaginar, tortas de mas, tortinhas de
caramelo, bombas de chocolate, roscas fritas com gelia, bolos de
frutas com calda de vinho, morangos, gelatinas, pudim de arroz...
Quando Harry se serviu das tortinhas de caramelo, a conversa
se voltou para as familias.
- Eu sou meio a meio - disse Simas. - Papai  trouxa. Mame
no contou a ele que era bruxa at depois de casar-se. Teve um
choque horrvel.
Os outros riram.
- E voc, Nevillep - perguntou Rony.
- Bom, minha av me criou e ela  bruxa, mas a famlia achou
durante anos que eu era completamente trouxa. Meu tio-av Algi
vivia tentando me pegar desprevenido e me forar a recorrer 
magia. Ele me empurrou pela borda de um cais uma vez, eu quase
me afoguei. Mas nada aconteceu at eu completar oito anos.
Meu tio Algi veio tomar ch conosco e tinha me pendurado pelos
calcanhares para fora de uma janela do primeiro andar, quando a
minha tia-av Enid lhe ofereceu um merengue e ele sem querer
me deixou cair. Mas eu desci flutuando at o jardm e a estrada.
Todos ficaram realmente satisfeitos. Minha av chorou de tanta
felicidade. E vocs deviam ter visto a cara deles quando entrei
para Hogwaxts. Achavam que eu no era bastante mgico para
entrar, entendem. Meu tio Algi ficou to contente que me comprou
um sapo.
Do outro lado de Harry, Percy e Hermione conversavam
sobre as aulas.
- Espero que elas comecem logo, tem tanta coisa para a gente
aprender, estou muito interessada em Transfigurao, sabe,
transformar uma coisa em outra, claro, dizem que  muito dificil;
a pessoa comea aos poucos, fsforos em agulhas e coisas pequenas
assim.
Harry, que estava comeando a se sentir aquecido e cheio de
sono, olhou outra vez para a Mesa Principal. Hagrid tomava um
grande gole de sua taa. A Profa. Minerva conversava com o Prof.
Dumbledore. O Prof. Quirrell, com aquele turbante ridculo,
conversava com um professor de cabelos negros e oleosos, nariz de
gancho e pele macilenta.
Aconteceu muito de repente. O olhar do professor de nariz
de gancho passou pelo turbante de Quirrell e se fixou nos olhos
de Harry, e uma pontada aguda e quente correu pela testa de
Harry.
- Ui! - Harry levou a mo  testa.
- Que foi? - perguntou Percy.
- N-nada.
A dor se foi com a mesma rapidez com que viera. Mais dificil
foi se livrar da sensao que Harry teve sob o olhar do professor
- uma sensao de que ele no gostava nada de Harry.
- Quem  aquele professor que est conversando com o Prof.
Quirrellp - perguntou a Percy.
- Ah, voc j conhece Quirrell, ? No admira que ele parea
to nervoso, aquele  o Prof. Snape. Ele ensina Poes, mas no 
o que ele quer. Todo o mundo sabe que est cobiando o cargo de
Quirrell. Conhece um bocado as Artes das Trevas, o Snape.
Harry observou o professor por algum tempo, mas Snape
no voltou a olhar em sua direo.
Finalmente, as sobremesas tambm desapareceram, e o Prof.
Dumbledore ficou de p mais uma vez. O salo silenciou.
- Hum... s mais umas palavrinhas agora que j comemos e
bebemos. Tenho alguns avisos de incio de ano letivo para vocs.
"Os alunos do primeiro ano devem observar que  proibido
andar na floresta da propriedade. E alguns dos nossos estudantes
mais antigos fariam bem em se lembrar dessa proibio."
Os olhos cintilantes de Dumbledore faiscaram na direo dos
gmeos Weasley.
- O Sr. Filch, o zelador, me pediu para lembrar a todos que no
devem fazer mgicas no corredor durante os intervalos das aulas.
"Os testes de quadribol sero realizados na segunda semana
de aulas. Quem estiver interessado em entrar para o time de sua
casa dever procurar Madame Hooch. E, por ltimo,  preciso
avisar que, este ano, o corredor do terceiro andar do lado direito
est proibido a todos que no quiserem ter uma morte muito
dolorosa."
Harry riu, mas foi um dos poucos que fez isso.
- Ele no est falando srio! - cochichou a Percy.
- Deve estar - respondeu Percy franzindo a testa para
Dumbledore. -  estranho porque em geral ele sempre nos diz a
razo por que somos proibidos de ir a algum lugar. A floresta est
cheia de animais selvagens, todo o mundo sabe disso. Acho que
poderia ter dito aos monitores, pelo menos.
- E agora, antes de irmos para a cama, vamos cantar o hino
da escola! - exclamou Dumbledore. Harry reparou que os sorrisos
dos outros professores tinham amarelado.
Dumbledore fez um pequeno aceno com a varinha como se
estivesse tentando espantar uma mosca na ponta e surgiu no ar
uma longa fita dourada, que esvoaou para o alto das mesas e se
enroscou como uma serpente formando palavras.
- Cada um escolha sua msica preferida - convidou
Dumbledore -, e l. vamos ns!
E a escola entoou em altos brados:
Hogwarts, Hogwarts, Hoggy Warty Hogwarts,
Nos ensine algo por favor,
Quer sejamos velhos e calvos
puer moos de pernas raladas,
Temos as cabeas precisadas
De idias interessantes
Pois esto ocas e cheias de ar,
Moscas mortas e fios de coto.
Nos ensine o que vale a pena
Faa lembrar o que j esquecemos
Faa o melhor, faremos o resto,
Estudaremos at o crebro se desmanchar.
Todos terminaram a msica em tempos diferentes. E por fim
s restaram os gmeos Weasley cantando sozinhos, ao som de
uma lenta marcha fnebre. Dumbledore regeu os ltimos versos
com sua varinha e, quando eles terminaram, foi um dos que
aplaudiram mais alto.
- Ah, a msica - disse secando os olhos. - Uma mgica que
transcende todas que fazemos aqui! E agora, hora de dormir.
Andando!
Os novos alunos de Grifinria seguiram Percy por entre os
grupos que conversavam, saram do salo principal e subiram a
escadaria de mrmore. As pernas de Harry pareceram chumbo
outra vez mas s porque estava muito cansado e saciado. Estava
cansado demais at para se surpreender que as pessoas nos retratos
ao longo dos corredores murmurassem e apontassem quando
eles passavam, ou que duas vezes Percy os tivesse conduzido por
portais escondidos atrs de painis corredios e tapearias penduradas.
Subiram outras tantas escadas, bocejando e arrastando os
ps, e Harry comeou a se perguntar quanto ainda faltava para
chegar quando de repente pararam.
Um feixe de bengalas flutuava no ar  frente deles, e quando
Pexcy avanou um passo em sua direo, comearam a assalt-lo.
- Pirraa - cochichou Percy para os alunos do primeiro ano.
- Um Poltergeist. - E falou em voz alta:
- Pirraa, calma.
Um som alto e grosseiro, como o ar escapando de um balo
respondeu:
- Quer que eu v procurar o baro Sangrento?
Ouviram um estalo e um homenzinho com olhos escuros e
maus e a boca escancarada apareceu, flutuando de pernas cruzadas
no ar, segurando as bengalas.
- Oooooooooh! - disse com uma risada malvada. -
Calourinhos! Que divertido!
E mergulhou repentinamente contra eles. Todos se abaixaram.
- V embora, Pirraa, ou vou contar ao baro, e estou falando
srio! - ameaou Percy.
Pirraa estirou a lngua e desapareceu, largando as bengalas
na cabea de Neville. Eles o ouviram partir zunindo, fazendo retinir
 os escudos de metal ao passar.
- Vocs tenham cuidado com o Pirraa - recomendou Percy,
quando retomaram a caminhada. - O baro Sangrento  o nico
que consegue control-lo, ele no d confiana aos monitores.
Chegamos.
No finzinho do corredor havia um retrato de uma mulher
muito gorda vestida de rosa.
- Senhap - pediu ela.
- Cabea de Drago - disse Percy, e o retrato se inclinou para
a frente revelando um buraco redondo na parede. Todos passaram
pelo buraco. Neville precisou de um calo. E se viram no
salo comunal da Grifinria, um aposento redondo cheio de poltronas
fofas.
Percy indicou s garotas a porta do seu dormitrio e, aos
meninos, a porta do deles. No alto de uma escada em caracol - era
bvio que estavam em uma das torres - encontraram finalmente
suas camas: cinco camas com reposteiros de veludo vermelho-
escuro. As malas j haviam sido trazidas. Cansados demais para falar
muito, eles enfiaram os pijamas e caram na cama.
- Comida de primeira, no foi? - comentou Rony para Harry
pelos reposteiros. - Se manda, Pereba! Ele est roendo os meus
lenis.
Harry ia perguntar a Rony se ele provara as tortinhas de caramelo,
mas adormeceu quase imediatamente.
Talvez Harry tivesse comido demais, porque teve um sonho
muito estranho. Estava usando o turbante do Prof. Quirrell, que
no parava de conversar com ele, dizendo que devia se mudar
para Sonserina imediatamente, porque era seu destino. Harry disse
ao turbante que no queria ir para Sonserina; o turbante foi
ficando cada vez mais pesado; Harry tentou tir-lo mas ele comeou
a apertar sua cabea at doer - e a Malfoy apareceu, rindo do
esforo dele. Depois Malfoy se transformou no professor de nariz
de gancho, Snape, cuja gargalhada ecoou alta e fria - houve
um claro verde e Harry acordou, suado e trmulo.
Mudou de posio e tornou a dormir, e quando acordou no
dia seguinte, nem se lembrou que tinha sonhado.


- CAPTULO OITO -
O mestre das poes

-Ali, olha.
- Onde?
-Ao lado do garoto alto de cabelos vermelhos.
-De culos?
- Voc viu a cara dele?
- Voc viu a cicatriz?
Os murmrios acompanharam Harry desde a hora em que
ele saiu do dormitrio no dia seguinte. A garotada que fazia fila do
lado de fora das salas de aula ficava nas pontas dos ps para dar
uma espiada, ou ia e vinha nos corredores para v-lo duas vezes.
Harry desejou que no fizessem isso, porque estava tentando se
concentrar para encontrar o caminho para suas aulas.
Havia cento e quarenta e duas escadas em Hogwarts: largas e
imponentes; estreitas e precrias; umas que levavam a um lugar
diferente s sextas-feiras; outras com um degrau no meio que
desaparecia e a pessoa tinha que se lembrar de saltar por cima. Alm
disso, havia portas que no abriam a no ser que a pessoa pedisse
por favor, ou fizesse ccegas nelas no lugar certo, e portas que
no eram bem portas, mas paredes slidas que fingiam ser portas.
Era tambm muito dificil lembrar onde ficavam as coisas, porque
tudo parecia mudar freqentemente de lugar. As pessoas nos
retratos saam para se visitar e Harry tinha certeza de que os brases
andavam.
Os fantasmas tambm no ajudavam nada. Era sempre um
choque horrvel quando um deles atravessava de repente uma
porta que a pessoa estava querendo abrir. Nick Quase Sem Cabea
ficava sempre feliz de apontar a direo certa para os alunos de
Grifinria, mas Pirraa, o Poltergeist, representava duas portas
fechadas e uma escada falsa se a pessoa o encontrasse quando estava
atrasada para uma aula.. Ele despejava cestas de papis na cabea
das pessoas, puxava os tapetes de baixo de seus ps, acertava-as
com pedacinhos de giz ou vinha sorrateiro por trs, invisvel, e
agarrava-as pelo nariz e guinchava: "PEGUEI-A PELA BICANCA!"
Pior que o Poltergeist, se  que era possvel, era o zelador,
Argos Filch. Harry e Rony conseguiram conquistar sua m vonta-
de logo na primeira manh. Filch encontrou-os tentando forar
caminho por uma porta que, por azar, era a entrada para o corredor
proibido no terceiro andar. Ele no quis acreditar que estavam
perdidos, pois tinha certeza de que estavam tentando
arromb-la de propsito e ameaava tranc-los nas masmorras,
quando foram salvos pelo Prof. Quirrell, que ia passando.
Filch tinha uma gata chamada Madame Nor-r-r-a, como
quem ronrona, um bicho magro, cor de poeira, com olhos saltados
como lmpadas, iguais aos de Filch. Ela patrulhava os corredores
sozinha. Se algum desobedecesse a uma regra em sua
presena, pusesse o dedo do p fora da linha, ela corria a buscar
Filch, que aparecia, asmtico, em dois segundos. Filch conhecia as
passagens secretas da escola melhor do que ningum (exceto talvez
os gmeos Weasley) e podia surgir de repente como um
fantasma. Os estudantes a detestavam e a ambio mais desejada de
muitos era dar um bom pontap em Madame Nora.
Alm disso, quando a pessoa conseguia encontrar o caminho
das salas, havia as aulas em si. Mgica era muito mais do que sacudir
a varinha e dizer meia dzia de palavras engraadas, como
Harry logo descobriu.
Tinham de estudar o cu da noite pelo telescpio toda
quarta-feira  meia-noite e aprender os nomes das diferentes estrelas e
os movimentos dos planetas. Trs vezes por semana iam para as
estufas de plantas atrs do castelo para estudar herbologia, com
um bruxo baixo e gordo chamado Prof. Sprout, com quem aprendiam
 como cuidar de todas as plantas e fungos estranhos e
descobriam para que eram usados.
Sem favor, a aula mais chata era a de Histria da Mgica, a
nica matria ensinada por um fantasma. O Prof. Binns era realmente
muito velho quando adormeceu diante da lareira na sala
dos professores e levantou na manh seguinte para dar aulas,
deixando o corpo para trs. Binns falava sem parar enquanto eles
anotavam nomes e datas e acabavam confundindo Emerico, o
Mau, com Urico, o Esquisito.
O Prof. Flitwick, que ensinava Feitios, era um bruxo
miudinho que tinha de subir numa pilha de livros para enxergar
por cima da mesa. No comeo da primeira aula ele pegou a pauta
e quando chegou ao nome de Harry soltou um gritinho excitado
e caiu da pilha, desaparecendo de vista.
J a Profa. Minerva era diferente. Harry estava certo quando
pensou que ela no era professora para aluno nenhum aborrecer.
Severa e inteligente, fez um sermo no instante em que eles se
sentaram para a primeira aula.
- A Transfigurao  uma das mgicas mais complexas e
perigosas que vo aprender em Hogwarts. Quem fizer bobagens na
minha aula vai sair e no vai voltar mais. Esto avisados.
Transformou, ento, a mesa em porco e de volta em mesa.
Todos ficaram muito impressionados e ansiosos para comear,
mas logo perceberam que no iam transformar os mveis em animais
ainda por muito tempo. Depois de fazerem anotaes
complicadas, receberam um fsforo e comearam a tentar
transform-lo em agulha. No fim da aula, somente Hermione Granger
produzira algum efeito no fsforo; a Profa. Minerva mostrou 
classe como o fsforo ficara todo prateado e pontiagudo e deu
um raro sorriso  aluna.
A matria que todos estavam realmente aguardando com
ansiedade era a de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas as aulas
de Quirrell foram uma piada. Sua sala cheirava fortemente a alho,
que todos diziam que era para espantar um vampiro que ele
encontrara na Romnia e temia que viesse atac-lo a qualquer dia.
Seu turbante, contou ele, fora presente de um prncipe africano
como agradecimento por t-lo livrado de um zumbi incmodo,
mas os alunos no tinham muita certeza se acreditavam na histria.
Primeiro porque, quando Simas Finnigan pediu ansioso para
Quirrell contar como liquidara o zumbi, Quirrell ficou vermelho
e comeou a falar do tempo; segundo porque eles repararam que
havia um cheiro engraado em volta do turbante, e os gmeos
Weasley insistiam que devia estar cheio de alho tambm, de modo
que Quirrell estava prorotegido em qualquer lugar.
Harry se sentiu aliviado ao descobrir que no estava muito
atrasado com relao ao resto da turma. Muitos alunos tinham
vindo de famlias de trouxas e, como ele, no faziam idia de que
eram bruxas e bruxos. Havia tanto para aprender que at gente
como Rony no estava to adiantada assim.
Sexta-feira foi um dia importante para Harry e Rony. Eles
finalmente conseguiram encontrar o caminho para o salo principal
e tomar o caf da manh sem se perder nenhutma vez.
- O que temos hoje? - perguntou Harry a Rony enquanto
punha acar no mingau de aveia.
-Poes duplas com o pessoal da Sonserina. Snape  diretor da
Sonserina. Dizem que semprore protege eles. Vamos ver se  verdade.
- Gostaria que Minerva nos protegesse. - A Profa. Minerva
era diretora da Grifinria, mas isso no a impedira de dar aos seus
alunos uma montanha de deveres de casa no dia anterior.
Naquele instante chegou o correio. Harry agora j se acostumara
com isso, mas levara um susto na primeira manh quando
centenas de corujas entraram de repente no salo principal durante
o caf da manh, circulando as mesas at verem seus donos e
deixarem cair as cartas e pacotes no colo deles.
Edwiges no trouxera nada para Harry at ento. s vezes
entrava para beliscar sua orelha e comer um pedacinho de torrada
antes de ir dormir no corujal com as outras corujas da escola. Esta
manh, porm, ela esvoaou entre a gelia e o aucareiro e deixou
cair um bilhete no prato de Harry. Ele o abriu imediatamente.
Prezado Harry, dizia, numa letra muito garranchosa.
Sei que tem as tardes de sexta feira livres, ento ser que no
gostaria dep vir tomar uma xcara de ch comigo jpor volta das trs
horas. Quero saber como foi a suaprimeira semana. Mande-nos
uma respostapela Edwiges.
Hagrid.
Harry pediu emprestada a pena de Rony e escreveu "Sim,
gostaria, vejo voc mais tarde. "no verso do bilhete e despachou Edwiges
outra vez.
Foi uma sorte que Harry tivesse o convite de Hagrid com que
se alegrar, porque a aula de Poes foi a pior coisa que lhe acontecera
at ali.
No incio do banquete de abertura do ano letivo, Harry tivera
a impresso de que o Prof. Snape no gostava dele. No final da
primeira aula de Poes, ele viu que se enganara. No era bem que
Snape no gostava de Harry- ele o odiava.
A aula de Poes foi em uma das masmorras. Era mais frio ali
do que na parte social do castelo e teria dado arrepios mesmo sem
os animais embalsamados flutuando em frascos de vidro nas
paredes  volta.
Snape, como Flitwick, comeou a aula fazendo a chamada e,
como Flitwick, ele parou no nome de Harry
- Ah, sim - disse baixinho. - Harry Potter. A nossa nova
celebridade.
Drago Malfoy e seus amigos Crabbe e Goyle deram
risadinhas escondendo a boca com as mos. Snape terminou a
chamada e encarou a classe. Seus olhos eram negros como os de
Hagrid, mas no tinham o calor dos de Hagrid. Eram frios e vazios
e lembravam tneis escuros.
- Vocs esto aqui para aprender a cincia sutil e a arte exata
do preparo de poes - comeou. Falava pouco acima de um
sussurro, mas eles no perderam nenhuma palavra. Como a
Profa. Minerva, Snape tinha o dom de manter uma classe silenciosa
sem esforo. - Como aqui no fazemos gestos tolos, muitos
de vocs podem pensar que isto no  mgica. No espero que
vocs realmente entendam a beleza de um caldeiro cozinhando
em fogo lento, com a fumaa a tremeluzir, o delicado poder dos
liquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiam a mente,
confundem os sentidos... Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a
cozinhar glria, at a zumbificar, se no forem o bando de cabeas-
ocas que geralmente me mandam ensinar.
Mais silncio seguiu-se a esse pequeno discurso. Harry e
Rony se entreolharam com as sobrancelhas erguidas. Hermione
Granger estava sentada na beiradinha da carteira e parecia desesperada
para comear a provar que no era uma cabea-oca.
- Potter! - disse Snape de repente. - O que eu obteria se
adiconasse raiz de asfdelo em p a uma infuso de losna?
Raiz do qu em p a uma infuso do qu? Harry olhou para Rony,
que parecia to embatucado quanto ele; a mo de Hermione se
ergueu no ar.
-No sei, no senhor- disse Harry.
A boca de Snape se contorceu num riso de desdm.
- Tsk, tsk, a fama pelo visto no  tudo.
E no deu ateno  mo de Hermione.
- Vamos tentar outra vez, Potter. Se eu lhe pedisse, onde voc
iria buscar bezoar?
Hermione esticou a mo no ar o mais alto que pde sem se
levantar da carteira, mas Harry no tinha a menor idia do que
fosse bezoar. Tentou no olhar para Malfoy, Crabbe e Goyle, que
se sacudiam de tanto rir.
- No sei, no senhor.
- Achou que no precisava abrir os livros antes de vir, hein,
Potter?
Harry fez fora para continuar olhando diretamente para
aqueles olhos frios. Folheara os livros na casa dos Dursley mas ser
que Snape esperava que ele se lembrasse de tudo que vira em Mil
ervas e fungos mgicos?
Snape continuava a desprezar a mo trmula de Hermione.
- Qual  a diferena, Potter, entre acnito licoctono e acnito
lapelo?
Ao ouvir isso, Hermione se levantou, a mo esticada em direo
ao teto da masmorra.
- No sei - disse Harry em voz baixa. - Mas acho que
Hermione sabe, por que o senhor no pergunta a ela?
Alguns garotos riram; os olhos de Harry encontraram os de
Simas e este deu uma piscadela. Snape, porm, no gostou.
- Sente-se - disse com rispidez a Hermione. - Para sua informao,
Potter, asfdelo e losna produzem uma poo para
adormecer to forte que  conhecida como a Poo do Morto-Vivo. O
bezoar  uma pedra tirada do estmago da cabra e pode salv-lo
da maioria dos venenos. Quanto aos dois acnitos so plantas do
mesmo gnero botnico. Ento? Por que no esto copiando o
que estou dizendo?
Ouviu-se um rudo repentino de gente apanhando penas e
pergaminhos. E acima desse rudo a voz de Snape:
- E vou descontar um ponto da Grifinria por sua
impertinncia, Potter.
As coisas no melhoraram para os alunos da Grifinria na
continuao da aula de Poes. Snape separou-os aos pares e
mandou-os misturar uma poo simples para curar furnculos.
Caminhava imponente com sua longa capa negra, observando-os
pesar urtigas secas e pilar presas de cobras, criticando quase todos,
exceto Drago, de quem parecia gostar. Tinha acabado de dizer a
todos que olhassem a maneira perfeita com que Drago cozinhara
as lesmas quando um silvo alto e nuvens de fumaa acre e verde
invadiram a masmorra. Neville conseguira derreter o caldeiro de
Simas transformando-o numa bolha retorcida e a poo dos dois
estava vazando pelo cho de pedra, fazendo furos nos sapatos dos
garotos. Em segundos, a classe toda estava trepada nos
banquinhos enquanto Neville, que se encharcara de poo quando o
caldeiro derreteu, tinha os braos e as pernas cobertos de furnculos
vermelhos que o faziam gemer de dor.
- Menino idiota! - vociferou Snape, limpando a poo derramada
com um aceno de sua varinha. - Suponho que tenham adicionado
as cerdas de porco-espinho antes de tirar o caldeiro do fogo?
Neville choramingou quando os funWculos comearam a
pipocar em seu nariz.
- Levem-no para a ala do hospital - Snape ordenou a Simas.
Em seguida voltou-se zangado para Harry e Rony, que estavam
trabalhando ao lado de Neville.
- Voc, Potter, por que no disse a ele para no adicionar as
cerdas? Achou que voc pareceria melhor se ele errasse, no foi?
Mais um ponto que voc perdeu para Grifinria.
A injustia foi to grande que Harry abriu a boca para
argumentar, mas Rony deu-lhe um pontap por trs do caldeiro.
- No force a barra - cochichou. - Ouvi dizer que Snape
pode ser muito indigesto.
Quando subiam as escadas para sair da masmorra uma hora
depois, os pensamentos se sucediam velozes na cabea de Harry,
que se sentia deprimido. Perdera dois pontos para Grifinria na
primeira semana - por que Snape o odiava tanto?
- nimo - disse Rony. - Snape est sempre tirando pontos
de Fred e Jorge. Posso ir com voc  casa de Rbeo?
s cinco para as trs eles saram do castelo e atravessaram a
proproriedade. Hagrid morava numa casinha de madeira na orla da
floresta proibida. Uma besta e um par de galochas estavam  porta
da casa.
Quando Harry bateu  porta eles ouviram uma correria
frentica e latidos ferozes. Depois, a voz de Hagrid dizendo:
- Para trs, Canino. Atrs.
A cara barbuda de Hagrid apareceu na fresta quando a porta
se abriu.
- Espere a. Para trs, Canino.
Ele os fez entrar, lutando para segurar com firmeza a coleira
de um enorme co de caar javalis.
Havia apenas um aposento na casa. Presuntos e faises
pendiam do teto, uma chaleira de cobre fervia ao fogo e a um canto
havia uma cama macia coberta com uma colcha de retalhos.
- Estejam  vontade - falou Hagrid, soltando Canino, que
pulou imediatamente para cima de Rony e comeou a lamber-lhe
as orelhas. Como Hagrid, parecia bvio que Canino no era to
feroz quanto se esperava.
- Este  o Rony - Harry disse a Hagrid, que fora despejar
gua fervendo num grande bule de ch e arrumar biscoitos num
prato.
- Mais um Weasley, hein? - exclamou Hagrid vendo as sardas
de Rony. - Passei metade da vida expulsando seus irmos da
floresta.
Os biscoitos quase quebraram os dentes deles, mas Harry e
Rony fingiram gostar e contaram a Hagrid como haviam sido as
primeiras aulas. Canino descansou a cabea no colo de Harry e
cobriu as vestes dele de baba.
Harry e Rony ficaram contentes de ouvir Hagrid chamar
Filch de "guitarra velha".
- Quanto quela gata, Madame Nora, s vezes eu tenho
vontade de apresentar o Canino a ela. Sabe que todas as vezes que vou
at a escola ela me segue por toda partep? No consigo me livrar da
gata.  Filch que manda ela fazer isso.
Harry contou a Hagrid a aula de Snape. Hagrid, como Rony,
disse a Harry que no se preocupasse, que Snape no gostava
praticamente de nenhum aluno.
- Mas ele parecia que realmente me odiava.
- Bobagem! Por que o odiaria?
Mas Harry no pde deixar de pensar que Hagrid evitou
encar-lo quando disse isso.
- Como vai seu irmo Carlinhos? - perguntou Hagrid a
Rony. - Eu gostava muito dele. Tinha muito jeito com animais.
Harry se perguntou se Hagrid teria mudado de assunto de
propsito. Enquanto Rony contava tudo sobre o trabalho de
Carlinhos com drages, Harry apanhou um pedao de papel que
estava na mesa sob o abafador de ch. Era uma notcia recortada
do Profeta Dirio.
O CASO GRINGOTES
Prosseguem as investigaes sobre o arrombamento de
Gringotes, ocorrido em 31 de julho, que se acredita ter sido trabalho
de bruxos e bruxas das Trevas desconhecidos.
Os duendes de Gringotes insistiam hoje que nada foi roubado.
O cofre aberto na realidade fora esvaziado mais cedo naquele dia.
"Mas no vamos dizer o que havia dentro, para que ningum
se meta, se tiver juzo", disse um porta-voz esta tarde.
Harry lembrou-se que Rony lhe contara no trem que algum
tentara roubar Gringotes, mas no mencionara a data.
- Rbeo! - exclamou Harry. - Aquele arrombamento de
Gringotes aconteceu no dia do meu aniversrio! Talvez estivesse
acontecendo enquanto a gente estava l!
No havia a menor dvida, desta vez Hagrid decididamente
evitara encaxar Harry. Resmungou alguma coisa e lhe ofereceu
mais um biscoito. Harry releu a notcia. O cofre aberto na realidade
fora esvaziado mais cedo naquele dia. Hagrid esvaziara o cofre
setecentos
e treze, se  que se podia chamar esvaziar algum levar aquele
pacotinho encalombado. Seria aquilo que os ladres estavam
procurando?
Quando Harry e Rony voltaram ao castelo para jantar, tinham
os bolsos pesados com os biscoitos que a educao os
impedira de recusar. Harry pensou que nenhuma das aulas a que
assistira at ali tinha-lhe dado tanto o que pensar quanto o ch com
Rbeo Hagrid. Ser que Hagrid tinha apanhado o pacote bem na
hora? Onde estava o pacote agora? Ser que ele sabia alguma coisa
de Snape que no queria contar a Harry?


- CAPTULO NOVE -
O duelo  meia-poite

Harry jamais acreditara que fosse encontrar um garoto que ele
detestasse mais do que Duda, mas isto foi antes de conhecer
Drago. Os alunos do primeiro ano da Grifinria, porm, s
tinham uma aula com os da Sonserina, a de Poes, por isso no
precisavam aturar Drago muito tempo. Ou pelo menos, no
precisavam at verem um aviso pregado no salo comunal de
Grifinria que fez todos gemerem. As aulas de vo comeariam
na quinta-feira-e os alunos das duas casas aprenderiam juntos.
- Tpico - disse Harry desanimado. -  o que eu sempre
quis. Fazer papel de palhao montado numa vassoura na frente
do Drago.
Ele estivera ansioso para aprender a voar, mais do que
qualquer outra coisa.
- Voc no sabe se vai fazer papel de palhao - disse Rony,
sensato. - Em todo o caso, sei que Drago vive falando que  bom
em quadribol, mas aposto que  conversa fiada.
Drago sem dvida falava muito de vos. Queixava-se em voz
alta que os alunos do primeiro ano nunca entravam para o time
de quadribol e se gabava em longas histrias, que sempre pareciam
terminar com ele escapando por um triz dos trouxas de
helicpteros. Mas ele no era o nico: pelo que Simas Finnigan
contava, ele passara a maior parte da infncia voando pelo campo
montado numa vassoura. At Rony contava para quem quisesse
ouvir sobre a vez em que ele quase batera numa asa delta montado
na velha vassoura de Carlinhos. Todos os garotos de famlias
de bruxos falavam o tempo todo de quadribol. Rony j tivera uma
grande discusso sobre futebol com Dino Thomas, que tambm
usava o dormitrio deles. Rony no via nada excitante em um
jogo em que ningum podia voar e s tinha uma bola. Harry
surpreendera Rony cutucando o pster em que Dino aparecia
com o time de futebol de West Ham, tentando fazer os jogadores
se mexerem.
Neville nunca andara de vassoura na vida, porque a av nunca
o deixara chegar perto de uma. No fundo, Harry achava que
ela estava certssima, porque Neville conseguira sofrer um nmero
impressionante de acidentes mesmo com os dois ps no cho.
Hermione Granger estava quase to nervosa quanto Neville
com a idia de voar. Isto no era coisa que se aprendesse de cor
em um livro - no que ela no tivesse tentado. No caf da manh
de quinta-feira, deu um cansao neles falando sobre macetes de
vo que lera em um livro da biblioteca chamado puadribol atravs
dos sculos. Neville praticamente se pendurava em cada palavra que
ela dizia, desesperado para aprender qualquer coisa que o ajudasse
a se segurar na vassoura mais tarde, mas todos os outros ficaram
muito felizes quando a conferncia de Hermione foi interrompida
pela chegada do correio.
Harry no recebera nenhuma carta desde o bilhete de Hagrid,
uma coisa que Drago no demorara nada a notar,  claro. A coruja
de Drago estava sempre lhe trazendo de casa pacotes de doces,
que ele abria fazendo farol na mesa da Sonserina.
Uma coruja de curral trouxe para Neville um pacotinho da
av. Ele o abriu excitado e mostrou a todos uma bolinha de vidro
do tamanho de uma bola de gude grande, que parecia cheia de
fumaa branca.
-  um Lembrol! - explicou ele. - Vov sabe que sou esquecido.
Isto serve para avisar que a gente esqueceu de fazer alguma
coisa. Olhe, aperte assim e ele fica vermelho, ah... - E ficou sem
graa, porque o Lembrol de repente emitiu uma luz escarlate -
voc esqueceu alguma coisa...
Neville estava tentando se lembrar do que esquecera quando
Drago, que ia passando pela mesa da Grifinria, arrancou o
Lembrol de sua mo.
Harry e Rony puseram-se imediatamente de p. Andavam
querendo um motivo para brigar com Drago, mas a Profa.
Minerva, que era capaz de identificar uma confuso mais depressa
do que qualquer outro professor da escola, num segundo estava
l.
- Que  que est acontecendo?
- Drago tirou o meu Lembrol, professora.
MaHhumorado, Drago mais do que depressa largou o
Lembrol na mesa.
- S estava olhando - falou, e saiu de fininho com Crabbe e
Goyle na esteira.
As trs e meia, aquela tarde, Harry, Rony e os outros garotos da
Grifinria desceram correndo as escadas que levavam para fora
do castelo para a primeira aula de vo. Era um dia claro, com uma
brisa fresca e a grama ondeava pelas encostas sob seus ps ao
caminharem em direo a um gramado plano que havia do lado
oposto  floresta proibida, cujas rvores balanavam sinistramente
a distncia.
Os garotos da Sonserina j estavam l, bem como as vinte
vassouras arrumadas em fileiras no cho. Harry ouvira Fred e
Jorge Weasley se queixarem das vassouras da escola, dizendo que
havia umas que comeavam a vibrar quando voavam muito alto,
ou sempre repuxavam ligeiramente para a esquerda.
A professora, Madame Hooch, chegou. Tinha cabelos curtos
e grisalhos e olhos amarelos como os de um falco.
- Vamos, o que  que esto esperando? - perguntou com rispidez.
- Cada um ao lado de uma vassoura. Vamos, andem logo.
Harry olhou para a vassoura. Era velha e tinha algumas
palhas espetadas para fora em ngulos estranhos.
- Estiquem a mo direita sobre a vassoura - mandou
Madame Hooch diante deles - e digam "Em p!"
- EM P! - gritaram todos.
A vassoura de Harry pulou imediatamente para sua mo, mas
foi uma das poucas que fez isso. A de Hermione Granger
simplesmente se virou no cho e a de Neville nem se mexeu. Talvez
as vassouras, como os cavalos, percebessem quando a pessoa
estava com medo, pensou Harry; havia um tremor na voz de
Neville, que dizia com demasiada clareza que ele queria manter
os ps no cho.
Madame Hooch, em seguida, mostrou-lhes como montar as
vassouras sem escorregar pela outra extremidade, e passou pelas
fileiras de alunos corrigindo a maneira de segur-las. Harry e Rony
ficaram contentes quando ela disse a Drago que ele segurava a
vassoura errado havia anos.
- Agora, quando eu apitar, dem um impulso forte com os
ps - disse a professora. - Mantenham as vassouras firmes,
saiam alguns centmetros do cho e voltem a descer curvando o
corpo um pouco para a frente. Quando eu apitar... trs... dois...
Mas Neville, nervoso, assustado, e com medo que a vassoura
o largasse no cho, deu um impulso forte antes mesmo de o apito
tocar os lbios de Madame Hooch.
- Volte, menino! - gritou ela, mas Neville subiu como uma
rolha que sai sob presso da garrafa, quatro metros, seis metros.
Harry viu a cara de Neville branca de medo espiando para o cho
enquanto ganhava altura, viu-o exclamar, escorregar de lado para
fora da vassoura e...
Bumba! - um baque surdo, um rudo de fratura e Neville cado
de borco na grama, estatelado. Sua vassoura continuou a subir
cada vez mais alto e comeou a flutuar sem pressa em direo 
floresta proibida e desapareceu de vista.
Madame Hooch se debruou sobre Neville, o rosto to branco
quanto o dele.
- Pulso quebrado - Harry ouviu-a murmurar. - Vamos,
Menino, levante-se.
Virou-se para o restante da classe.
- Nenhum de vocs vai se mexer enquanto levo este menino
ao hospital! Deixem as vassouras onde esto ou vo ser expulsos
de Hogwarts antes de poderem dizer "quadribol". Vamos
querido.
Neville, o rosto manchado de lgrimas, segurando o pulso,
saiu mancando em companhia de Madame Hooch, que o abraava
pelos ombros.
Assim que se distanciaram e ficaram fora do campo de audio
da classe, Drago caiu na gargalhada.
- Vocs viram a cara dele, o panaca?
Os outros alunos da Sonserina fizeram coro.
- Cala a boca, Drago - retrucou Parvati Patil.
- Uuuu, defendendo o Neville? - disse Pansy Parkinson, uma
aluna da Sonserina de feies duras. - Nunca pensei que voc
gostasse de manteiguinhas derretidas, Parvati.
- Olhe! - disse Drago, atirando-se para a frente e recolhendo
alguma coisa na grama. -  aquela porcaria que a av do Neville
mandou.
O Lembrol cintilou ao sol quando o garoto o ergueu.
- Me d isso aqui, Drago - falou Harry em voz baixa. Todos
pararam de conversar para espiar.
Drago soltou uma risadinha malvada.
- Acho que vou deix-la em algum lugar para Neville
apanhar, que tal em cima de uma rvore?
- Me d isso aqui - berrou Harry, mas Drago montara na
vassoura e sara voando. Ele no mentira, sabia voar bem, e
planando ao nvel dos ramos mais altos de um carvalho desafiou:
- Venha buscar, Potter!
Harry agarrou a vassoura.
- No! - gritou Hermione Granger. - Madame Hooch disse
para a gente no se mexer. Vocs vo nos meter numa enrascada.
Harry no lhe deu ateno. O sangue palpitava em suas
orelhas. Ele montou a vassoura, deu um impulso com fora e subiu,
subiu alto, o ar passou veloz pelo seu cabelo e suas vestes se agitaram
com fora para trs - e numa onda de feroz alegria ele percebeu
que encontrara alguma coisa que era capaz de fazer sem
ningum lhe ensinar - isto era fcil, era maravilhoso. Puxou a vassoura
para o alto para subir ainda mais e ouviu gritos e exclamaes das
garotas l no cho e um viva de admirao do Rony.
Virou a vassoura com um gesto brusco ficando de frente para
Drago, que planava no ar. O garoto estava abobalhado.
- Me d isso aqui - mandou Harry - ou vou derrubar voc
dessa vassoura!
- Ah, ? - retrucou Drago, tentando caoar, mas parecendo
preocupado.
Harry de alguma maneira sabia o que fazer. Curvou-se para a
frente, segurou a vassoura com firmeza com as duas mos e ela
disparou na direo de Drago como uma lana. Drago s conseguiu
escapar por um triz; Harry fz uma curva fechada e manteve
a vassoura firme. Algumas pessoas no cho aplaudiram.
- Aqui no tem Crabbe nem Goyle para salvarem sua pele,
Drago - berrou Harry.
O mesmo pensamento parecia ter ocorrido a Drago.
- Apanhe se puder, ento! - gritou, atirou a bolinha de cristal
no ar e voltou para o cho.
Harry viu, como se fosse em cmara lenta, a bolinha subir no
ar e comear a cair. Ele se curvou para a frente e apontou o cabo
da vassoura para baixo - no instante seguinte estava ganhando
velocidade num mergulho quase vertical, apostando corrida com
a bolinha - o vento assobiava em suas orelhas, misturado aos
gritos das pessoas que olhavam - ele esticou a mo - a uns trinta
centmetros do solo agarrou-a, bem em tempo de levar a vassoura
 posio vertical, e caiu suavemente na grama com o Lembrol
salvo e seguro na mo.
- HARRY POTTER!
Ele perdeu a animao mais depressa do que quando
mergulhara. A Profa. Minerva vinha correndo em direo  turma. Ele
se levantou tremendo.
- Nunca... em todo o tempo que estou em Hogwarts...
A Profa. Minerva quase perdeu a fala de espanto e seus culos
cintilavam sem parar, "... como  que voc se atreve... podia ter
partido o pescoo..."
- No foi culpa dele, professora...
- Calada, Senhorita Patil...
- Mas Drago...
- Chega, Sr. Weasley Potter, me acompanhe, agora.
Harry viu as caras vitoriosas de Drago, Crabbe e Goyle ao
sair acompanhando, espantado, a Profa. Minerva, que seguiu para
o castelo. Ia ser expulso, sabia. Queria dizer alguma coisa para se
defender, mas parecia ter acontecido alguma coisa com a sua voz. 
A Profa. Minerva caminhava decidida, sem nem olhar para trs;
ele tinha que correr para acompanhar seu passo. Agora se
enrascara. No tinha durado nem duas semanas. Estaria fazendo
as malas dali a dez minutos. Que iriam dizer os Dursley quando
ele aparecesse  porta da casa?
Subiram os degraus da entrada, subiram a escadaria de
mrmore, e a Profa. Minerva continuava a no dizer nada.
EScancarava portas e marchava pelos corredores com Harry trotando
infeliz atrs dela. Talvez ela o levasse a Dumbledore. Pensou
em Hagrid, aluno expulso a quem tinham permitido continuar
na escola como guarda-caa. Talvez virasse assistente de Hagrid.
Seu estmago revirava s de pensar, observando Rony e os
outros se tornarem bruxos enquanto ele andava pela propriedade
carregando a bolsa de Hagrid.
A Profa. Minerva parou  porta de uma sala de aula. Abriu a
porta e meteu a cabea para dentro.
- Com licena, Prof. Flitwick, posso pedir o Wood emprestado
por um instante?
Wood? pensou Harry, intrigado; Wood seria alguma coisa que
ela ia usar para castig-lo?
Mas Wood afinal era uma pessoa, um menino forte do quinto
ano, que saiu da sala de Flitwick parecendo confuso.
- Vocs dois me sigam - disse a Profa. Minerva, e continuaram
todos pelo corredor, Wood examinando Harry com curiosidade.
- Entrem.
A Profa. Minerva indicou uma sala de aula que estava vazia
exceto por Pirraa, que se ocupava em escrever palavres no qua-
dro-negro.
- Fora, Pirraa! - ordenou ela. Pirraa atirou o giz em uma
cesta, produzindo um eco metlico e alto e saiu xingando. A
Profa. Minerva bateu a porta atrs dele e virou-se para encarar os
dois garotos.
- Harry Potter, este  Olvio Wood. Olivio... encontrei um
apanhador para voc.
A expresso de Olivio mudou de confuso para prazer.
- Est falando srio, professora?
- Serssimo - resumiu a Profa. Minerva. - O menino tem
um talento natural. Nunca vi nada parecido. Foi a primeira vez
que montou numa vassoura, Harry?
Harry confirmou com a cabea. No tinha a menor idia do
que estava acontecendo mas parecia que no estava sendo
expulso, e comeou a recuperar um pouco da sensibilidade nas
pernas.
- Ele apanhou aquela coisa com a mo depois de um mergulho
de mais de 15 metros - a Profa. Minerva contou a Wood. -
No sofreu um nico arranho. Nem Carlinhos Weasley seria
capaz de fazer igual.
Olivio parecia agora algum cujos sonhos tinham virado
realidade, todos ao mesmo tempo.
- Voc j assistiu a um jogo de quadribol, Potter? - perguntou
excitado.
- Wood  o capito do time da Grifinria - explicou a Profa.
Minerva.
- E tem o fsico perfeito para um apanhador - acrescentou
Olvio, agora andando  volta de Harry, examinando-o. - Leve,
veloz, vamos ter de arranjar uma vassoura decente para ele,
professora, uma Nimbus 2000 ou uma Cleansweep-7, na minha
opinio.
- Vou conversar com o professor Dumbledore e ver se podemos
contornar o regulamento para o primeiro ano. Deus sabe
que precisamos de um time melhor do que o do ano passado.
Esmagado naquele ltimo jogo contra os sonserinos. Mal consegui
encarar Severo Snape no rosto durante semanas...
A Profa. Minerva espiou Harry com severidade por cima dos
culos.
- Quero ouvir falar que voc est treinando com vontade,
Potter, ou posso mudar de idia quanto ao castigo que merece.
Ento, inesperadamente, ela sorriu.
- Seu pai teria ficado orgulhoso. Era um excelente jogador de
quadribol.
- Voc est brincando.
Era hora do jantar. Harry acabara de contar a Rony o que
acontecera quando deixara os jardins da propriedade com a Profa.
Minerva. Rony tinha um pedao de bife e pastelo de rins a meio
caminho da boca, mas esqueceu o que estava fazendo.
- Apanhador? - exclamou. - Mas os alunos do primeiro ano
nunca... voc vai ser o jogador da casa mais novo do ltimo...
- Sculo - completou Harry, enfiando o pastelo na boca.
Sentia-se particularmente faminto depois da agitao da tarde. -
Olivio me disse.
Rony estava to admirado, to impressionado, que ficou ali
sentado de boca aberta para Harry.
- Vou comear a treinar na prxima semana - anunciou
Harry. - S no conte a ningum, Olivio quer fazer segredo.
Fred e Jorge Weasley entraram nesse momento no salo,
viram Harry e foram depressa falar com ele.
- Grande lance - falou Jorge em voz baixa. - Olivio nos
contou. Estamos no time tambm... batedores.
- Sabe de uma coisa, tenho certeza de que vamos ganhar a
taa de quadribol deste ano - disse Fred. - No ganhamos desde
que Carlinhos terminou a escola, mas o time deste ano vai ser
brilhante. Voc deve ser bom, Harry, Olivio estava quase dando
pulinhos quando nos contou.
- Em todo o caso, temos de ir, Lino Jordan acha que
 encontrou uma nova passagem secreta para sair da escola.
Fred e Jorge mal tinham desaparecido quando algum menos
bem-vindo apareceu: Drago, ladeado por Crabbe e Goyle.
- Comendo a ltima refeio, Harry? Quando vai pegar o
trem de volta para a terra dos trouxas?
- Voc est bem mais corajoso agora que voltou ao cho e
est acompanhado por seus amiguinhos - disse Harry tranqilo.
No havia nada "inho" em Crabbe nem em Goyle, mas como a
mesa principal estava repleta de professores, os garotos s
podiam estalar as juntas e fazer cara feia.
- Enfrento voc a qualquer hora sozinho - disse Drago. - Hoje
 noite, se voc quiser. Duelo de bruxos. S varinhas, sem contato.
Que foi? Nunca ouviu falar de duelo de bruxos, suponho?
- Claro que j - respondeu Rony virando-se. - Vou ser o
padrinho dele, quem vai ser o seu?
Drago mirou Crabbe e Goyle, medindo-os.
- Crabbe, meia-noite est bem? Nos encontramos na sala de
trofus, est sempre destrancada.
Quando Drago foi embora, Rony e Harry se entreolharam.
- O que  um duelo de bruxos? - perguntou Harry. - E o que
voc quis dizer quando se ofereceu para ser meu padrinho?
- Bom, o padrinho fica l para tomar o seu lugar se voc
morrer - disse Rony com displicncia, comeando finalmente a
comer o pastelo frio. Surpreendendo a exproresso no rosto de
Harry, acrescentou bem deproressa: - Mas as pessoas s morrem
em duelos de verdade, sabe, com bruxos de verdade. O mximo
que voc e Drago conseguiro fazer ser atirar fagulhas um no
outro. Nenhutn dos dois conhece magia suficiente para fazer
estragos. Mas aposto que ele esperava que voc recusasse.
- E se eu agitar minha varinha e nada acontecer?
- Jogue a varinha fora e meta-lhe um soco na cara - sugeriu
Rony.
- Com licena.
Os dois ergueram os olhos. Era Hermione Granger.
- Ser que a pessoa no pode comer sossegada neste lugar? -
exclamou Rony.
Hermione no ligou para ele e se dirigiu a Harry.
- No pude deixar de ouvir o que voc e Drago estavam
dizendo...
- Aposto que podia - resmungou Rony
- ... e voc no deve andar pela escola  noite, pense nos
pontos que vai perder para a Grifinria se for pego, e voc vai ser.
 muito egosmo da sua parte.
- E, para falar a verdade, no  da sua conta - respondeu
Harry.
-Tchau- disse Rony
Em todo o caso, no era o que se poderia chamar de um final
perfeito para o dia, pensou Harry, muito mais tarde, deitado na 
cama sem dormir, percebendo Dino e Simas adormecerem
(Neville no voltara do hospital). Rony passou a noite toda lhe
dando conselhos do tipo "Se ele tentar lanar um feitio, 
melhor voc tirar o corpo fora, porque no consigo me lembrar
como se fecha o corpo". Havia uma boa chance de serem pegos
por Filch ou por Madame Nor-r-ra, e Harry sentiu que estava
abusando da sorte, desrespeitando mais um regulamento da
escola no mesmo dia. Por outro lado, a cara de deboche de Drago
no parava de lhe aparecer no escuro - essa era sua grande
oportunidade de vencer Drago cara a cara. No podia perd-la.
- Onze e trinta - Rony cochichou finalmente,  melhor
irmos.
Eles vestiram os robes, apanharam as varinhas e atravessaram
sorrateiros o quarto da torre, desceram a escada em espiral e
entraram na sala comunal da Grifinria. Algumas brasas ainda
rutilavam na lareira, transformando todas as poltronas em sombras
corcundas. Tinham quase chegado  abertura no retrato quando
uma voz falou da poltrona mais prxima.
- No posso acreditar que voc vai fazer isso, Harry.
Uma lmpada se acendeu. Era Hermione Granger, de robe
cor-de-rosa e cara fechada.
- TVoc!- exclamou Rony furioso. - Volte para a cama!
- Quase contei ao seu irmo - retorquiu Hermione. - Percy,
ele  monitor, ia acabar com essa histria.
Harry no conseguiu acreditar que algum pudesse ser to
metido.
- Vamos - chamou Rony. Afastou o retrato da Mulher Gorda
com um empurro e passou pela abertura.
Hermione no ia desistir com tanta facilidade. Seguiu Rony
pela abertura do retrato, sibilando para os dois como um ganso
raiVOSO.
- Vocs no se importam com a Grifinria, vocs s se
importam com vocs mesmos, eu no quero que a Sonserina ganhe
a taa de casa e vocs vo perder todos os pontos que ganhei com
a Profa. Minerva por saber a Troca de Feitios.
- Vai embora.
- Tudo bem, mas eu preveni vocs, lembrem-se do que eu
disse quando estiverem amanh no trem voltando para casa,
vocs so to...
Mas o que eram, eles no chegaram a saber. Hermione se
virara para o retrato da Mulher Gorda para tornar a entrar e se viu
diante de um quadro vazio. A Mulher Gorda tinha sado para
fazer uma visita noturna e Hermione ficou trancada do lado de
fora da torre da Grifinria.
- Agora o que  que eu vou fazer? - perguntou com a voz
esganiada.
- O problema  seu - disse Rony - Ns temos de ir, se no
vamos nos atrasar.
Nem tinham chegado ao fun do corredor quando Hermione
os alcanou.
- Vou com vocs.
- No vai, no.
- Vocs acham que vou ficar parada aqui, esperando o Filch
me pegar? Se ele encontrar os trs, conto a verdade, que eu estava
tentando impedir vocs de sarem e vocs podem confirmar.
- Mas que cara-de-pau - disse Rony bem alto.
- Calem a boca, vocs dois - disse Harry bruscamente. -
Ouvi uma coisa.
Era como se algum estivesse farejando.
- Madame Nor-r-ra? - murmurou Rony, apertando os olhos
para enxergar no escuro.
No era Madame Nor-r-ra. Era Neville. Estava enroscado no
cho, dormindo a sono solto, mas acordou repentinamente
assustado quando eles se aproximaram.
- Graas a Deus que vocs me encontraram! Estou aqui h
horas, no consegui me lembrar da nova senha para entrar no
quarto.
- Fale baixo, Neville. A senha  "focinho de porco", mas no
vai Lhe adiantar nada agora, a Mulher Gorda saiu.
- Como est o braop - perguntou Harry.
- Otimo - disse Neville mostrando-o. - Madame Pomfre
consertou-o na hora.
- Que bom, olhe, Neville, temos de ir a um lugar, vemos voc
depois.
- No me deixem aqui! - pediu Neville pondo-se de p. -
No quero ficar sozinho, o baro Sangrento j passou por aqui
duas vezes.
Rony consultou o relgio e em seguida fez uma cara furiosa
para Hexmione e Neville.
- Se formos pegos por causa de vocs, no vou sossegar at
aprender aquela Poo do Morto-Vivo que Quirrell falou e vou
us-la contra vocs.
Hermione abriu a boca, talvez para dizer a Rony exatamente
como usar o Feitio do Morto-Vivo, mas Harry mandou-a ficar
quieta e fez sinal para prorosseguirem.
Passaram quase voando pelos corredores listrados pelo
luar que entrava pelas grades das janelas altas. A cada curva
Harry esperava topar com Filch ou com Madame Nor-r-ra,
mas tiveram sorte.
Subiram correndo uma escada at o terceiro andar e, nas pontas
dos ps, dirigiram-se  sala dos trofus.
Drago e Crabbe ainda no tinham chegado. As vitrines de
cristal onde estavam guardados os trofus refulgiam quando
tocadas pelo luar. Taas, escudos, pratos e esttuas piscaVam no
escuro com lampejos prateados e dourados. Eles caminharam
rente s paredes, mantendo os olhos nas portas de cada lado da
sala. Harry tirou a varinha da caixa para o caso de Drago aparecer
de repente e comear a duelar. Os minutos passaramvagarosos.
- Ele est atrasado, quem sabe se acovardou- Rony sussurrou.
Ento um rudo na sala ao lado os sobressaltou. Harry acabara
de erguer a varinha quando ouviram algum falar e no era Drago.
- V farejando, minha querida, eles podem estar escondidos
em algum canto.
Era Filch falando com Madame Nor-r-ra. Horrorizado, Harry
fez sinais frenticos para os outros trs o seguirem o mais depressa
possvel; e fugiram silenciosos em direo  porta mais distante
da voz de Filch. As vestes de Neville mal tinham acabado de passar
 a curva quando ouviram Filch entrar na sala dos trofus.
- Eles esto por aqui - ouviram-no resmungar -, provavelmente
escondidos.
- Por aqui! - disse Harry, apenas mexendo a boca, para os
outros e, petrificados, eles comearam a descer uma longa galeria
cheia de armaduras. Podiam ouvir Filch se aproximando. Neville,
de repente, soltou um guincho assustado e saiu correndo. Tropeou,
agarrou Rony pela cintura e os dois desabaram em cima de
uma armadura.
A queda e o estrpito foram suficientes para acordar o castelo
inteiro.
- CORRAM! - gritou Harry e os quatro desembestaram pela
galeria, sem virar a cabea para ver se Filch os seguia. Fizeram a
curva firmando-se no alisar da porta e saram galopando por um
corredor atrs do outro, Harry na liderana, sem a menor idia de
onde estavam nem que direo tomavam. Atravessaram uma
tapearia, rasgando-a, e encontraram uma passagem secreta, precipitaram-se
por ela e foram sair perto da sala de aula de Feitios,
que sabiam estar a quilmetros da sala dos trofus.
- Acho que o despistamos - ofegou Harry, apoiando-se na
parede fria e enxugando a testa. Neville estava dobrado em dois,
chrava e falava desconexamente.
- Eu... disse... a vocs - Hermione falou sem flego, agarrando
o bordado no peito. - Eu... disse... a vocs.
- Temos de voltar  torre de Grifinria - lembrou Rony -, o
mais rpido possvel.
- Drago enganou voc - disse Hermione a Harry. - J percebeu
isso, no? No ia enfrentar voc. Filch sabia que algum ia
estar na sala dos trofus. Drago deve ter contado a ele.
 Harry achou que ela provavelmente tinha razo, mas no ia
dar o brao a torcer.
- Vamos.
No ia ser to simples. No tinham caminhado nem dez passos
quando ouviram o barulho de uma maaneta e alguma coisa
disparou da sala de aula  frente deles.
Era Pirraa. Avistou os garotos e soltou um guincho de prazer.
- Cale a boca, Pirraa, por favor, voc vai fazer a gente ser
expulso. 
Pirraa soltou uma gargalhada.
- Passeando por a  meia-noite, aluninhos? Tsk, tsk. Que
feinhos, vo ser apanhadinhos.
- No, se voc no nos denunciar, Pirraa, por favor.
- Devia contar ao Filch, devia - disse Pirraa bem comportado,
mas seus olhos cintilaram de maldade. -  para o seu prprio
bem, sabem?
- Saia da frente - disse Rony com rispidez, baixando o brao
em Pirraa. Foi um grande erro.
- ALUNOS FORA DA CAMA! - berrou Pirraa. - ALUNOS FORA DA
CAMA NO CORREDOR DO FEITIO!
Passando por baixo de Pirraa eles saram desembalados at
o final do corredor onde depararam com uma porta... fechada.
- Acabou-se! - gemeu Rony, empurrando inutilmente a porta.
- Estamos ferrados!  o fim!
Ouviram passos, Filch correndo a toda em direo aos gritos
de Pirraa.
- Ah, sai da frente - Hermione resmungou aborrecida.
Agarrando a varinha de Harry, bateu na fechadura e murmurou:
- Alorromora!
A fechadura deu um estalo e a porta se abriu - eles se atropelaram
por ela, fecharam-na e apuraram os ouvidos,  escuta.
- Para que lado eles foram, Pirraa? - era Filch perguntando.
- Deproressa, me diga.
- Pea "por favor".
- No me enrole, Pirraa, vamos, para que lado eles foram?
- No digo nada se voc no pedir "por favor" - disse Pirraa
na cantilena irritante com que falava.
- Est bem, porfavor.
- NADA! Ha haaa! Eu disse a voc que no dizia nada se voc
no pedisse por favor! Ha ha! Haaaaaa! - E ouviram Pirraa voar
rpido para longe e Filch xingar com raiva.
- Ele acha que a porta est trancada! - Harry falou. - Acho
que escapamos. Sai para l, Neville! - Neville puxava a manga do
robe de Harry fazia um minuto. - Que foi?
Harry se virou - e viu, muito claramente, o que foi. Por um
instante teve a certeza de que entrara num pesadelo - era demais
depois de tudo o que j acontecera.
No estavam muma sala, conforme ele supusera. Achavam-se
num corredor. O corredor proibido do terceiro andar.
E agora sabiam por que era proibido.
Estavam encarando os olhos de um cachorro monstruoso,
um cachorro que ocupava todo o espao entre o teto e o piso.
Tinha trs cabeas, trs pares de olhos que giravam enlouquecidos;
ttrs narizes, que franziam e estremeciam farejando-os; trs
bocas babosas, a saliva escorrendo em cordes viscosos das
presas amarelas.
Estava muito firme, os olhos a observ-los, e Harri sabia que
a nica razo por que ainda estavam vivos era que o seu repentino
aparecimento apanhara o cachorro de surpresa, mas ele j estava
se recuperando e depressa, no havia dvida quanto ao significado
daqueles rosnados de ensurdecer.
Harry tateou  procura da maaneta - etre Filch e a morte,
ficava com o Filch.
Retrocederam. Harry bateu a porta e eles correram, quase
voaram pelo corredor. Filch devia ter tido pressa para procur-los
em outro lugar porque no o viram em parte alguma, mas nem se
importaram - a nica coisa que queriam era abrir a maior distncia
possvel entre eles e o monstro. No pararam de correr at
chegarem ao retrato da Mulher Gorda no stimo andar.
- Onde foi que vocs andaram? - perguntou ela, olhando
para os cabelos que caam soltos dos ombros e os rostos vermelhos
e suados.
- No interessa. focinho de porco, focinho de porco - ofegou
Harry e o quadro girou para a frente. Eles entraram de qualquer
jeito na sala cotnunal e desmontaram, trmulos, nas poltronas.
Levou algum tempo at um ddeless falar alguma coisa. Neville,
ento, parecia  que nunca mais voltaria a falar.
- Que  que vocs acham que eles esto querendo, com
uma coisa daquelas trancada numa escolap - perguntou Rony
finalmente... - Se existe um cachorro quem precisa de exerccios 
aquele.
Hermione tinha recuperado tanto o flego quanto o mau humor.
- Vocs no usam os olhos, vocs todos, usam? - perguntou
com rispidez. - Vocs no viram em cima do que ele estava?
- No cho? - arriscou Harry - Eu no fiquei olhando para as
patas, estava ocupado demais com as cabeas.
- No, no estou falando do cho. Ele estava em cima de um
alapo.  claro que est guardando alguma coisa.
Ela se levantou olhando feio para eles.
- Espero que estejam satisfeitos com o que fizeram. Podamos
ter sido mortos, ou pior, expulsos. Agora, se vocs no se
importam, eu vou me deitar.
Rony ficou olhando para ela, de boca aberta.
-No, no nos importamos. Qualquer um pensaria que ns a
arrastamos conosco, no  mesmo?
Mas Hermione tinha dado a Harry algo em que pensar quando
voltou para a cama. O cachorro estava guardando alguma coisa.
Que era que Hagrid tinha dito? Gringotes era o lugar mais
seguro do mundo quando se queria esconder alguma coisa - com
exceo talvez de Hogwarts.
Parecia que Harry descobrira onde o pacotinho encalombado
do cofre setecentos e treze tinha ido parar.


CAPTULO DEZ -
O Dia das Bruxas

Drago no conseguiu acreditar em seus olhos quando viu que
Harry e Rony continuavam em Hogwarts no dia seguinte, parecendo
cansados mas absolutamente felizes. De fato, na manh seguinte
Harry e Rony comearam a achar que o encontro com o
cachorro de trs cabeas fora uma excelente aventura e estavam
prontos para outra. Entrementes Harry contou a Rony sobre o
pacotinho que parecia ter sido levado de Gringotes para Hogwarts,
e passaram muito tempo pensando no que poderia precisar de
tanta proroteo.
- Ou  uma coisa realmente valiosa ou realmente perigosa -
falou Rony.
- Ou as duas - acrescentou Harry.
Mas como s o que sabiam com certeza sobre o misterioso
objeto era que media uns cinco centmetros de comprimento, no
tinham muita possibilidade de adivinhar o seu contedo sem outras
pistas.
Nem Neville nem Hermione mostraram o menor interesse
pelo que estava sob os ps do cachorro e do alapo. Neville s
estava interessado em quando iria chegar perto do cachorro
outra vez.
Hermione agora se recusava a falar com Harry e Rony, mas
era uma menina to mandona e metida a saber de tudo que eles
encararam sua atitude como um prmio. Agora s o que realmente
queriam era descobrir um jeito de se vingar do Drago, e para
sua grande satisfao, a oportunidade chegou pelo correio mais
ou menos uma semana depois.
Quando as corujas invadiram o salo como de costume, a
ateno de todos foi atrada por um longo pacote carregado por
seis corujonas. Harry sentiu tanta curiosidade quanto os outros
para ver o que havia no pacote e se surpreendeu quando as corujas
desceram planando e o largaram bem diante dele, derrubando
o seu bacon no cho. Mal tinham se afastado quando outra coruja
deixou cair uma carta em cima do pacote.
Harry abriu a carta primeiro, o que foi uma sorte, porque ela
dizia:

NO ABRA O PACOTE  MESA.
Ele contm a sua nova Nimbus 2000,
mas no quero que todo o mundo saiba que voc
ganhou uma vassoura ou todos vo querer uma.
Olvio Wood vai esper-lo hoje  noite,
s sete horas, no campo de quadribol, para
a sua primeira sesso de treinamento.
Profa. Minerva McGonagall

Harry teve dificuldade em esconder a alegria quando passou o
bilhete para Rony ler.
- Uma Nimbus 2000! - Rony gemeu de inveja. - Eu nunca
nem pus a mo em uma.
Os dois saram depressa do salo, querendo desembrulhar a
vassoura sozinhos antes da primeira aula, mas no meio do saguo
de entrada encontraram o caminho barrado por Crabbe e Goyle.
Drago tirou o pacote de Harry e apalpou-o.
-  uma vassoura - falou, atirando-o de volta a Harry com
uma expresso de inveja e despeito no rosto. - Voc vai se ferrar
desta vez, Potter, alunos do primeiro ano no podem ter
vassouras.
Rony no conseguiu resistir.
- No  uma vassoura velha qualquer,  uma Nimbus 2000.
Que foi que voc disse que tem em casa, Drago, uma Comet 260?
- Rony riu para Harry -A Comet enche os olhos, mas no tem a
mesma classe da Nimbus.
- Que  que voc entende disso, Weasley, voc no poderia
comprar nem a metade do cabo. Vai ver voc e seus irmos tm
que economizar para comprar palha por palha.
Antes que Rony pudesse responder, o professor Flitwick
apareceu ao lado de Drago.
- No esto brigando, meninos, espero - falou com voz
esganiada.
- Potter recebeu uma vassoura, professor- disse Drago
depressa.
- Eu sei - respondeu o professor Flitwick, abrindo um grande
sorriso para Harry. - A Profa. Minerva me falou das circunstncias
especiais, Potter. E qual  o modelo?
- Uma Nimbus 2000, professor - informou Harry, lutando
para no rir da expresso horrorizada no rosto de Drago. - E,
para falar a verdade, foi graas ao Drago aqui que ganhei a vassoura
- acrescentou.
Harry e Rony subiram as escadas sufocando o riso diante da
raiva e confuso visveis de Drago.
-  verdade - disse Harry, caindo na gargalhada, quando
chegaram ao alto da escadaria de mrmore. - Se ele no tivesse
roubado o Lembrol do Neville eu no estaria no time.
- Ento suponho que voc ache que ganhou um prmio por
desobedecer ao regulamento? - Ouviu-se uma voz zangada logo
atrs deles. Hermione subia com passos decididos a escadaria,
olhando com desaprovao para o pacote nas mos de Harry
- Pensei que voc no estava falando com a gente - comentou
Harry.
- , continue a no falar - falou Rony -, est fazendo tanto
bem  gente.
Hermione se afastou com o nariz empinado.
Harry teve muita dificuldade em se concentrar nas aulas
daquele dia. Seus pensamentos no paravam de vagar at o dormitrio
onde guardara a vassoura debaixo da cama, ou de se desviarem
para o campo de quadribol onde iria aprorender a jogar. Jantou
depressa  noite, sem ao menos reparar no que estava comendo e,
em seguida, correu at o quarto com Rony para finalmente
desembrulhar a Nimbus 2000.
 - Uau - suspirou Rony, quando a vassoura apareceu na cama p
de Harry.
At Harry, que no entendia nada de vassouras e suas diferenas,
 achou que a Nimbus tinha uma aparncia fantstica.
 Aerodinmica e reluzente com um cabo de mogno, a vassoura tinha uma
longa cauda de palhas limpas e retas e a marca Nimbus 2000 escrita
a ouro prorximo ao punho.
Quando eram quase sete horas, Harry saiu do castelo e se
dirigiu ao campo de quadribol no lusco-fusco. Nunca estivera no
estdio antes. Havia centenas de lugares em uma arquibancada em
volta do campo de modo que os espectadores viam o que acontecia
do alto. Em cada ponta do campo havia trs balizas douradas
com aros no topo. Lembraram a Harry os canudinhos de plstico
que as crianas trouxas usavam para soprar bolinhas de sabo, s
que tinham mais de 15 metros de altura.
Ansioso demais para esperar Olivio sem voar, Harry montou
a vassoura e deu um impulso. Que sensao - ele mergulhou
pelas balizas, subiu e desceu pelo campo. A Nimbus 2000 ia aonde
ele queria ao menor toque.
- Ei, Potter, desa!
Olivio Wood chegara. Carregava uma grande caixa de madeira
debaixo do brao. Harry pousou ao lado dele.
- Muito bom - comentou Olivio, os olhos brilhando. -
Estou vendo o que foi que Minerva quis dizer... voc realmente tem
um talento natural. Hoje  noite s vou lhe ensinar as regras do
jogo, depois voc vem aos treinos do time trs vezes por semana.
Ele abriu a caixa. Dentro havia quatro bolas de tamanhos
diferentes.
- Certo - disse Olivio. - O quadribol  muito fcil de entender,
mesmo que no seja fcil de jogar. Tem sete jogadores de
cada lado. Trs deles so artilheiros.
- Trs artilheiros - Harry repetiu, enquanto Olivio apanhava
uma bola muito vermelha do tamanho aproximado de uma bola
de futebol.
- Esta bola se chama goles - explicou Olivio. - Os artilheiros
atiram a goles um para o outro e tentam met-la em um dos aros
para marcar um gol. Dez pontos todas as vezes que a goles passa
por um dos arcos. Est me acompanhando?
- Os artilheiros atiram a goles pelos aros para marcar pontos.
- repetiu Harry. - Ento  como um basquete com seis cestas e
vassouras, no ?
- O que  basquete? - perguntou Olivio curioso.
- Deixa pra l - disse Harry na mesma hora.
-Agora, tem outro jogador, um para cada lado, que  chamado
goleiro. Eu sou o goleiro de Grifinria. Tenho que voar em
volta dos aros para impedir que o outro time marque pontos.
- Trs artilheiros, um goleiro - disse Harry, que estava decidido
a decorar tudo. - E jogam uma goles. OK, entendi. E essas
para que servem? -Apontou para as trs bolas restantes na caixa.
- Vou lhe mostrar agora. Segure aqui.
Ele entregou um pequeno basto a Harry, meio parecido com
um basto de beisebol.
- Vou lhe mostrar o que os balaos fazem. Essas duas aqui
so os balaos..
E mostrou a Harry duas bolas iguais, pretas e ligeiramente
menores do que a goles vermelha. Harry reparou que elas pareciam
estar fazendo fora para se livrar das correias que as prendiam
na caixa.
- Fique longe - Olivio preveniu Harry. Ele se curvou e soltou
um dos balaos.
Na mesma hora, a bola preta saiu voando e em seguida desceu
direto contra o rosto de Harry. Harry golpeou-a com o basto
para impedi-la de quebrar o seu nariz e mandou-a ziguezagueando
para longe - ela passou veloz pelas cabeas deles e, em seguida,
atirou-se contra Olivio, que mergulhou sobre ela e conseguiu
imobiliz-la no cho.
- Est vendo? - Olivio ofegou, forando o balao indcil de
voltar  caixa e passando a correia para prend-lo. - Os balaos
voam pelo ar tentando derrubar os jogadores das vassouras.  por
isso que tem dois batedores em cada time. Os gmeos Weasley so
os nossos. A funo deles  proteger o time dos balaos e tentar
rebat-los para o outro time. Ento: acha que guardou tudo?
- Trs artilheiros tentam marcar pontos com a goles; o goleiro
guarda as balizas; os batedores afastam os balaos do seu time
- Harry repetiu como um gravador.
- Muito bem.
- Hum... os balaos j mataram algum? - perguntou Harry,
esperando parecer displicente.
- Nunca em Hogwarts. J tivemos uns queixos quebrados
mas nada mais srio. Agora, o ltimo membro da equipe  o
apanhador. Voc. E voc no tem que se preocupar com a goles
nem com os balaos.
-A no ser que rachem a minha cabea.
- No se preocupe, os Weasley so uma parada para os balaos:
quero dizer, eles parecem uns balaos humanos.
Olivio meteu a mo no caixote e tirou a quarta e ltima bola.
Comparada com a goles e os balaos, era pequenininha, mais ou
menos do tamanho de uma noz. Era de ouro polido e tinha
asinhas de prata que se agitavam.
- Esta  o pomo de ouro, e  a bola mais importante de todas.
 muito difcil de se apanhar porque  veloz e pouco visvel. A
funo dos apanhadores  agarr-la. Eles tm que se meter entre
os artilheiros, batedores, balaos e a goles para agarr-lo antes do
apanhador do time contrrio, porque o apanhador que agarra o
pomo ganha para o seu time mais cento e cinqenta pontos, o que
praticamente lhe d a vitria.  por isso que os apanhadores
levam tantas faltas. Um jogo de quadribol s termina quando o
pomo  apanhado, o que pode demorar uma eternidade. Acho
que o recorde  trs meses, e precisaram arranjar substitutos para
os jogadores poderem dormir um pouco - explicou Olivio. - 
isso a, alguma pergunta?
Harry sacudiu a cabea. Compreendeu muito bem o que
tinha de fazer. Fazer  que ia ser o problema.
- No vamos praticar com o pomo - disse Olivio, guardando-o
cuidadosamente de volta na caixa. - Est escuro demais e
poderamos perd-lo. Vamos experimentar com outras bolas.
E tirou do bolso um saco de bolas comuns de golfe e alguns
minutos depois ele e Harry estavam no ar, Olivio atirando as bolas
 com toda a fora para todos os lados e Harry apanhando-as.
Harry no perdeu nenhuma, e Olivio ficou encantado.
passou-se meia hora, a noite chegou e eles no puderam continuar.
-Aquela taa de quadribol ter o nosso nome este ano - disse
Olivio feliz quando voltavam cansados ao castelo. - Eu no
me espantaria se voc se sasse melhor que Carlinhos, e ele poderia
ter jogado na seleo da Inglaterra se no tivesse ido embora
caar drages.
Talvez fosse porque agora andava muito ocupado com o treino de
quadribol trs noites por semana alm dos deveres de casa, mas
Harry nem acreditou quando se deu conta de que j estava em
Hogwarts havia dois meses. O castelo parecia mais sua casa do
que a casa da rua dos Alfeneiros. As aulas, tambm, estavam se
tornando cada dia mais interessantes, agora que dominara os
conhecimentos bsicos.
Na manh do Dia das Bruxas eles acordaram com um delicioso
cheiro de abbora assada que se espalhava pelos corredores.
E, o que era ainda melhor, o Prof. Flitwick anunciou na aula de
Feitios que, em sua opinio, os alunos estavam prontos para
comear a fazer objetos voarem, uma coisa que andavam morrendo
de vontade de experimentar desde que viram o professor fazer o
sapo de Neville sair voando pela sala. O Prof. Flitwick dividiu a
turma em pares para praticar. O paxceiro de Harry foi Simas
Finnigan (um alivio, porque Neville tinha tentado atrair sua ateno).
Mas Rony teria que trabalhar com Hermione Granger. Era
dificil dizer se era Rony ou Hermione que estava mais aborrecido
com isso. Ela no falava com nenhum dos dois desde o dia em
que a vassoura de Harry chegara.
- Agora, no se esqueam daquele movimento com o pulso
que praticamos! - falou esganiado o Prof. Flitwick, como sempre
empoleirado no alto da pilha de livros. - Gira e sacode, lembrem-se,
gira e sacode. E digam as palavras mgicas corretamente,
 muito importante, tambm, lembrem-se do bruxo Barrufo,
que disse "s" em vez de "f" e quando viu estava no cho com um
bfalo em cima do peito.
Era muito dificil. Harry e Simas giraram e sacudiram o pulso,
mas a pena que deviam mandar para o alto continuava parada em
cima da mesa. Simas ficou to impaciente que a empurrou com a
varinha e tocou fogo nela - Harry teve que apagar o fogo com o
chapu.
Rony, na mesa ao lado, no estava tendo muita sorte.
- Vingardium leviosa!- ordenou, sacudindo os braos compridos
como ps de moinho.
- Voc est dizendo o feitio errado - Harry ouviu Hermione
corrigir aborrecida. -  ving-gar-dium levi-o-sa, o "gar"  bem
pronunciado e longo.
- Diz voc ento, que  to sabichona-retrucou Rony.
Hermione enrolou as mangas das vestes, bateu a varinha e
disse:
- Vingardium leviosa!
A pena se ergueu da mesa e pairou a mais de um metro acima
da cabea deles.
- Ah, muito bem! - exclamou o professor Flptwick, batendo
palmas. - Pessoal, olhe aqui, a Hermione Granger conseguiu!
Rony estava de muito mau humor na altura em que a aula
terminou.
- No admira que ningum suporte ela - disse a Harry
quando procuravam chegar ao corredor. - Francamente, ela 
um pesadelo.
Algum deu um esbarro em Harry ao passar. Era Hermione.
Harry viu seu rosto de relance - e ficou assustado ao ver que ela
estava chorando.
-Acho que ela ouviu o que voc disse.
- E da! - mas pareceu meio sem graa. - Ela j deve ter
reparado que no tem amigos.
Hermione no apareceu na aula seguinte e ningum a viu a
tarde inteira.
Ao descerem ao salo principal para a festa das bruxas, Harry
e Rony ouviram Parvati contar  amiga Lil que Hermione estava
chorando no banheiro das meninas e queria que a deixassem em
paz. Rony ficou ainda mais sem graa ao ouvir isso, mas no
momento seguinte entraram no salo principal, onde as decoraes
do Dia das Bruxas tiraram Hermione de suas cabeas.
Mil morcegos vivos esvoaavam nas paredes e no teto e
outros mil mergulhavam sobre as mesas em nuvens negras e baixas,
fazendo danarem as velas dentro das abboras. A comida apareceu
de repente nos pratos de ouro, como acontecera no banquete
de abertura das aulas.
Harry estava se servindo de uma batata assada na casca quando o
Prof. Quirrell entrou correndo no salo, o turbante torto na cabea e
o terror estampado no rosto. Todos olharam quando ele se aproximou
da cadeira de Dumbledore, escorou-se na mesa e ofegou:
- Trasgo... nas masmorras... achei que devia lhe dizer.
Em seguida desabou no cho desmaiado.
Houve um alvoroo. Foi preciso explodirem vrias
bombinhas da ponta da varinha do Prof. Dumbledore para as pessoas
fazerem silncio.
- Monitores - disse ele com voz grave e retumbante -, levem
os alunos de suas casas de volta aos dormitrios, imediatamente!
Era com Percy mesmo.
- Me acompanhem! Fiquem juntos, alunos do primeiro ano!
No precisam ter medo do trasgo se seguirem as minhas ordens!
Agora fiquem bem atrs de mim. Abram caminho para os alunos
do primeiro ano passarem! Com licena, sou o monitor!
- Como  que um trasgo pode entrar? - perguntou Harry
enquanto subiam a escadaria.
- No me pergunte, dizem que eles so bem burros - respondeu
Rony - Vai ver o Pirraa deixou ele entrar para pregar uma
pea no Dia das Bruxas.
Eles passaram por diferentes grupos de pessoas que se apres savam em diferentes direes. Enquanto lutavam para passar por
um bolinho de alunos de Lufa-lufa, Harry de repente agarrou o
brao de Rony.
- Acabei de me lembrar da Hermione.
- O que tem ela?
- Ela no sabe que tem um trasgo aqui.
Rony mordeu o lbio.
- Ah, est bem - falou rspido. - Mas  melhor Percy no ver
a gente. -
Abaixando-se, eles se misturaram aos alunos de Lufa-lufa que
iam na direo contrria, escapuliram por um lado deserto do corredor
e correram para os banheiros das meninas. Tinham acabado
de virar um canto quando ouviram passos apressados atrs deles.
- Percy! - sibilou Rony, puxando Harry para trs de um enorme
grifo de pedra.
Espiando para os lados, no entanto, viram no Percy mas
Snape. Ele atravessou o corredor e desapareceu de vista.
- Que  que ele est fazendo? - cochichou Harry. - Por que
no est l embaixo com os outros professores?
-No me pergunte.
O mais silenciosamente possvel, eles se esgueiraram pelo
prximo corredor nas pegadas de Snape.
- Ele est indo para o terceiro andar - disse Harry, mas Rony
levantou a mo.
- Voc est sentindo um cheirop ?
Harry fungou e um fedor horrvel invadiu suas narinas, uma
mistura de meias velhas e banheiro pblico que parece que nunca
 limpo.
E em seguida ouviram-um grunhido baixo e passadas de ps
gigantescos. Rony apontou: no fim do corredor,  esquerda, alguma
coisa enorme estava vindo em sentido contrrio. Eles se encolheram
no escuro e procuraram ver o que era quando a coisa passou
por um trecho iluminado pelo luar.
Era uma viso medonha. Quase quatro metros de altura, a
pele cinzenta e baa, o corpanzil cheio de calombos como um
pedregulho e uma cabecinha no alto, que mais parecia um coco.
Tinha pernas curtas, grossas como um tronco de rvore e ps chatos
e calosos. Segurava um enorme basto de madeira, que arrastava
pelo cho, porque seus braos eram compridssimos.
O trasgo parou prximo a uma porta e espiou para dentro.
Abanou as longas orelhas, tentando fazer a cabea minscula
pensar, depois entrou devagar na sala.
- A chave est na porta - murmurou Harry. - Podamos
tranc-lo l dentro.
- Boa idia - concordou Rony, nervoso.
Eles se esgueiraram at a porta aberta, as bocas secas, rezando
para o trasgo no resolver sair naquele instante. Com um grande
salto, Harry conseguiu agarrar a chave, bater a porta e tranc-la
segaramente.
- Pronto!
Afogueados com a vitria, comearam a correr de volta pelo
corredor, mas ao chegarem num canto ouviram uma coisa que fez
seus coraes pararem - um grito alto e enregelante - e vinha da
sala que tinham acabado de trancar.
- Ah, no - exclamou Rony, plido como o baro Sangrento.
- Vem do banheiro das meninas.
- Hermione!- disseram os dois juntos.
Era a ltima coisa que queriam fazer, mas que escolha
tinham? Dando meia-volta, correram at a porta e giraram a chave,
atrapalhados de tanto pnico - Harry escancarou a porta - e
entraram correndo.
Hermione estava encolhida contra a parede oposta, parecendo
prestes a desmaiar. O trasgo avanava para ela, derrubando as
pias que estavam na parede em seu caminho.
- Distrai ele! - Harry pediu desesperado a Rony, e, agarrando
uma torneira, atirou-a com toda a fora contra a parede.
O trasgo parou a um metro de Hermione. Virou-se com lentido,
.piscando sem entender, procurou ver que barulho era aquele
Seus olhinhos malvados viram Harry. Ele hesitou, em seguida
partiu para cima de Harry, erguendo o basto.
- Oi, cabea de ervilha! - berrou Rony do outro lado do
banheiro, e atirou contra ele um cano de metal. O trasgo nem pareceu
sentir o cano bater no seu ombro, mas ouviu o berro e parou
outra vez, virando o focinho feio para Rony, e dando a Harry tempo
para correr em volta dele.
- Vamos, corra, corra!- Harry gritou para Hermione, tentando
pux-la na direo da porta, mas ela no conseguia se mexer,
continuava achatada contra a parede, a boca aberta de terror.
Os gritos e os ecos pareciam estar deixando o trasgo enlouquecido.
Ele rugiu de novo e avanou para Rony, que estava mais
perto e no tinha jeito de escapar.
Harry ento fez uma coisa que era ao mesmo tempo muito
corajosa e muito idiota: tomou impulso e deu um salto conseguindo
abraar o pescoo do trasgo pelas costas. O trasgo no sentiu
Harry pendurar-se ali, mas at um trasgo percebe quando se espeta
um pedao comprido de pau dentro da narina, e a varinha de
Harry ainda estava na mo quando ele saltou - e entrou direto na
narina do trasgo.
Urrando de dor, o trasgo se virou e brandiu o basto, enquanto
Harry continuava agarrado nele tentando escapar da morte; a
qualquer instante, o trasgo ia arranc-lo do pescoo ou dar-lhe
uma tremenda porretada.
Hermione afundara no cho de tanto medo; Rony puxou a
prpria varinha - sem saber o que ia fazer, ouviu-se gritando o
primeiro feitio que lhe veio  cabea: Vingardium leviosa!
Na mesma hora o basto voou da mo do trasgo, ergueu-se
no ar, foi subindo, subindo, virou-se lentamente - e caiu, com um
barulho feio, na cabea do seu dono. O trasgo cambaleou e, em
seguida, caiu de cara no cho, com um baque que fez o banheiro
todo sacudir.
Harry se levantou. Tremia sem flego. Rony continuava parado
com a varinha no ar, espantado com o que fizera.
Foi Hermione quem falou primeiro.
- Ele est... morto?
-Acho que no - respondeu Harry -Acho que s perdeu os
sentidos.
Ele se abaixou e puxou a varinha da narina do trasgo. Estava
suja de uma coisa que parecia uma cola grumosa.
- Eca... meleca de trasgo.
E limpou a varinha nas calas do trasgo.
De repente o barulho de portas batendo e passos pesados
fizeram os trs erguerem a cabea. No haviam percebido a confuso
que tinham aprontado, mas com certeza algum l embaixo
ouvira a pancadaria e os urros do trasgo. Um instante depois a
Profa. Minerva adentrou o banheiro, seguida de perto por Filch e
Quirrell, que fechava a fila. Quirrell deu uma espiada no trasgo,
soltou um gemidinho e sentou-se depressa em um vaso sanitrio,
apertando o peito.
Filch debruou-se sobre o trasgo. A Profa. Minerva ficou
olhando para Rony e Harry. Harry nunca a vira to zangada. Seus
lbios estavam brancos. A esperana de ganhar cinqenta pontos
para Grifinria desapareceu logo da cabea de Harry.
- O que  que vocs estavam pensando? - perguntou a
Profa. Minerva, com uma fria reprimida na voz. Harry olhou
para Rony, que continuava parado com a varinha no ar. - Vocs
tiveram sorte de no serem mortos. Por que  que no esto no
dormitrio?
Filch lanou a Harry um olhar rpido e penetrante. Harry
olhou para o cho. Desejou que Rony baixasse a varinha.
Ento ouviu-se uma vozinha que veio das sombras.
-Por favor, Profa. Minerva, eles vieram me procurar.
- Senhorita Granger!
Hermione conseguira finalmente se levantar.
- Sa procurando o trasgo porque achei que podia enfrent-lo
sozinha. Sabe, j li tudo sobre trasgos.
Rony deixou a varinha cair. Hermione Granger, contando
uma mentira deslavada a um professor?
- Se eles no tivessem me encontrado eu estaria morta agora.
Harry enfiou a varinha no nariz do trasgo e Rony derrubou ele
com o prprio basto. No tiveram tempo de chamar ningum. O
trasgo ia acabar comigo quando eles chegaram.
Harry e Rony tentaram fingir que a histria no era novidade
para eles.
- Bem... nesse caso... - disse a Profa. Minerva encarando os
trs -, senhorita Granger, que bobagem, como pde pensar em
enfrentar um trasgo montanhs sozinha?
Hermione baixou a cabea. Harry perdera a fala. Hermione
era a ltima pessoa do mundo que desobedeceria ao regulamento,
e ali estava fingindo que desobedecera, para tir-los de uma enrascada.
Era o mesmo que o Snape comear a distribuir balinhas.
- Hermione Granger, Grifinria vai perder cinco pontos
por isso - disse a Profa. Minerva. - Estou muito desapontada.
Se no estiver machucada  melhor ir embora para a torre de
Grifinria. Os alunos esto acabando de festejar o Dia das Bruxas
em suas casas. 
Hermione se retirou.
A Profa. Minerva virou-se para Harry e Rony
- Bem, eu continuo achando que vocs tiveram sorte, mas
no h muitos alunos do primeiro ano que pudessem enfrentar
um trasgo montanhs adulto. Cada um de vocs ganha cinco
pontos para Grifinria. O Prof. Dumbledore ser informado. Podem
ir.
Eles saram depressa do banheiro e no falaram nada at subirem
dois andares. Foi um alivio se afastarem do fedor do trasgo,
para no falar do resto.
- Devamos ter ganho mais de dez pontos - resmungou
Rony.
- Cinco, voc quer dizer, depois de descontar os pontos que
Hermione perdeu.
- Foi legal ela ter-nos tirado do aperto - admitiu Rony. - Mas
no se esquea, salvamos a vida dela.
-Talvez ela no precisasse ser salva se no tivssemos trancado
a coisa com ela - lembrou Harry
Tinham chegado ao retrato da Mulher Gorda.
- Focinho de porco - disseram e entraram.
A sala comunal estava cheia e barulhenta. Todo o mundo
estava comendo o jantar que fora mandado para l. Hermione, porm,
estava parada sozinha do lado da porta, esperando por eles.
Houve um silncio constrangido. Depois, sem se olharem, todos
disseram "Obrigado" e correram para apanhar os pratos.
Mas daquele momento em diante, Hermione Granger
tornou-se amiga dos dois. H coisas que no se pode fazer junto sem
acabar gostando um do outro, e derrubar um trasgo montanhs
de quase quatro metros de altura  uma dessas coisas.

CAPTULO ONZE -
Quadribol

Quando entrou novembro o tempo esfriou muito. As serras em
torno da escola viraram cinza-gelo e o lago parecia metal congelado.
Toda manh o cho se cobria de geada. Hagrid era visto das
janelas dos andares superiores do castelo degelando vassouras no
campo de quadribol, enrolado num casaco de pele de toupeira,
com luvas de coelho e enormes botas de castor.
Comeara a temporada de quadribol. No sbado, Harry estaria
jogando sua primeira partida depois de semanas de treinamento:
Grifinria contra Sonserina. Se Grifinria ganhasse, subiria
para o segundo lugar no campeonato das casas.
Quase ningum vira Harry jogar porque Olivio decidira que,
sendo uma arma secreta, a participao de Harry deveria ser
mantida em segredo. Mas de alguma forma a notcia de que jogaria
como apanhador vazara e Harry no sabia o que era pior - se
as pessoas dizerem que ele seria brilhante ou dizerem que iriam ficar
correndo embaixo dele com um colcho.
Era realmente uma sorte que Harry agora tivesse Hermione
como amiga. No sabia como poderia ter dado conta dos deveres
de casa sem ela, diante dos treinos de quadribol convocados
por Olivio  ltima hora. Ela tambm lhe emprestara o livro
puadribol atravs dos sculos, que acabara rendendo uma leitura
muito interessante.
Harry aprendera que havia setecentas maneiras de cometer
faltas em quadribol e que todas haviam ocorrido durante a copa
mundial de 1473; que os apanhadores eram em geral os jogadores
menores e mais velozes e que a maioria dos acidentes graves no 
quadribol parecia acontecer com eles; que embora as pessoas
raramente morressem jogando quadribol, havia juzes que tinham
desaparecido e reaparecido meses depois no deserto do Saara.
Hermione tornara-se menos tensa com relao s infraes
ao regulamento desde que Harry e Rony a tinham salvado do
trasgo montanhs e se tornara uma pessoa mais simptica. Na
vspera da primeira partida de quadribol de Harry, os trs foram
at a quadra congelada durante o intervalo das aulas, e ela fizera
aparecer para eles um fogo azulado muito vivo que podia ser levado
para toda parte em um frasco de gelia. Achavam-se parados
de costas para o fogo, se esquentando, quando Snape atravessou
o ptio. Harry reparou logo que Snape estava mancando. Harry,
Rony e Hermione se aproximaram mais para esconder o fogo
com o corpo; tinham certeza de que era proibido. Infelizmente
alguma coisa em suas caras culpadas atraiu a ateno de Snape. Ele
veio mancando at onde eles estavam. No vira o fogo, mas parecia
estar prorocurando uma razo para ralhar com eles.
- Que  que voc tem a, Potter?
Era o puadribol atravs dos sculos. Harry mostrou-o.
- Os livros da biblioteca no podem ser levados para fora da
escola - falou Snape. - Me d aqui. Menos cinco pontos para
Grifinria.
- Ele acabou de inventar essa regra - murmurou Harry com
raiva, enquanto Snape se afastava. - Que ser que houve com a
perna dele?
- No sei, mas espero que esteja realmente doendo - falou
Rony com azedume.
A sala comunal da Grifinria estava muito barulhenta aquela noite.
Harry, Rony e Hermione sentaram-se junto a uma janela.
Hermione verificava os deveres de Harry e Rony para a aula de
Feitios. Ela nunca os deixava copiar ("Como  que vocs vo
aprender?"), mas ao lhe pedirem para ler os trabalhos, eles recebiam
as respostas certas do mesmo jeito.
Harry sentia-se inquieto. Queria de volta o puadribol atravs dos
sculos, para se distrair do nervosismo que a partida do dia seguinte
estava lhe provocando. Por que deveria ter medo de Snape?
Levantou-se e disse a Rony e Hermione que ia pedir a Snape para lhe
devolver o livro.
-Antes voc do que eu-responderam eles juntos, mas Harry
tinha a impresso que Snape no iria recusar se houvesse outros
professores ouvindo.
Ele foi  sala dos professores e bateu  porta. No obteve
resposta. Bateu outra vez. Nada.
Talvez Snape tivesse deixado o livro na sala? Valia a pena tentar.
Entreabriu a porta e espiou para dentro - e deparou com uma
cena horrvel.
Snape e Filch estavam l dentro sozinhos. Snape segurava as
vestes acima do joelho. Uma das pernas sangrava, lacerada. Filch
entregava ataduras a Snape.
- Droga - dizia Snape. - Como  que se pode ficar de olho
em trs cabeas ao mesmo tempop
Harry tentou fechar a porta sem fazer barulho, mas...
- POTTER!
O rosto de Snape contorceu-se de fria ao mesmo tempo que
ele largava as vestes para esconder a perna. Harry engoliu em seco.
- Eu vim saber se o senhor poderia devolver o meu livro.
- SAIA! SAIA!
Harry saiu, antes que Snape pudesse descontar algum ponto
de Grifinria. E voltou correndo para baixo.
- Conseguiup - perguntou Rony quando Harry se reuniu a
eles. - Que aconteceu?
Num murmrio, Harry lhes contou o que vira.
- Sabe o que isso significap - terminou sem flego. - Ele tentou
passar pelo cachorro de trs cabeas no Dia das Bruxas! Era
para l que estava indo quando o vimos. Ele quer a coisa que o
cachorro est guardando! E aposto a minha vassoura como ele deixou
aquele trasgo entrar, para distrair a ateno de todos!
Os olhos de Hermione estavam arregalados.
- No. Ele no faria isso. Sei que ele no  muito simptico,
mas no tentaria roubar uma coisa que Dumbledore estivesse
guardando a sete chaves.
- Sinceramente, Hermione, voc pensa que todos os professores
so santos ou coisa parecida - disse-lhe Rony com rispidez. -
Concordo com Harry, acho que Snape faria qualquer coisa. Mas o
que  que ele est procurando? O que  que o cachorro est guardando?
Harry foi se deitar com a cabea zunindo com aquela pergunta.
Neville roncava alto e Harry no conseguia dormir. Tentou
esvaziar a cabea - precisava dormir, tinha de dormir, ia jogar sua
primeira partida de quadribol dentro de algumas horas -, mas a
expresso no rosto de Snape quando Harry vira sua perna era
dificil de esquecer.
O dia seguinte amanheceu muito claro e frio. O salo principal
estava impregnado com o cheiro delicioso de salsichas e com a conversa
animada de todos que aguardavam ansiosos uma boa partida de quadribol.
- Voc tem que comer alguma coisa.
- No quero nada.
- S um pedacinho de torrada - tentou persuadi-lo Hermione.
- No estou com fome.
Harry se sentia pssimo. Dentro de uma hora estaria entrando
na quadra.
- Harry, voc precisa de energia - disse Simas Finnigan. - Os
apanhadores so sempre os que acabam aleijados pelo outro time.
- Obrigado, Simas - respondeu Harry, observando Simas
amontoar ketchup sobre as salsichas.
A pelas onze horas a escola inteira parecia estar nas arquibancadas
que cercavam o campo de quadribol. Muitos estudantes tinham
levado binculos. Os lugares ficavam no alto mas, s vezes,
ainda assim era difcil ver o que acontecia.
Rony e Hermione se reuniram a Neville, Simas e Dino, o a
do time de segunda diviso na fileira do alto. Como uma smpresa
para Harry, eles tinham pintado uma grande bandeira em um dos
lenis que Pereba roera. Dizia: Potter para Presidente e Dino,
que era bom em desenho, tinha pintado o grande leo de Grifinria
embaixo. Depois Hermione apelara para um feiticinho para fazer
a tinta brilhar multicolorida.
Entrementes, nos vestirios, Harry e o restante do time estavam vestindo as
roupas vermelhas de quadribol (Sonserina iria
jogar de verde).
Olivio pigarreou pedindo silncio.
- Muito bem, rapazes.
- E moas - acrescentou a artilheira Angelina Johnson.
- E moas - concordou Olivio. - Est na hora.
- O jogao - disse Fred.
- O jogao que estvamos esperando - explicou Jorge.
- J conhecemos o discurso de Olivio de cor - comentou
Fred para Harry. - Fizemos parte do time no ano passado.
- Calem a boca, vocs dois - mandou Olivio. - Este  o melhor
time que Grifinria j teve nos ltimos anos. Vamos vencer.
Sei que vamos.
E encarou os jogadores como se dissesse "Ou vo ver".
- Certo. Est na hora. Boa sorte para todos.
Harry acompanhou Fred e Jorge na sada do vestirio e, esperando
que seus joelhos no cedessem, entrou na quadra debaixo
de vivas.
Madame Hooch era a juza. Estava parada no meio da quadra
esperando os dois times, de vassoura na mo.
- Quero ver um jogo limpo, meninos - disse quando estavam
todos reunidos  sua volta. Harry reparou que ela parecia estar falando
particularmente para o capito de Sonserina, Marcos Flint,
um aluno do quinto ano. Harry achou que Flint tinha sangue de
trasgo. Pelo canto do olho viu a bandeira, que piscava "Potter para
Presidente" tremulando sobre as cabeas dos espectadores. Seu
corao perdeu um compasso. Ele se sentiu mais corajoso.
-Montem as vassouras, por favor.
Harry subiu na sua Nimbus 2000.
Madame Hooch puxou um silvo forte no seu apito de prata.
Quinze vassouras se ergueram no ar. Fora dada a partida.
"E a goles foi de pronto rebatida por Angelina Johnson de
Grifinria - que tima artilheira  essa menina, e bonita, tambm."
- JORDAN!
- Desculpe, professora.
O amigo dos gmeos Weasley, Lino Jordan, estava irradiando
a partida, vigiado de perto pela Profa. Minerva.
"E ela est realmente jogando com fora total, um passe lindo
para Alicia Spinnet, um bom achado de Olivio Wood, no ano
passado ficou no time de reserva - de volta a Johnson e... no,
Sonserina tomou a goles, o capito de Sonserina rouba a goles e
sai correndo - Marcos est voando como uma guia l no alto -
ele vai mar... no, foi impedido por uma excelente interveno do
goleiro de Grifinria, Olivio, e Grifinria fica com a goles - no
lance a artilheira Ctia Bell de Grifinria, d um belo mergulho
em volta de Marcos e sobe pelo campo e - AI - essa deve ter dodo,
ela levou um balao na nuca - perdeu a goles para Sonserina -
agora Adriano Pucey corre na direo do gol, mas  bloqueado
por um segundo balao - arremessado por Fred ou Jorge Weasley,
 difcil dizer qual dos dois - em todo o caso uma boa jogada do
batedor de Grifinria, e Johnson tem outra vez a posse da goles, o
caminho est livre  sua frente e l vai ela - realmente voando -
desvia-se de um balao veloz - as balizas esto  sua frente - vamos,
agora, Angelina - o goleiro Bletchley mergulha - no chega
em tempo - PONTO para GRIFINRIA!"
A torcida de Grifinria enche de berros o ar frio, e a torcida
de Sonserina, de lamentos.
- Cheguem para l, vamos.
- Rbeo!
Rony e Hermione se apertaram para abrir espao para Hagrid
se sentar com eles.
- Estive assistindo da minha casa - disse Hagrid, indicando um
grande binculo pendurado ao pescoo. Mas no  a mesma coisa
que assistir no meio da multido. Nem sinal do pomo ainda, no ?
- No - respondeu Rony - Harry ainda no teve muito o
que fazer.
- Pelo menos no se machucou, j  alguma coisa - disse
Hagrid, levantando o binculo e espiando o pontinho que era
Harry l no cu.
Muito acima deles, Harry sobrevoava o jogo, procurando um
sinal do pomo. Isto fazia parte da estratgia montada por ele e
Olivio.
- Fique fora do caminho at avistar o pomo - dissera Olivio.
- No queremos que voc seja atacado sem necessidade.
Quando Angelina marcou, Harry tinha feito uns loops para
exttravasar a emoo. Agora voltara a procurar o pomo. Uma vez
avistou um lampejo dourado mas era apenas um reflexo do relgio
de um dos gmeos e outra vez um balao resolveu disparar em
sua direo e mais parecia uma bala de canho, mas Harry se
esquivou e Fred veio atrs dela.
- Tudo bem a, Harry? - Ele tivera tempo de gritar ao rebater
o balao com fria na direo de Marcos Flint.
"Sonserina de posse da goles." Lino Jordan continua narrando.
"O artilheiro Pucey se desvia de dois balaos, dos dois
Weasley, da artilheira Bell e voa para - esperem a - ser o pomo?"
Correu um murmrio pelas torcidas quando viram Adriano
Pucey deixar cair a goles, ocupado demais em espiar por cima do
ombro o lampejo dourado que passara por sua orelha esquerda.
Harry viu-a. Tomado de grande agitao, mergulhou em direo
ao rastro dourado. O apanhador de Sonserina, Terncio
Higgs, vira o pomo tambm. Cabea a cabea, eles se precipitaram
em direo ao pomo - todos os artilheiros pareciam ter esquecido
o que deveriam fazer, pararam no ar, para observar.
Harry foi mais rpido que Terncio - estava vendo a bolinha
redonda, as asas batendo, disparando para o alto -, imprimiu mais
velocidade...
- Ohhh! - Um rugido de raiva saiu da torcida de Grifinria
embaixo. Marcos Flint tinha bloqueado Harry de propsito e a vassoura
de Harry perdeu o rumo, Harry segurou-se para no cair.
- Falta! - gritou a torcida de Grifinria.
Madame Hooch dirigiu-se aborrecida a Marcos e em seguida
deu a Grifinria um lance livre diante das balizas. Mas na confuso,
 claro, o pomo de ouro desaparecera de vista outra vez.
Nas arquibancadas, Dino Thomas berrava:
- Fora com ele, juza! Carto vermelho!
- Isto no  futebol, Dino - lembrou Rony. - Voc no pode
expulsar jogador de campo no quadribol, e o que  um carto
vermelho?
Mas Hagrid ficou do lado de Dino.
- Deviam mudar as regras, Marcos podia ter derrubado
Harry no ar.
Lino Jordan estava achando dificil se manter neutro.
"Ento - depois dessa desonestidade bvia e repugnante..."
-Jordan! - ralhou a Profa. Minerva.
"Quero dizer, depois dessa falta clara e revoltante..."
- Jordan, estou-lhe avisando...
"Muito bem, muito bem. Marcos quase matou o apanhador
da Grifinria, o que pode acontecer com qualquer um, tenho
certeza, portanto uma penalidade a favor de Grifinria, Spinnet bate,
para fora, sem problema, e continuamos o jogo, Grifinria ainda
com a posse da bola."
Foi quando Harry se desviou de mais um balao, que passou
com perigoso efeito ao lado de sua cabea, que a coisa aconteceu.
Sua vassoura deu uma perigosa e repentina guinada. Por uma frao
de segundo ele achou que ia cair. Segurou a vassoura com firmeza
com as duas mos e os joelhos. Nunca sentira nada parecido antes.
Aconteceu outra vez. Era como se a vassoura estivesse tentando
derrub-lo. Mas uma Nimbus 2000 no decidia de repente
derrubar seu cavaleiro. Harry tentou voltar em direo s balizas de
Grifinria; tencionava avisar Olivio para pedir tempo - e ento percebeu
que a vassoura se descontrolara. No conseguia vir-la. No
conseguia dirigi-la. Ela ziguezagueava pelo ar e de vez em quando
fazia movimentos bruscos que quase o desequilibravam.
Lino ainda comentava.
"Sonserina ainda com a posse - Marcos com a goles - passa
por Spinnet - por Bell - atingido no rosto com fora por um
balao, espero que tenha quebrado o nariz -  brincadeira, professora
- Sonserina marca - ah, no..."
A torcida da Sonserina vibrava. Ningum parecia ter notado
que a vassoura de Harry estava se comportando de maneira estranha.
Carregava-o lentamente cada vez mais alto, afastando-se do
jogo, dando guinadas e corcoveando pelo caminho.
- No sei o que Harry acha que est fazendo - resmungou
Hagrid. E espiou pelo binculo. - Se eu no entendesse da coisa,
eu diria que perdeu o controle da vassoura... mas no pode ser...
De repente, as pessoas em todas as arquibancadas estavam
apontando para Harry no alto. Sua vassoura comeara a jogar
para um lado e para o outro, e ele mal conseguia se segutar. Ento
a multido gritou. A vassoura dera uma guinada violenta e Harry
desmontara. Estava agora pendurado, agentando-se apenas com
uma mo.
- Ser que aconteceu alguma coisa  vassoura quando Marcos
o bloqueou? - cochichou Simas.
- No pode ser - respondeu Hagrid, a voz trmula. - Nada
pode interferr com uma vassoura a no ser uma magia negra
muito poderosa, nenhum garoto poderia fazer isso com uma Nimbus
2000.
Ao ouvir isso, Hermione agarrou o binculo de Hagrid, mas
ao invs de olhar para Harry no alto, comeou a espiar
agitadssima para a multido.
- Que  que voc est fazendo? - gemeu Rony, o rosto
branco.
- Eu sabia! - exclamou Hermione. - Snape. Olhe.
Rony agarrou o binculo, Snape estava no centro das arquibancadas
do lado oposto. Tinha os olhos fixos em Harry e movia
os lbios sem parar.
- Ele est fazendo alguma coisa, ele est azarando a vassoura
-disse Hermione.
- Que vamos fazer?
- Deixem comigo.
Antes que Rony pudesse dizer mais nada, Hermione desapareceu.
Rony tornou a apontar o binculo para Harry. A vassoura
vibrava com tanta fora, que era quase impossvel Harry se agentar
por muito mais tempo. A multido se levantara, acompanhava
com os olhos, aterrorizada, os gmeos Weasley voaram para tentar
transferir Harry a salvo para uma de suas vassouras, mas no
adiantou - toda vez que se aproxmavam dele, a vassoura subia
mais alto. Mantiveram-se em um nvel mais baixo fazendo crculos
sob Harry, obviamente na esperana de apar-lo se casse...
Marcos Flint apoderou-se da goles e marcou cinco vezes sem ningum
reparar.
-Anda logo, Herrnione - murmurou Rony desesperado.
Hermione abrira caminho at a arquibancada onde estava
Snape e agora corria pela fileira atrs dele; nem parou para pedir
desculpas quando derrubou o Prof. Quirrell de cabea na fileira
da frente. Ao chegar perto de Snape, ela se agachou, puxou a varinha
e disse algumas palavras bem escolhidas. Chamas vivas e
azuladas saram de sua varinha para a barra das vestes de Snape.
Levou talvez uns trinta segundos para Snape perceber que
estava em chamas. Um grito sbito confirmou que Hermione conseguira
o seu intento. Recolhendo o fogo num frasquinho que trazia
no bolso ela retrocedeu depressa pela mesma fileira - Snape
nunca saberia o que acontecera.
Foi o suficiente. No alto, Harry conseguiu de repente voltar a
montar a vassoura.
- Neville, pode olhar - disse Rony. Neville passara os ltimos
cinco minutos soluando no casaco de Hagrid.
Harry estava voando rpido de volta ao cho quando a multido
o viu levar a mo  boca como se fosse vomitar- ele pousou
no campo de gatas - tossiu - e uma coisa dourada caiu em
sua mo.
- Apanhei o pomo! - gritou, mostrando-o no alto, e o jogo
terminou na mais completa confuso.
- Ele no agarrou o pomo, ele quase o engoliu - continuava a
esbravejar Flint vinte minutos depois, mas no fez diferena,
Harry no infringira nenhuma regra e Lino Jordan continuava a
gritar alegremente o resultado: Grifinria ganhara por cento e setenta
pontos a sessenta. Harry porm no ouvia nada disso.
Hagrid lhe preparava no casebre uma xcara de ch forte, em
companhia de Rony e Hermione.
- Foi Snape - explicou Rony - Hermione e eu vimos. Ele
estava azarando a sua vassoura, murmurando, no despregava os
olhos de voc.
- Bobagens - disse Hagrid, que no ouvira uma nica palavra
do que se passara ao seu lado nas arquibancadas. - Por que Snape
faria uma coisa dessasp
Harry, Rony e Hermione se entreolharam, imaginando o que
lhe contar. Harry decidiu contar a verdade.
- Descobri mna coisa - falou a Hagrid. - Ele tentou passar
pelo cachorro de trs cabeas no Dia das Bruxas. Levou uma
mordida. Achamos que estava tentando roubar o que o cachorro
est guardando.
Hagrid deixou cair o bule de ch.
- Como  que vocs sabem da existncia do Fofo?
- Fofo?
- ...  meu... comprei-o de um grego que conheci num bar
no ano passado. Emprestei-o a Dumbledore para guardar o...
- O qu? - perguntou Harry ansioso.
- No me pergunte mais nada - retrucou Hagrid com impacincia.
-  segredo.
- Mas Snape est tentando roub-lo.
- Bobagens - repetiu Hagrid. - Snape  professor de
Hogwarts, no faria uma coisa dessas.
- Ento por que ele tentou matar Harry? - perguntou
Hermione.
Os acontecimentos daquela tarde sem dvida tinham mudado
a opinio dela sobre Snape.
- Eu conheo uma azarao quando vejo uma, Rbeo, j li
tudo sobre o assunto! A pessoa precisa manter contato visual e
Snape nem ao menos piscava, eu vi!
- Estou dizendo que vocs esto enganados! - falou Hagrid
com veemncia. - No sei por que a vassoura de Harry estava
agindo daquela forma, mas Snape no iria tentar matar um aluno!
Agora, escutem bem, os trs: vocs esto se metendo em coisas
que no so de sua conta. Isto  perigoso. Esqueam aquele
cachorro e esqueam o que ele est guardando, isto  coisa do Prof.
Dumbledore com o Nicolau Flamel...
- Ah-ah! - exclamou Harry - Ento tem algum chamado
Nicolau Flamel metido na jogada, ?
Hagrid parecia furioso consigo mesmo.


CAPTULO DOZE -
O Espelho de Ojesed

O Natal se aproximava. Certa manh em meados de dezembro,
Hogwarts acordou coberta com mais de um metro de neve. O
lago congelou e os gmeos Weasley receberam castigo por terem
enfeitiado vrias bolas de neve fazendo-as seguir Quirrell aonde
ele ia e guicarem na parte de trs do seu turbante. As poucas corujas
que conseguiam se orientar no cu tempestuoso para entregar
correspondncia tinham de ser tratadas por Hagrid para recuperar
a sade antes de voltarem a voar.
Todos mal agentavam esperar as frias de Natal. E embora a
sala comunal da Grifinria e o salo principal tivessem grandes
fogos nas lareiras, os corredores varridos por correntes de ar
 tinham se tornado glidos e um vento cortante sacudia as janelas
das salas de aulas. As piores eram as aulas do Prof. Snape nas masmorras,
onde a respirao dos alunos virava uma nvoa diante de les
e eles procuravam ficar o mais prximo possvel dos seus cal deires.
- Tenho tanta pena - disse Drago Malfoy, na aula de Poes
- dessas pessoas que tm que passar o Natal em Hogwarts porque
a famlia no as quer em casa.
Olhou para Harry ao dizer isso. Crabbe e Goyle riram. Harry,
que estava medindo p de espinha de peixe-leo, no lhes deu
ateno. Malfoy andava muito mais desagradvel do que de costume
desde a partida de quadribol. Aborrecido porque Sonserina
perdera, tentara fazer as pessoas rirem dizendo que um sapo iria
substituir Harry como apanhador no prximo jogo. Ento percebeu
que ningum achara graa, porque estavam todos muito
impressionados com a maneira com que Harry conseguira se segurar
na vassoura corcoveante. Por isso Drago, invejoso e zangado,
voltara a aperrear Harry dizendo que no tinha famlia como os
outros...
Era verdade que Harry no ia voltar  rua dos Alfeneiros para
o Natal. A Profa. Minerva passara a semana anterior fazendo uma
lista dos alunos que iam ficar em Hogwarts no Natal, e Harry
assinara seu nome na mesma hora. No sentia nenhuma pena de si
mesmo; provavelmente aquele seria o melhor Natal que j tivera.
Rony e os irmos tambm iam ficar, porque o Sr. e a Sra. Weasley
iam  Romnia visitar Carlinhos.
Quando deixaram as masmorras ao final da aula de Poes,
encontraram um grande tronco de pinheiro bloqueando o corredor
 frente. Dois ps enormes que apareciam por baixo do tronco
e algum bufando alto denunciou a todos que Hagrid estava
por trs dele.
- Oi, Rbeo, quer ajuda? - perguntou Rony, metendo a cabea
por entre os ramos...
- No, estou bem, obrigado, Rony.
- Voc se importaria de sair do caminho? - ouviu-se a voz
arrastada e seca de Drago atrs deles. - Est tentando ganhar uns
trocadinhos, Weasley? Vai ver quer virar guarda-caa quando terminar
Hogwarts. A cabana de Rbeo deve parecer um palcio
comparada ao que sua familia est acostumada.
Rony avanou para Drago justamente na hora em que Snape
subia as escadas.
- WEASLEY!
Rony largou a frente das vestes de Drago.
- Ele foi provocado, Prof. Snape - explicou Hagrid, deixando
aparecer por trs da rvore a cara peluda. - Drago ofendeu a
famlia dele.
- Seja por que for, brigar  contra o regulamento de Hogwarts,
Hagrid - disse Snape insinuante. - Cinco pontos a menos
para Grifinria, Weasley, e d graas a Deus por no ser mais.
Agora, vamos andando, todos vocs.
Drago, Crabbe e Goyle passaram pela rvore com brutalidade,
espalhando folhas para todo lado com sorrisos nos rostos.
- Eu pego ele - prometeu Rony, rilhando os dentes s costas
de Drago -, um dia desses, eu pego ele.
- Odeio os dois - disse Harry - Drago e Snape.
- Vamos, nimo, o Natal est a - disse Hagrid. - Vou lhes
dizer o que vamos fazer, venham comigo ver o salo principal,
est lindo.
Ento os trs acompanharam Hagrid e sua rvore at o salo
principal, onde a Profa. Minerva e o Prof. Flitwick estavam trabalhando
na decorao para o Natal.
- Ah, Hagrid, a ltima rvore - ponha naquele canto ali, por
favor.
O salo estava espetacular. Festes de azevinho e visco pendurados
a toda a volta das paredes e nada menos que doze enormes
rvores de Natal estavam dispostas pelo salo, umas cintilando
com cristais de neve, outras iluminadas por centenas de velas.
-Quantos dias ainda faltam at as frias?-perguntou Hagrid.
- Um - respondeu Hermione. - Ah, isso me lembra: Harry,
Rony, falta meia hora para o almoo, devamos estar na biblioteca.
- Ih,  mesmo - disse Rony, despregando os olhos do Prof.
Flitwick, que fazia sair bolhas azuis da ponta da varinha e as levava
para cima dos galhos da rvore que acabara de chegar.
- Biblioteca? - espantou-se Hagrid, acompanhando-os para
fora da sala. - Na vspera das frias? No esto estudando demais?
-Ah, no estamos estudando - respondeu Harry, animado.
- Desde que voc mencionou o Nicolau Flamel estamos tentando
descobrir quem ele .
- Vocs o qu? - Hagrid parecia chocado. - Ouam aqui: j
disse a vocs, parem com isso. No  da sua conta o que o cachorro
est guardando.
- S queremos saber quem  Nicolau Flamel, s isso - falou
Hermione.
- A no ser que voc queira nos dizer e nos poupar o trabalho?
-acrescentou Harry. -J devemos ter consultado uns cem livros
e no o encontramos em lugar nenhum. Que tal nos dar uma
pista? Sei que j li o nome dele em algum lugar.
-No digo uma palavra- respondeu Hagrid decidido.
- Ento vamos ter que descobrir sozinhos - disse Rony, e saram
depressa para a biblioteca, deixando Hagrid desapontado.
Andavam realmente procurando o nome de Flamel nos livros
desde que Hagrid deixara escap-lo, porque de que outra maneira
iam descobrir o que Snape estava tentando roubar? O problema 
que era muito difcil saber por onde comear, sem saber o que
Flamel poderia ter feito para aparecer em um livro. No se encontrava
em Grandes sbios do sculo XX, nem em Nomes notveis da mgica
do nosso tempo, no era encontrvel tampouco em Importantes
descobertas modernas da magia nem em Um estudo dos avanos recentes na
magia. E,  claro, havia tambm o tamanho da biblioteca em si, dezenas
de milhares de livros; milhares de prateleiras; centenas de
corredores estreitos.
Hermione puxou uma lista de assuntos e ttulos que decidira
pesquisar enquanto Rony se dirigiu a uma carreira de livros e
comeou a tir-los da prateleira aleatoriamente. Harry vagou at a
Seo Reservada. Vinha pensando h algum tempo se Flamel no
estaria ali. Infelizmente, o estudante precisava de um bilhete assinado
por um professor para consultar qualquer livro reservado e
ele sabia que nenhum jamais lhe daria o bilhete.
Eram livros que continham poderosa magia negra jamais
ensinada em Hogwarts e somente lida por alunos mais velhos que
estudavam no curso avanado de Defesa Contra a Magia Negra.
- O que  que voc est procurando, menino?
-Nada- disse Harry
Madame Pince, a bibliotecria, apontou-lhe um espanador de
penas.
- Ento  melhor sair daqui. Vamos, fora!
Desejando ter sido um pouco mais rpido em inventar alguma
histria, Harry saiu da biblioteca. Ele, Rony e Hermione j tinham
concordado que era melhor no perguntar a Madame Pince
onde poderiam encontrar Flamel. Tinham certeza de que ela
saberia informar, mas no podiam arriscar que Snape ouvisse o que
andavam tramando.
Harry esperou do lado de fora no corredor para saber se os outros
dois tinhm encontrado alguma coisa, mas no alimentava
muitas esperanas. Afinal estavam procurando havia quinze dias,
mas como s tinham breves momentos entre as aulas, no era surpresa
que no tivessem achado nada. O que realmente precisavam
era de uma longa busca sem Madame Pince bafejar o pescoo deles.
Cinco minutos depois, Rony e Hermione se reuniram a ele
balanando negativamente a cabea. E foram almoar.
- Vocs vo continuar procurando enquanto eu estiver fora,
no vo? - recomendou Hermione. - E me mandem uma coruja
se encontrarem alguma coisa.
- E voc poderia perguntar aos seus pais se sabem quem 
Flamel - disse Rony. - No haveria perigo em perguntar a eles.
- Nenhum perigo, os dois so dentistas.
Uma vez comeadas as frias, Rony e Harry estavam se divertindo
 bea para se lembrar de Flamel. Tinham o dormitrio s para
eles e a sala comunal estava muito mais vazia do que o normal,
por isso podiam usar as poltronas confortveis ao p da lareira.
Sentavam-se a toda hora para comer tudo que pudessem espetar
em um garfo de assar - po, bolinhos, marshmallows - e tramavam
maneiras de fazer Drago ser expulso, o que se divertiam em discutir
mesmo que no fosse produzir resultados.
Rony tambm comeou a ensinar Harry a jogar xadrez de
bruxo. Era exatamente igual a xadrez de trouxa exceto que as peas
eram vivas, o que fazia parecer que a pessoa estava dirigindo
tropas em uma batalha. O jogo de Rony era muito velho e gasto.
Como tudo o mais que possua, pertencera em tempos a algum
da famlia - no caso, ao seu av. No entanto, a velhice das peas
no era um empecilho. Rony as conhecia to bem que nunca tinha
dificuldade de mand-las fazer o que ele queria.
Harry jogava com peas que Simas Finnigan lhe emprestara e
estas no confiavam nada nele. Ainda no era um bom jogador e
elas no paravam de gritar conselhos variados, o que o confundia:
"No me mande para l, no est vendo o cavalo delep. Mande ele,
podemos nos dar ao luxo de perder ele."
Na noite de Natal, Harry foi para a cama pensando com ansiedade
na comida e na diverso do dia seguinte, mas sem esperar
nenhum presente.
Quando acordou cedo na manh seguinte, porm, a primeira coisa que viu foi uma pequena pilha de embrulhos ao p de
sua cama.
- Feliz Natal - disse Rony sonolento quando Harry pulou da
cama e vestiu o roupo.
- Para voc tambm - falou Harry. - Olhe s isso! Ganhei
presentes?
- E o que  que voc esperava, nabos? - respondeu Rony,
virando-se para a sua pilha que era bem maior do que a de Harry.
Harry apanhou o pacote de cima. Estava embrulhado em
papel pardo grosso e trazia escrito em garranchos Para o Harry, de
Hagrid. Dentro havia uma flauta tosca de madeira. Era bvio
que Hagrid a entalhara pessoalmente. Harry soprou-a - parecia
um pouco com um pio de coruja.
Um segundo embrulho, muito pequeno, continha um bilhete.
Recebemos sua mensagem e estamos enviando o seu presente. Tio Vlter
e Tia Petnia. Presa com fita adesiva na nota havia uma moeda de
cinqenta pence.
- Que simptico! - exclamou Harry
Rony ficou fascinado pela moeda de cinqenta pence.
- Que esquisito! - disse. - Que formato! Isso  dinheiro?
- Pode ficar com ela - disse Harry rindo-se ao ver a satisfao
de Rony - Rbeo, minha tia e meu tio. E quem mandou esses?
-Acho que sei quem mandou esse - disse Rony, ficando um
pouco vermelho e apontando para um embrulho disforme. -
Mame. Eu disse a ela que voc no estava esperando receber presentes... ah, no... - gemeu -, ela fez para voc uma suter
Weasley.
Harry rasgou o papel e encontrou uma suter tricotada com
linha grossa verde-clara e uma grande caixa de barras de chocolate
feito em casa.
- Todos os anos ela faz para ns uma suter - disse Rony, desembrulhando
a dele -, e a minha  sempre cor de tijolo.
- Foi realmente muita gentileza dela - disse Harry, experimentando
as barrinhas de chocolate, que estavam muito gostosas.
O presente seguinte tambm continha doces - uma grande
caixa de sapos de chocolate dados por Hermione.
Restava apenas um embrulho. Harry apanhou-o e apalpou-o.
Era muito leve. Desembrulhou-o.
Uma coisa sedosa e prateada escorregou para o cho onde se
acomodou em dobras refulgentes. Rony soltou uma exclamao:
- J ouvi falar nisso - disse em voz baixa, deixando cair a caixa
de feijezinhos de todos os sabores que ganhara de Hermione. - Se
isso  o que eu penso que ,  realmente raro e realmentevalioso.
- E o que ?
Harry apanhou o pano brilhoso e prateado do cho. Tinha
uma textura estranha, parecia tecida com fios de gua.
-  uma capa da invisibilidade - disse Rony, com uma expresso
de assombro no rosto. - Tenho certeza de que . Experimente.
Harry jogou a capa em volta dos ombros e Rony deu um berro.
- , sim! Olhe para baixo! ,
Harry olhou para os ps, mas eles tinham desaparecido.
Correu ento para o espelho. No deu outra, o espelho refletiu
sua imagem, s a cabea suspensa no ar, o corpo completamente
invisvel. Ele cobriu a cabea e a imagem desapareceu
completamente.
-Tem um carto! - disse Rony de repente. - Caiu um carto!
Harry tirou a capa e apanhou o carto. Escritas numa caligrafia
fina e rebuscada que ele nunca vira antes, estavam as seguintes
palavras:
Seupai deixou isto comigo antes
de morrer. Est na hora de devolv-la a voc.
Use-a bem.
Um Natal Muito Feliz para voc.
No havia assinatura. Harry ficou olhando o carto. Rony admirava
a capa.
- Eu daria qualquer coisa para ter uma dessas. pualquer coisa...
Que foi?
- Nada. - Harry estava se sentindo muito estranho. Quem
mandara a capa? Ser que pertencera mesmo ao seu pai?
Antes que pudesse dizer ou pensar qualquer outra coisa, a
porta do dormitrio se escancarou e Fred e Jorge Weasley entraram
aos pulos. Harry rapidamente deu um sumio na capa. Por
ora no tinha vontade de compartilh-la com mais ningum.
- Feliz Natal!
- Ei, olhe s, o Harry ganhou uma suter Weasley tambm!
Fred e Jorge estavam usando suteres azuis, uma com um
grande F, a outra com um J.
- Mas a do Harry  melhor do que a nossa - comentou Fred,
erguendo a suter de Harry. - Ela com certeza capricha mais se a
pessoa no  da famlia.
- Por que voc no est usando a sua? - perguntou Jorge. -
Vamos, vista logo, elas so timas e quentes.
- Detesto cor de tijolo - lamentou-se Rony, desanimado
enquanto vestia a suter.
- Pelo menos voc no tem uma letra na sua - comentou Jorge.
- Ela deve pensar que voc no esquece o seu nome. Mas ns
no somos burros, sabemos que nos chamamos Gred e Forge.
- Que barulheira  essa?
Percy Weasley meteu a cabea para dentro da porta, com um
olhar de censura. Era visvel que j desembrulhara metade dos
seus presentes porque trazia tambm uma suter grossa pendurada
no brao, que Fred logo agarrou.
- M de monitor! Vista logo, Percy, todos estamos usando as
nossas, at Harry ganhou uma.
- Eu... no... quero - disse Percy com a voz embargada,
enquanto os gmeos foravam a suter por sua cabea, entortando
seus culos.
- E voc hoje no vai se sentar com os monitores - disse Jorge. - Natal
 uma festa da familia.
E os dois carregaram Percy para fora do quarto, com os braos
presos dos lados pela suter.
Harry nunca tivera em toda a vida um almoo de Natal igual quele.
Cem perus gordos assados, montanhas de batatas assadas e cozidas,
travessas de salsichas, terrinas de ervilhas passadas na
manteiga, molheiras com uva-do-monte em molho espesso e bem
temperado - e, a pequenos intervalos sobre a mesa, pilhas de
bombinhas de bruxo. Essas bombinhas fantsticas no se pareciam
nada com as bombinhas fracas dos trouxas que os Dursley
em geral compravam, cheias de brinquedinhos de plstico e chapus
de papel fino. Harry puxou a ponta de uma bombinha de
bruxo com Fred e ela no deu apenas um estalinho, ela explodiu
com o rudo de um canho e envolveu-os em uma nuvem de fumaa
azul, enquanto caam de dentro um chapu de almirante e
vrios camundongos brancos, vivos. Na mesa principal,
Dumbledore tinha trocado o chapu de bruxo por um toucado florido
e ria alegremente de uma piada que o Prof. Flitwick acabara
de ler para ele.
Pudins de Natal flamejantes seguiram-se ao peru. Percy
quase quebrou os dentes em uma foice de prata que estava escondida em sua fatia. Harry observava o rosto de Hagrid ficar
cada vez mais vermelho  medida que pedia mais vinho e acabou beijando a bochecha da Profa. Minerva, a qual, para
espanto de Harry, rira e corara, o chapu de bruxa enviesado na
cabea.
Quando Harry finalmente saiu da mesa, estava levando uma
montanha de brinquedos das bombinhas, inclusive uma embalagem
de bales luminosos e no-explosivos, um kit para cultivar
capixingui, a planta smbolo de Hogwarts, e um jogo de xadrez
de bruxo. Os camundongos brancos tinham desaparecido e
Harry teve a desagradvel sensao de que eles iam acabar virando jantar de Natal para Madame Nor-r-ra.
Harry e os Weasley passaram uma tarde muito alegre ocupados em uma furiosa guerra de bolas de neve. Depois, frios,
molhados e ofegantes, voltaram para junto da lareira na sala comunal de Grifinria, onde Harry estreou o seu novo jogo de
xadrez perdendo espetacularmente para Rony. Suspeitou que no
teria levado uma surra to grande se Percy no tivesse tentado
ajud-lo tanto.
Depois de lancharem sanduches de peru, bolinhos, gelatina
e bolo de frutas, todos se sentiram demasiado fartos e sonolentos para fazer outra coisa seno sentar e assstir a Pexcy correr
atrs de Fred e Jorge por toda a torre de Grifinria porque eles tinham furtado seu crach de monitor.
Fora o melhor Natal da vida de Harry. No entanto, no fundinho da cabea alguma coisa o incomodara o dia
inteiro.
Somente quando finalmente se deitou  que teve tempo para pensar nela:
a capa invsvel e a pessoa que a mandara.
Rony, cheio de peru e bolo e sem nenhum mistro para perturb-lo, caiu no sono assim que puxou as
cortinas de sua cama de
dossel. Harry debruou-se pela borda da cama e puxou a capa que
escondera ali.
Do seu pai... aquilo fora do seu pai. Ele deixou o tecido escorregar pelas mos, mais macio do que seda, leve como o ar.
Use-a bem, dissera o carto.
Tinha de experiment-la agora. E saiu da cama e se enrolou
na capa. Olhando para as pernas, viu apenas o luar e as sombras.
Era uma sensao muito engraada.
Use-a bem.
De repente, Harry se sentiu completamente acordado. Toda a
Hogwarts se abria para ele com esta capa. Sentiu-se tomado de excitao
em p ali na escurido silenciosa. Podia r a qualquer lugar
com a capa, qualquer lugar, e Filch jamais saberia.
Rony resmungou adormecido. Ser que Harry devia acord-lo?
Alguma coisa o deteve - a capa do seu pai - , sentiu que desta
vez - a primeira - queria us-la sozinho.
E saiu sorrateiro do dormitxio, desceu as escadas, atravessou
a sala comunal e passou pelo buraco do retrato.
- Quem est a? - perguntou esganiada a Mulher Gorda.
Harry no respondeu. Saiu deproressa pelo corredor.
Onde deveria ir? Parou, o corao acelerado, e pensou. E ento
lhe ocorreu. A seo reservada na biblioteca. Poderia ler o
tempo que quisesse, o tempo que precisasse para descobrir
quem era Flamel. Foi, ento, puxando a capa para bem junto do
corpo ao andar.
A biblioteca estava escura como breu e muito estranha. Harry p
acendeu uma luz para enxergar o caminho entre as fileiras de livros.
A lmpada parecia que estava flutuando no ar, e embora
Harry sentisse que seu brao a sustentava, aquela viso lhe deu
arrepios.
A seo reservada era bem no fundo da biblioteca. Saltando
com cautela a corda que separava esses livros do resto da biblioteca, ele ergaeu a lmpada para ler os ttulos.
Eles no lhe informavam muita coisa. Suas letras descascadas e
esmaecidas formavam dizeres em lnguas que Harry no entendia.
Alguns sequer tinham ttulo. Um livro tinha uma mancha escura
que fazia lembrar horrivelmente de sangue. Os plos na nuca de
Harry ficaram em p. Talvez fosse imaginao dele, talvez no, mas
achou que ouvia um sussurro inaudvel vindo dos livros, como se
eles soubessem que havia algum ali que no deveria estar.
Precisava comear por alguma parte. Pousando com cuidado
a lmpada no cho, ele procurou na prateleira mais baixa um livro
que parecesse interessante. Um grande volume preto e prata chamou sua ateno. Puxou-o com esforo, porque era muito pesado,
e equilibrando-o nos joelhos, deixou-o abrir ao acaso.
Um grito agudo de coalhar o sangue cortou o silncio - o livro est gritando! Harry fechou-o depressa, mas o grito no parou,
uma nota alta, contnua, de furar os tmpanos. Ele tropeou
para trs e derrubou a lmpada, que se apagou na mesma hora.
Em pnico, ouviu passos que vinham pelo corredor do lado de
fora - enfiando o livro gritador de qualquer jeito no lugar, ele correu para valer. Passou por Filch quase  porta. Os olhos claros e
arregalados de Filch atravessaram-no, Harry escorregou por
debaixo dos seus braos estendidos e saiu desabalado pelo corredor,
os gritos do livro ainda ecoando em seus ouvidos.
Parou subitamente diante de uma alta armadura. Estivera to
ocupado em fugir da biblioteca que no prestara ateno aonde
estava indo. Talvez porque estivesse escuro, ele sequer reconheceu onde se encontrava.
Havia uma armadura perto das cozinhas,
ele sabia, mas ele devia estar uns cinco andares acima.
- O senhor me pediu para eu vir direto ao senhor, professor,
se algum estivesse perambulando durante a noite e algum esteve na biblioteca, na seo
reservada.
Harry sentiu o sangue se esvair do seu rosto. Onde quer que
estivesse, Filch devia conhecer um atalho, porque sua voz baixa e
untuosa estava se aproximando, e para seu horror, foi Snape
quem respondeu:
- A seo reservadap Bom, eles no podem estar longe, vamos apanh-los.
Harry ficou imvel no lugar em que estava quando Filch e
Snape viraram o canto do corredor  frente. Eles no podiam v-
lo,  claro, mas era um corredor estreito e se chegassem mais perto
esbarrariam nele - a capa no o impedia de ser slido.
,Recuou o mais silenciosamente que pde. Havia uma porta
entreaberta  sua esquerda. Era sua nica esperana. Esgueirou-se
por ela, prendendo a respirao, tentando no empurr-la e, para
seu alivio, conseguiu entrar no aposento sem que percebessem
nada. Eles passaram direto e Harry apoiou-se na parede, respirando
profundamente, ouvindo os passos dos dois morrerem a distncia.
Fora por pouco, por um triz. Passaram-se alguns segundos
t ele reparar em alguma coisa no aposento em que se escondera.
Parecia uma sala de aula fechada. Os vultos escuros das mesas
e cadeiras se amontoavam contra as paredes e havia uma cesta de
papis virada - mas escorada na parede  sua frente havia uma
coisa que no parecia pertencer ao lugar, alguma coisa que parecia
que algum acabara de pr ali para tir-la do caminho.
Era um magnfico espelho, da altura do teto, com uma moldura
de talha dourada, aprumado sobre dois ps em garra. Havia
uma inscrio entalhada no alto: Ojesed stra ehru oyt ube cafru
oyr on wohsi.
J livre do pnico, agora que no ouvia sinal de Filch e Snape,
Harry aproximou-se do espelho, querendo mirar-se sem ver nenhuma imagem como antes. Adiantou-se para o espelho.
Teve de levar as mos  boca para no gritar. Virou-se. Seu corao batia com muito mais fria do que quando o livro gritara -
porque no vira somente a prpria imagem no espelho, mas a de
uma verdadeira multido por trs dele.
 Mas o quarto estava vazio. Respirando muito depressa, ele se
virou lentamente para o espelho.
L estava ele, refletido, parecendo branco e assustado, e l estavam, refletidos s suas costas, pelo menos outras dez pessoas.
Harry espiou por cima do ombro - mas continuava a no haver
ningum mais. Ou ser que eram todos invisveis tambm? Ser
que estava de fato em um aposento cheio de gente invisvel e o
truque desse espelho  que ele refletia tudo, invisvel ou no?
Olhou para o espelho outra vez. Uma mulher parada logo
atrs de sua imagem sorria e lhe acenava. Ele esticou a mo e sentiu
o ar atrs dele. Se ela estivesse realmente ali, ele a tocaria, pois
suas imagens estavam muito prximas, mas ele pegou apenas ar -
ela e os outros s existiam no espelho.
Era uma mulher muito bonita. Tinha cabelos acaju e os olhos
- os olhos so iguaizinhos aos meus, Harry pensou, acercando-se
um pouco mais do espelho. Verde-vivo - exatamente do mesmo
formato, mas ento reparou que ela estava chorando, sorrindo,
mas chorando ao mesmo tempo. O homem alto, magro, de cabelos negros, parado ao lado dela abraou-a. Usava culos e seu
cabelo era muito rebelde. Espetava na parte de trs, como o de Harry
Harry estava to perto do espelho agora que seu nariz quase
encostava em sua imagem.
- Mame? - murmurou. - Papai?
Eles apenas olharam para ele, sorrindo, e lentamente Harry
olhou para os rostos das outras pessoas no espelho e viu outros
pares de olhos verdes iguais ao seus, outros narizes como o seu,
at mesmo um velhote que parecia ter os mesmos joelhos ossudos que ele - Harry estava olhando para sua famlia, pela primeira
vez na vida.
Os Potter sorriram e acenaram para Harry e ele retribuiu o
olhar, carente, as mos comprimindo o espelho como se esperasse
entrar por dentro dele e alcan-los. Sentiu uma dor muito forte no peito, em que se misturavam a alegria e
uma terrvel tristeza.
Quanto tempo esteve parado ali, ele no sabia. As imagens
no esmaeceram e ele continuou mirando-as at que um rudo
distante o trouxe de volta ao presente. No podia ficar ali, tinha de
encontrar o caminho de volta para a cama. Com esforo, desviou
os olhos do rosto de sua me, sussurrando "Eu volto" e saiu depreSSa
do aposento.
- Voc podia ter me acordado - falou Rony, aborrecido.
- Voc pode vir hoje  noite. Vou voltar, quero lhe mostrar o
espelho.
- Eu gostaria de ver sua me e seu pai- disse Rony, animado.
- E eu quero ver toda a sua famlia, todos os Weasley; voc vai
poder me mostrar os seus outros irmos e todo o mundo.
- Voc pode v-los a qualquer hora.  s vir  minha casa
neste vero. Em todo o caso, talvez o espelho s mostre gente
morta. Mas  uma pena voc no ter achado o Flamel. Coma um
pouco de bacon ou outra coisa qualquer, por que  que voc no
est comendo nada?
Harry no conseguia comer. Vira os pais e iria v-los de novo
 noite. Quase se esquecera de Flamel. J no lhe parecia to importante. Quem ligava para o que o cachorro de trs cabeas estava
guardando? Quem ligava realmente que Snape fosse roubar a
coisa?
- Voc est bemr - perguntou Rony. - Est com uma cara
to estranha.
O que Harry mais temia era no conseguir encontrar o aposento
do espelho outra vez. Com Rony coberto pela capa tambm, eles
tiveram de andar muito mais devagar na noite seguillte. Tentaram
refazer o caminho de Harry- ap sair da biblioteca, andando a esmo
pelos corredores escuros durante quase uma hora.
- Estou falando - disse Rony. - Vamos esquecer tudo e voltar.
- No! - sibilou Harry. - Sei que  em algum lugar por aqui.
passaram oelo fantasma de uma bruxa alta que deslizava na
direo oposta, mas no viram mais ningum. Na hora em que
Rony comeou a reclamar que seus ps estavam dormentes de
frio, Harry encontrou a armadura.
-  aqui... logo aqui... .
Eles empurraram a porta. Harry deixou cair a capa dos ombros
e correu para o espelho.
L estavam eles. Sua me e seu pai sorriram ao v-lo.
- Est vendo? - Harry cochichou.
- No consigo ver nada.
- Olhe! Olhe eles todos... ali, montes deles...
- S consigo ver voc.
- Olhe direito, vamos, fique aqui onde eu estou.
Harry deu um passo para o lado, mas com Rony diante do espelho,
no conseguiu mais ver sua famlia, apenas Rony com o seu
pijama de l escocesa.
Rony, porm, estava mirando a prpria imagem, petrificado.
- Olhe s para mim! - exclamou.
- Voc est vendo toda a sua famlia  sua volta?
- No, estou sozinho, mas estou diferente... pareo mais velho, e sou chefe dos monitores.
- O qu?
- Estou... estou usando um crach igual ao do Gui... e estou
segurando a taa das casas e a taa de quadribol, sou capito do
time de quadribol tambm!
Rony despregou os olhos dessa viso magnfica para olhar excitado para Harry.
- Voc acha que esse espelho mostra o futuro?
- Como pode mostrar? A minha familia est toda morta. Me
deixe dar outra espiada.
- Voc teve o espelho s para voc a noite passada, me deixa
olhar mais um pouco.
- Voc s est segurando a taa de quadribol, que interesse
tem isso? Eu quero ver os meus pais.
- No me empurre...
Um rudo repentino do lado de fora no corredor ps fim 
discusso dos dois. No tinham se dado conta do como estavam
falando alto.
- Depressa!
Rony atirou a capa de volta para cobri-los na hora que os
olhos luminosos de Madame Nor-r-ra apareceram  porta. Rony
e Harry ficaram imveis, ambos pensando a mesma coisa - ser
que a capa fazia efeito para os gatos? Passado um tempo que pareceu
uma eternidade, ela se virou e foi embora.
- Isto  perigoso. Ela pode ter ido buscar o Filch, aposto que
nos ouviu. Vamos.
E Rony puxou Harry para fora do quarto.
A neve ainda no derretera na manh seguinte.
- Quer jogar xadrez, Harryp - convidou Rony.
- No.
-Por que no descemos para visitar Rbeo?
- No... vai voc...
- Sei o que  que voc est pensando, Harry, naquele espelho.
No volte l hoje  noite.
- Por que no?
-No sei, estou com uma intuio ruim, e de qualquer forma
voc j escapou por um triz muitas vezes, demais. Filch, Snape e
Madame Nor-r-ra esto andando por l. E da se eles no conseguem
ver voc? E se esbarrarem em voc? E se voc derrubar alguma coisa?
- Voc est falando igual  Hermione.
- Estou falando srio, Harry, no vai no.
Mas Harry s tinha um pensamento na cabea, voltar para a
frente do espelho, e Rony no ia det-lo.
Naquela terceira noite ele encontrou o caminho ainda mais rapidamente do que nas anteriores. Andava to depressa que sabia
que estava fazendo mais barulho do que seria sensato, mas no
encontrou ningum.
E l estavam sua me e seu pai sorrindo de novo para ele, e
um dos seus avs acenava feliz com a cabea. Harry se abaixou
para sentar no cho diante do espelho. No havia nada que pudesse
impedi-lo de ficar ali a noite inteira com a famlia. Nada.
A no ser...
- Ento, outra vez aqui, Harry?
Harry sentiu como se suas tripas tivessem congelado. Olhou
para trs. Sentado em uma das mesas junto  parede estava ningum
menos que Alvo Dumbledore. Harry devia ter passado direto
por ele; to desesperado estava para chegar ao espelho, que
nem reparara.
- Eu... eu no vi o senhor.
-  estranho como voc pode ficar mope quando est invisvel
- disse Dumbledore, e Harry sentiu alivio ao ver que ele
sorria.
- Ento - continuou Dumbledore, escorregando da cadeira.
at o cho para se sentar ao lado de Harry -, voc, como centenas
antes de voc, descobriu os prazeres do Espelho de Ojesed.
- Eu no sabia que se chamava assim, professor.
- Mas espero que a essa altura voc j tenha pexcebido o que
ele fazz .
- Bom... me mostra a minha famlia...
- E mostrou o seu amigo Rony como chefe dos monitores.
- Como  que o senhor soube?
- Eu no preciso de uma capa para me tornar invisvel - disse
Dumbledore com brandura. - Agora, voc  capaz de concluir
o que  que o Espelho de Ojesed mostra a ns todos?
Harry sacudiu negativamente a cabea.
- Deixe-me explicar. O homem mais feliz do mundo poderia
usar o Espelho de Ojesed como um espelho normal, ou seja, ele
olharia e se veria exatamente como . Isso o ajuda a pensar?
Harry pensou. Ento respondeu lentamente:
- Ele nos mostra o que desejamos... seja o que for que desejemos...
- Sim e no - disse Dumbledore. - Mostra-nos nada mais
nem menos do que o desejo mais ntimo, mais desesperado de
nossos coraes. Voc, que nunca conheceu sua famlia, a v de
bem  sua volta. Ronaldo Weasley, que sempre teve os irmos a lhe
fazerem sombra, v-se sozinho, melhor que todos os irmos. Porm,
o espelho no nos d nem o conhecimento nem a verdade.
J houve homens que definharam diante dele, fascinados pelo que
viram, ou enlouqueceram sem saber se o que o espelho mostrava
era real ou sequer possvel.
"O espelho vai ser levado para uma nova casa amanh, Harry,
e peo que voc no volte a procur-lo. Se algum dia o encontrar,
estar preparado. No faz bem viver sonhando e se esquecer de
viver, lembre-se. E agora, por que voc no pe essa capa admirvel
outra vez e vai dormir?"
Harry se levantou.
- Senhor, Prof. Dumbledore? Posso lhe perguntar uma coisa?
- Obviamente voc acabou de me perguntar - sorriu Dumbledore.
- Mas pode me perguntar mais uma coisa.
- O que  que o senhor v quando se olha no espelho?
- Eu? Eu me vejo segurando um par de grossas meias de l.
Harry arregalou os olhos.
- As meias nunca so suficientes. Mais um Natal chegou e
passou e no ganhei nem um par. As pessoas insistem em me
dar livros.
Foi somente quando estava de volta  cama que ocorreu a
Harry que talvez Dumbledore no tivesse dito a verdade. Mas,
pensou, enquanto empurrava Pereba para longe do seu travesseiro,
fizera uma pergunta muito pessoal.


- CAPTULO TREZE -
Nicolau Flapel

Dumbledore convencera Harry a no tornar a procurar o Espelho de Ojesed, e durante o resto das frias de Natal a capa da
invisibilidade permaneceu guardada no fundo do ba. Harry gostaria
de poder esquecer o que vira no espelho com a mesma facilidade, mas no conseguiu. Comeou a ter pesadelos. Sonhava
repetidamente com os pais desaparecendo em um relmpago de luz
verde enquanto uma voz esganiada gargalhava. .
- Est vendo? Dumbledore tinha razo, aquele espelho podia deixar voc maluco - disse Rony, quando Harry lhe contou
os sonhos.
Hermione, que voltou um dia antes do perodo letivo comear, viu as coisas de outro modo. Estava dilacerada entre o horror
de pensar em Harry fora da cama, perambulando pela escola trs
noites seguidas ("E se Filch tivesse te apanhado!") e o desapon tamento
que ele no tivesse ao menos descoberto quem era Nicolau Flamel.
Quase perdera as esperanas de encontrar Flamel em um livro da biblioteca, embora Harry tivesse certeza de que lera o
nome em algum lugar. Quando o novo perodo letivo comeou,
eles voltaram a folhear os livros durante os dez minutos de intervalo entre as aulas. Harry tinha ainda menos tempo do que os
outros dois, porque o treino de quadribol recomeara.
Olivio estava puxando pelo time como nunca fizera antes.
At mesmo as chuvas interminveis que substituram as nevadas
no conseguiam esmorecer a sua animao. Os Weasley reclamavam que Olivio estava se tornando fantico, mas Harry o apoiava.
Se ganhassem a prxima partida, contra Lufa-lufa, passariam 
frente da Sonserina no campeonato das casas pela primeira vez
em sete anos. Alm do desejo de ganhar, Harry descobriu que tinha menos pesadelos quando voltava exausto dos treinos.
Ento, durante um treino particularmente chuvoso e enlameado, Olivio deu uma notcia ruim ao time. Acabara de se
enfurecer com os Weasley, que davam mergulhos violentos um sobre
o outro e fingiam cair das vassouras.
- Vocs querem parar de se comportar feito bobos! - berrou.
- Isso  o tipo de atitude que vai fazer a gente perder o jogo!
Snape vai apitar dessa vez e vai procurar qualquer desculpa para
tirar pontos da Grifinria!
Jorge Weasley realmente caiu da vassoura ao ouvir isso.
- Snape vai apitar o jogop - perguntou embolando as palavras
com a boca cheia de lama. - Quando foi na vida que ele apitou um
jogo de quadribol? Ele no vai ser imparcial se tivermos chance
de passar  frente de Sonserina.
O resto do time pousou ao lado de Jorge para reclamar tambm.
- A culpa no  minha - disse Olivio. - Ns  que vamos ter
de nos cuidar e jogar uma partida limpa, para no dar a Snape desculpa para implicar conosco.
Estava tudo muito bem, pensou Harry, mas ele tinha outra razo para no querer Snape por perto quando estivesse jogando
quadribol...
Os outros jogadores se demoraram conversando no final do
treino como sempre faziam, mas Harry rumou direto para a sala
comunal de Grifinria, onde encontrou Rony e Hermione jogando xadrez. Xadrez era a
nica coisa em que Hermione
perdia, uma experincia que Rony e Harry achavam que lhe fazia
muito bem.
- No fale comigo agora - pediu Rony quando Harry se sentou ao seu lado. - Preciso me concentrar. -A viu a cara de
Hary
- Que aconteceu com voc? Est com uma cara horrivel.
Falando baixinho para ningum mais ouvir, Harry contou aos
dois o desejo sinistro e sbito de Snape de ser juiz de quadribol.
- No jogue - disse Hermione na mesma hora.
- Diga que est doente - aconselhou Rony.
- Finja que quebrou a perna - sugeriu Hermione.
-Quebre a perna de verdade -insistiu Rony.
- No posso - respondeu Harry - No temos apanhador de
reserva. Se eu fujo, Grifinria no vai poder jogar.
Naquele momento, Neville entrou aos tombos na sala comunal. Como conseguira passar pelo buraco do retrato ningum
sabia, porque tinha as pernas grudadas pelo que eles 
imediatamente reconheceram ser o Feitio da Perna Presa. Devia ter precisado andar aos pulos como um coelho at a torre de Grifinria.
Todo o mundo caiu na gargalhada menos Hermione, que ficou em p de um salto e fez o contrafeitio. As pernas de Neville
se separaram e ele se endireitou, tremendo.
- Que aconteceu? - perguntou Hermione, levando-o para se
sentar com Harry e Rony.
- Malfoy- disse Neville com a voz trmula. - Encontrei-o na
sada da biblioteca. Ele disse que estava procurando algum em
quem praticar o feitio.
- V procurar a Profa. Minerva! - insistiu Hermione. - D
parte dele!
Neville sacudiu a cabea.
- No quero mais confuso - murmurou.
- Voc tem de enfrent-lo, Neville! - disse Rony - Ele est
acostumado a pisar nas pessoas, mas no h razo para voc se
deitar aos ps dele para facilitar.
-No precisa me dizer que no sou bastante corajoso para pertencer  Grifinria. Drago j fez isso - disse Neville engasgado.
Harry apalpou o bolso de suas vestes e tirou um sapo de chocolate, o ltimo da caixa que Hermione lhe dera no Natal. Deu-o
a Neville, que estava com cara de quem ia chorar.
- Voc vale doze Dragos - disse Harry. - O Chapu da Seleo escolheu voc para Grifinria, no foi? E onde est Dragop
Naquela Sonserina nojenta.
A boca de Neville se contraiu num sorrisinho enquanto desembrulhava o sapo.
- Obrigado, Harry... Acho que vou para a cama... Voc quer
o carto, voc coleciona, no ?
Quando Neville se afastou, Harry olhou para o carto de Bruxo Famoso.
- Dumbledore outra vez. Ele foi o primeiro que...
E soltou uma exclamao. Olhou para o verso do carto. Em
seguida olhou para Rony e Hermione.
- Encontrei!- murmutou. - Encontrei Flamel! Eu disse a vocs
que tinha lido o nome dele em algum lugar. Li-o no trem a caminho daqui. Escutem s isso: O Prof. Dumbledore particularmente
famosopor ter derrotado Grindelwald, o bruxo das Trevas, em 1945, e ter
descoberto os doze usos do sangue de drago, e por desenvolver um trabalho de
alquimia emparceria com Nicolau Flamel.
Hermione ficou em p de um salto. No parecia to animada desde que eles tinham recebido as notas do primeiro
dever de casa.
- No saiam daqui! - disse e saiu escada acima em direo
aos dormitrios das meninas. Harry e Rony mal tiveram tempo de
trocar um olhar intrigado e ela j estava correndo de volta, com
um enorme livro velho nos braos.
- Nunca pensei em olhar aqui - falou excitada. - Tirei-o da
biblioteca h semanas para me distrair um pouco.
-Distrair?- admirou-se Rony, mas Hermione mandou-o ficar
quieto, enquanto procurava alguma coisa e comeou a folhear as
pginas do livro, ansiosa, resmungando para si mesma.
Finalmente encontrou o que procurava.
- Eu sabia! Eu sabia!
- J podemos falar? - perguntou Rony de mau humor.
Hermione no lhe deu resposta.
- Nicolau Flamel - sussurrou ela teatralmente - , ao que se
sabe, a nica pessoa que produziu a Pedra Filosofal.
A frase no teve bem o efeito que ela esperava.
- A o qu? - exclamaram Harry e Rony.
-Ah, francamente, vocs dois no lem? Olhem, leiam isso
aqui.
Ela empurrou o livro para os dois, que leram:
O antigo estudo da alquimiapreocupava-se com a produo da
Pedra Filosofal, uma substncia lendria compoderes fantsticos.
A pedra pode transformar qualquer metal em ouro puro. Produz
tambm o Elixir da Vida, que torna quem o bebe imortal.
Falou-se muito da Pedra Filosofal durante sculos, mas a
nica Pedra que existe presentemente pertence ao Sr. Nicolau
Flamel, o famoso alquimista e amante da pera. O Sr. Flamel,
que comemorou o seu sexcentsimo sexagsimo quinto aniversrio
no ano passado, leva uma vida tranqila em Devon, com sua
mulher, Perenelle (seiscentos e cinqenta e oito anos).
- Viram? - disse Hermione, quando Harry e Rony terminaram. - O cachorro deve estar guardando a Pedra Filosofal de
Flamel! Aposto que ele pediu a Dumbledore que a guardasse em
segurana, porque so amigos e ele sabia que algum andava atrs
dela, esse  o motivo por que Dumbledore quis transferir a pedra
de Gringotes.
- Uma pedra que produz ouro e no deixa a gente morrer! -
exclamou Harry. - No admira que Snape ande atrs dela! Qualquer um andaria.
- E no admira que no consegussemos encontrar Flamel
em Estudos dos avanos recentes em magia - disse Rony. - Ele no 
bem recente, se j fez seiscentos e sessenta e cinco anos, no 
mesmo?
Na manh seguinte, na sala de Defesa Contra a Magia Negra,
enquanto copiavam as diferentes maneiras de tratar mordidas de
lobisomem, Harry e Rony continuavam a discutir o que fariam
com uma Pedra Filosofal se tivessem uma. Somente quando Rony
disse que compraria o prprio time de quadribol foi que Harry se
lembrou de Snape e da partida que se aproximava.
- Eu vou jogar - disse a Rony e Hermione. - Se no fizer
isso, o pessoal de Sonserina vai pensar que tenho medo de encarar Snape. Vou mostrar a eles... vamos tirar aquele sorriso da cara
deles se vencermos.
- Desde que a gente no acabe tirando voc da quadra - disse
Hermione.
 medida que a partida se aproximava, porm, Harry foi ficando
cada vez mais nervoso, mesmo que negasse isso para Rony e
Hermione. O resto do time tambm no estava to calmo assim.
A idia de passar  frente de Sonserina no campeonato das casas
era maravilhosa, ningam fazia isso havia quase sete anos, mas
ser que conseguiriam, com um juiz to parcial?
Harry no sabia se estava ou no imaginando, mas parecia estar sempre encontrando Snape por todo lugar em que ia. s
vezes, ele at se perguntava se Snape no o estaria seguindo, tentando
apanh-lo sozinho. As aulas de Poes estavam se transformando numa espcie de
tortura semanal. De to ruim que Snape
era com Harry! Seria possvel que Snape tivesse descoberto que
os meninos haviam lido sobre a Pedra Filosofal? Harry no imaginava
como; no entanto, por vezes tinha a horrvel sensao de
que Snape podia ler pensamentos.
Harry sabia que, quando lhe desejassem boa sorte  porta do vestirio na tarde seguinte, Rony e Hermione estariam se
perguntando se o veriam vivo outra vez. Isto no era o que se poderia
chamar de consolo. Harry mal ouviu uma palavra da conversa de
Olivio para animar os jogadores enquanto vestia o uniforme de
quadribol e apanhava sua Nimbus 2000.
Entrementes, Rony e Hermione tinham encontrado um lugar
nas arquibancadas junto a Neville, que no conseguia entender
por que eles estavam to srios e tampouco por que haviam trazido as varinhas para o jogo. Mal sabia Harry que Rony e Hermione
tinham andado praticando secretamente o Feitio das Pernas Presas. Tinham tido essa idia ao verem Drago us-lo contra Neville
e estavam preparados para us-lo contra Snape se ele desse o menor sinal de querer machucar Harry.
- Agora no esquea,  Locomotor Mortis - cochichou
Hermione enquanto Rony escondia a varinha na manga.
- Eu sei - Rony respondeu com maus modos. - No chateia.
Mas no vestirio, Olivio puxara Harry para um lado.
- No quero pression-lo, Potter, mas se h um dia em que
precisamos agarrar o pomo logo de sada  hoje. Terrnine o jogo
antes que Snape possa favorecer Lufa-lufa demais.
- A escola inteira est l fora! - disse Fred Wesley, espiando
para fora da porta. - At mesmo, putz, Dumbledore veio
assistir!
O corao de Harry deu um salto.
- Dumbledore?- disse, correndo at a porta para se certificar. Fred tinha razo. No havia como confundir aquela barba
prateada.
Harry poderia ter dado uma grande gargalhada de alivio. Estava seguro. Simplesmente no havia jeito de Snapc ousar
machuc-lo se Diunbledore cstivesse assistindo.
Talvez fosse por isso que Snape estava com a cara to zangada na hora em que os times entraram em campo, uma coisa em
que Rony tambm rcparou.
- Nunca vi Snape com uma cara to feia - disse a Hermione.
- Olhe, comeou. Ai!
Algum cutucara Ronyp na cabea. Era Drago.
- Ah, desculpe, Weasley, no vi voc a.
Drago deu um largo sorriso para Crabbe e Joyle.
- Quanto tempo ser que Potter vai se agentar na vassoura
desta vez? Agum quer apostar? E voc, Weasleyp?
Rony no respondeu; Snape acabara de aplicar uma penalidade na Grifinria porque Jorge
Weasley mandara um balao nele.
Hcrtnione, que mantinha todos os dedos cruzados no colo, apertava os olhos
fixos em Harry, que circulava sobre os jogadores
como um  falco, a procura do pomo.
- Sabe como eu acho que eles escolhem jogadores para o titne
da Grifinria? - disse Drago bem alto alguns minutos depois,
quando Snape aplicou nova penalidade em Grifinria sem a menor
razo. - Escolhem as pessoas que do pena. V s, o Potter, que
no tem pais, depois os Weasley, que no tm dinheiro. Voc. tambm
dveria estar no time, Longbottom, voc no tem miolos.
Neville ficou muito vermelho, mas se virou para encarar
Drago.
- Eu valho doze Dragos, Malfoy- gaguejou ele.
Drago, Crabbe e Goyle rolaram de rir, mas Rony, que continuava sem coragem de despregar os olhos do jogo, disse:
- Isso mesmo, responda a ele, Neville.
-Longbottom, se miolos fossem ouro, voc seria mais pobre
do que Weasley, e isso j  muita coisa.
Os nervos de Rony j estavam esticados ao mximo de tanta
preocupao com o Harry.
- Estou lhe avisando, Drago... mais uma palavra...
- Rony! - disse Hermione de repente. - Harry!
- Qu? Onde?
Harry inesperadamente dera um mergulho espetacular, que
provocou exclamaes e vivas da torcida. Hermione se levantou,
os dedos cruzados na boca, enquanto Harry voava para o cho
como uma bala.
- Voc est com sorte, Weasley, Potter com certeza localizou
dinheiro no cho! - disse Drago.
Rony reagiu. Antes que Drago soubesse o que estava acontecendo,
Rony partiu para cima dele e o derrubou no cho. Neville
hesitou, depois pulou o encosto da cadeira para ajudar.
- Vamos, Harry! - Hermione gritou, pulando em cima da cadeira para observar Harry se
precipitar na direo de Snape, ela
nem sequer reparou que Drago e Rony estavam embolados embaixo
de sua cadeira, nem nos ps arrastados e gritos que saam do
redemoinho de socos que era Neville, Cxabbe e Goyle.
No alto, Snape virou na vassoura bem em tempo de ver uma
coisa vermelha passar veloz por ele, deixando de atingi-lo por
centmetros - e no segundo seguinte, Harry saa do mergulho, o
brao erguido em triunfo, o pomo seguro na mo.
As arquibancadas explodiram; tinha que ser um recorde,
ningum era capaz de lembrar do pomo ter sido agarrado to
depressa.
- Rony! Rony! Cad voc? A partida terminou! Harry ganhou! Ns ganhamos! Grifinria est na frente! - gritava
Hermione, danando da cadeira para o cho e dali para a cadeira e se
abraando com Parvati na fileira da frente. 
Harry saltou da vassoura antes de chegar ao solo. No conseguia acreditar. Agarrara - o jogo terminou, nem chegara a
durar
cinco minutos. Quando Grifinria invadiu o campo, ele viu Snape
pousar ali perto, a cara branca e os lbios contrados - depois
Harry sentiu uma mo no seu ombro, ergueu a cabea e deparou
com o rosto sorridente de Dumbledore.
- Muito bem - disse Dumbledore baixinho, de modo que somente Harry pudesse ouvir. - Que bom ver que voc no ficou
pensando naquele espelho... manteve-se ocupado... excelente...
Snape cuspiu com amargura no cho.
Harry deixou o vestirio sozinho algum tempo depois, para levar
sua Nimbus 2000 de volta  garagem. No se lembrava de ter se
sentido mais feliz. Realmente fizera agora uma coisa de que poderia se orgulhar - ningum poderia mais dizer que ele era apenas
um nome famoso. O ar da noite nunca lhe parecera mais gostoso.
Caminhou pela grama mida, revivendo mentalmente a ltima
hora, que era um borro de felicidade: Grifinria correndo para
ergu-lo nos ombros; Rony e Hermione a distncia, pulando de
alegria, Rony dando vivas com o nariz escorrendo sangue.
Harry chegara  garagem. Recostou-se na porta de madeira e
contemplou Hogwarts, com suas janelas avermelhadas pelo sol
poente. Grifinria na liderana. Ele conseguira, mostrara a
Snape...
E por falar em Snape...
Uma figura encapuzada descia rapidamente os degraus de entrada do castelo. Sem dvida no queria ser vista, andava o mais
depressa que podia em direo  floresta proibida. A vitria de
Harry se apagou de sua mente enquanto o observava.
Reconheceu o andar predador da figura. Snape, escapulindo at a floresta
enquanto todos jantavam - que estava acontecendo?
Harry tornou a montar a Nimbus 2000 e levantou vo. Planando silenciosamente
sobre o castelo, viu Snape entrar na
floresta correndo. Seguiu-o.
As rvores eram to juntas que ele no conseguia ver aonde
fora Snape. Voou em crculos cada vez mais baixos, roando a
copa das rvores at que ouviu vozes. Planou em direo a elas e
pousou, sem rudo, em uma alta btula.
Subiu com cuidado em um dos ramos, segurando-se firme na
vassoura, tentando espiar por entre as folhas.
Embaixo, na clareira sombria, estava Snape, mas no estava
sozinho. Quirrell estava com ele. Harry no conseguiu distinguir a
expresso no seu rosto, mas a gagueira estava pior que nunca.
Harry apurou o ouvido para entender o que conversavam.
... no sei por que voc quis se encontrar logo aqui, Severo...
- Ah, quis manter o encontro sigiloso - disse Snape, a voz
glida. - Afinal os alunos no devem saber sobre a Pedra Filosofal.
Harry se curvou para a frente. Quirrell balbuciou alguma coisa. Snape interrompeu-o.
- Voc j descobriu como passar por aquela fera do Hagrid?
- M-m-mas, Severo, eu...
- Voc no quer que eu seja seu inimigo, Quirrell - ameaou
Snape, dando um passo em direo a ele.
- N-n-no sei o que voc...
- Voc sabe perfeitamente o que quero dizer.
Uma coruja piou alto e Harry quase caiu da rvore. Firmou-se em tempo de ouvir Snape dizer:
- ... as suas mgicas de araque. Estou esperando.
- M-mas eu n-n-no...
- Muito bem - interrompeu-o Snape. - Vamos ter outra
conversinha em breve, quando voc tiver tido tempo de pensar
nas coisas e decidir com quem est a sua lealdade.
E jogando a capa por cima da cabea saiu da clareira. Estava
quase escuro agora, mas Harry pde discernir Quirrell, parado
muito quieto como se estivesse petrificado.
- Harry, onde  que voc esteve? -perguntou Hermione com a voz
esganiada.
- Vencemos! Voc venceu! Ns vencemos! - gritou Rony, 
dando palmadas nas costas de Harry. - E deixei o olho de Drago
roxo e Neville tentou enfrentar Crabbe e Goyle sozinho! Ainda
est desacordado mas Madame Pomfrey diz que ele vai ficar bom.
Isso  que  mostraY a Sonserina! Todos esto esperando voc na
sala comunal, estamos dando uma festa, Fred e Jorge roubaram
uns bolos e outras coisinhas nas cozinhas.
- Deixem isso para l agora - disse Harry, sem flego. - Vamos procurar uma sala vazia, esperem at ouvirem isso...
Ele verificou se Pirraa no estava na sala antes de fechar a
porta, depois contou aos amigos o que vira e ouvira.
- Ento tnhamos razo,  a Pedra Filosofal e Snape est tentando
obrigar Quirrell a ajud-lo a roubar. Ele perguntou se o outro sabia como passar por Fofo, e falou alguma coisa sobre as
magiquinhas de Quirrell. Imagino que haja outras coisas protegendo
a pedra alm de Fofo, uma poro de feitios, provavelmente, e Quirrell deve ter feito algum contrafeitio de que Snape
precisa para entrar...
- Voc quer dizer que a Pedra s est segura enquanto Quirrell resistir a Snape? -perguntou Hermione alarmada.
- Tera-feira ela ter desaparecido - disse Rony.


- CAPTULO CATORZE
Norberto, o drago noruegu.s

Quirrell, no entanto, deve ter sido muito mais corajoso do que
eles pensaram. Nas semanas seguintes ele pareceu estar ficando
mais plido e mais magro, mas no parecia ter cedido.
Todas as vezes que os meninos passavam pelo corredor do
terceiro andar, Harry, Rony e Hermione encostavam as orelhas na
porta para verificar se Fofo continuava a rosnar l dentro. Snape
levava a vida no seu habitual mau humor, o que com certeza significava que a
Pedra continuava a salvo. Sempre que Haxxy passava
por Quirrell nesses ltimos dias dava-lhe um sorriso como a
encoraj-lo, e Rony comeara a censurar as pessoas que riam da
gagueira de Quirrell.
Hermione, no entanto, tinha mais no que pensar do que na
Pedra Filosofal. Comeara a programar suas revises e a marcar
em cores suas anotaes de aula para classific-las. Harry e Rony
no teriam se importado com isso, mas ela no parava de chate-
los para fazexer o mesmo.
- Hermione, os exames esto a sculos de distncia.
- Dez semanas - retorquiu Hermione. - No so sculos, 
como um segundo para Nicolau Flamel.
- Mas ns no temos seiscentos anos - lembrou-lhe Rony. -
Em todo o caso, o que  que voc est revisando se j sabe tudo?
- Que  que estou revisando? Vocs ficaram malucos? Vocs
j perceberam que prorecisamos passar nesses exames para chegar
ao segundo ano? Eles so muito importantes, eu deveria ter comeado
a estudar h um ms, no sei o que deu em mim...
Infelizmente, os prorofessores pareciam estar pensando da
mesma maneira que Hermione. Passaram tantos deveres de casa
que as frias da Pscoa no foram to divertidas quanto as de Natal.
Ficou dificil se descontrair com Hermione ao lado, recitando
os doze usos do sangue de drago ou praticando movimentos
com a varinha. Aos gemidos e bocejos, Harry e Rony passaram a
maior parte do tempo livre com ela, na biblioteca, tentando dar
conta de todos os deveres extras.
- Eu nunca vou me lembrar disso - desabafou Rony uma tarde, largando a pena de escrever na mesa e olhando desejoso pela
janela da biblioteca. Era na realidade o primeiro dia bonito que
tinham em meses. O cu estava claro, azul-miostis e havia uma expectativa de vero no ar.
Harry, que estava procurando o verbete "Ditamno" no livro
de Cem ervas e fungos mgicos, no levantou os olhos at a hora em
que ouviu Rony exclamar:
- Rbeo! Que  que voc est fazendo na biblioteca?
Hagrid veio arrastando os ps, escondendo alguma coisa s
costas. Parecia muito deslocado com o seu casaco de plo de toupeira.
- S olhando - disse numa voz insegura que imediatamente
despertou o interesse deles. - E o que  que vocs esto armando?
- Ele pareceu repentinamente desconfiado. - No continuam
procurando o Nicolau Flamel, continuam?
-Ah, j descobrimos quem ele  h sculos - disse Rony para
impressionar. - E voc sabe o que  que aquele cachorro est
guardando,  a Pedra Filo...
- Chhhhi! - Hagrid olhou  sua volta depressa para ver se algum estava escutando. - No saiam gritando isso por a, que foi
que deu em vocs?
- Alis, tem umas coisinhas que queramos perguntar a voc
- disse Harry - sobre as outras coisas que esto protegendo a Pedra alm do Fofo...
- Chiii! - fez Hagrid de novo. - Escutem, venham me
ver mais tarde, no estou prometendo que vou lhes dizer nada, vejam
bem, mas no saiam dando com a lngua nos dentes por a, estudantes no devem saber disso. Vo achar que
fui eu que contei
a vocs...
- Vemos voc mais tarde, ento - concordou Harry.
Hagrid saiu arrastando os ps.
- Que  que ele estava escondendo s costas? - perguntou
Hermione pensativa.
- Acham que tinha alguma coisa a ver com a Pedra?
- Vou ver em que seo ele estava - prontificou-se Rony, que
j estava farto de trabalhar. Voltou um minuto depois com uma
braada de livros e largou-os em cima da mesa.
- Drages!- cochichou. - Rbeo estava procurando coisas sobre
drages! Olhem s estes: Espcies de drages da Gr-Bretanha
e da Irlanda; Do ovo ao inferno, guia do guardador de drages.
- Rbeo sempre quis um drago, ele me disse isso da primeira vez em que nos vimos - comentou Harry.
- Mas  contra as nossas leis - argumentou Rony - Criar drages foi proibido pela Conveno dos Bruxos de 1709, todo
o
mundo sabe disso.  dificil evitar que os trouxas reparem em ns
se criarmos drages no quintal. Em todo o caso, no se pode domesticar drages,  perigoso. Vocs deviam ver as
queimaduras
que Carlinhos recebeu de drages selvagens na Romnia.
- Mas no tem drages selvagens na Gr-Bretanha? - perguntou Harry
- Claro que tem - respondeu Rony. - Os drages verdes galeses e os negros das ilhas Hbridas. O Ministrio da Magia tem um
bocado de trabalho para mant-los em segredo, posso lhe garantir.
O nosso povo vive enfeitiando trouxas que os viram, para
faz-los esquecer.
- Ento o que ser que Rbeo anda armando? - perguntou
Hermione.
Quando eles bateram  porta da cabana do guarda-caa uma hora
mais tarde, ficaram surpresos de ver que todas as cortinas estavam
fechadas. Hagrid perguntou "Quem ?" antes de deix-los entrar
e em seguida fechou depressa a porta assim que eles entraram.
Estava um calor sufocante no interior da cabana. E embora
fosse um dia bem quente havia um fogaru na lareira. Hagrid preparou
ch para os meninos e lhes ofereceu sanduches de carne de
arminho, que eles recusaram.
- Ento, vocs queriam me perguntar uma coisa?
- Queramos - disse Harry. No havia sentido em perder
tempo com rodeios. - Estivemos pensando se voc poderia nos
dizer o que mais est protegendo a Pedra Filosofal alm de Fofo.
Hagrid amarrou a cara.
- Claro que no posso dizer. Primeiro, eu mesmo no sei.
Segundo, vocs j sabem demais, de modo que eu no diria a
vocs se soubesse. Aquela Pedra est aqui por uma boa razo.
Quase foi roubada de Gringotes. Suponho que vocs j chegaram a
essa concluso. Fico at espantado que saibam da existncia de Fofo.
- Ah, vamos, Rbeo, talvez voc no queira nos dizer, mas
voc sabe tudo o que acontece por aqui - disse Hermione num
tom caloroso e lisonjeiro. A barba de Hagrid mexeu e eles perceberam que estava sorrindo. - S estvamos querendo saber
real mente quem fez o feitio de proroteo - continuou Hermione. -
Estvamos querendo saber em quem Dumbledore teria confiado
o suficiente para ajud-lo, alm de voc.
O peito de Rbeo se estufou ao ouvir essas palavras. Harry e
Rony se abriram em sorrisos para Hermione.
- Bom, acho que no poderia fazer mal contar isso... vamos
ver... ele pediu Fofo emprestado a mim... depois alguns professores
fizeram os feitios... o Prof. Sprout.. o Prof. Flitwick... a Profa.
Minerva... - ele foi contando nos dedos - o Prof. Quirrell... e o
prprio Dumbledore tambm fez algutna coisa,  claro. Um momento, esqueci algum. Ah, sim, o Prof. Snape.
- Snajpe?
- , vocs no continuam insistindo naquela idia, ou continuam?
Olhem, Snape ajudou aproteger a Pedra, no est prestes a
roub-la.
Harry sabia que Rony e Hermione estavam pensando o mesmo que ele. Se Snape fora chamado para proteger a Pedra, devia
ter sido fcil descobrir como os outros professores a tinham protegido. Ele provavelmente sabia de tudo - exceto, ao que parecia,
o feitio que Quirrell fizera e de que jeito passar por Fofo.
- Voc  o nico que sabe como passar pelo Fofo, no ,
Rbeop - Harry perguntou, ansioso. - E voc no diria a ningum,
no ? Nem mesmo a um dos professores?
- Ningum sabe a no ser eu e Dumbledore - disse Hagrid
orgulhoso.
- Bom, isso j  alguma coisa - murmurou Harry para os outros. -Rbeo, podemos abrir uma janela? Estou assando.
-No pode, desculpe, Harry-disse Hagrid. Harry notou que
ele olhava para o fogo. Harry olhou tambm.
-Rbeo, o que  isso?
Mas ele j sabia o que era. Bem no meio do fogo, debaixo da
chaleira, havia um enorme ovo negro.
- Ah - respondeu Hagrid, mexendo, nervoso, na barba. - ...
ah...
- Onde foi que voc arranjou isso, Rbeo? - pergntou Rony,
abaixando-se para o fogo para olhar o ovo mais de perto. - Isso
deve ter-lhe custado uma fortuna.
- Ganhei. A noite passada. Eu estava na vila tomando uns tragos e entrei num joguinho de cartas com um estranho. Acho que
ele ficou bem contente de se livrar do ovo, para ser sincero.
- Mas o que  que voc vai fazer com ele, quando chocarp -
perguntou Hermione.
- Bom, andei lendo um pouco - disse Hagrid, tirando um
grande livro de baixo do travesseiro. -Apanhei este na biblioteca:
A criao de drages como prazer e fonte de renda.  meio desatualizado,
 claro, mas est tudo aqui. Mantenha o ovo no fogo porque as
mes sopram fogo em cima deles, sabe, e quando chocar, d-lhe
um balde de conhaque misturado com sangue de galinha a cada
meia hora. E vejam aqui: como reconhecer os diferentes ovos, e
este aqui  um drago noruegus. So raros esses.
Ele parecia muito satisfeito consigo mesmo, mas Hermione
no.
-Rbeo, voc mora numa cabana de madeira- lembrou-lhe.
Mas Hagrid nem escutou. Estava cantarolando alegremente
enquanto atiava o fogo.
Ento agora tinham mais uma coisa com que se preocupar: o que
poderia acontecer a Hagrid se algum descobrisse que estava
escondendo um drago ilegal em sua cabana.
- Como ser ter uma vida tranqila - suspirou Rony, pois noite aps noite eles lutavam para dar conta de todos aqueles
deveres
de casa suplementares que estavam recebendo. Hermione agora
comeava a programar as revises de Harry e Rony tambm. Estava deixando os dois malucos.
Ento, certo dia ao caf da manh, Edwiges trouxe outro bilhete de Hagrid para
Harry. Ele escrevera apenas duas palavras:
Est furando.
Rony queria faltar  Herbologia e ir direto  cabana. Hermione nem quis
ouvir falar nisso.
- Hermione, quantas vezes na vida vamos ver um drago saindo do ovo?
- Temos aulas, vamos nos meter em confuso, e isso no vai
ser nada comparado  situao de Rbeo quando descobrirem o
que ele anda fazendo.
- Cala a boca! - cochichou Harry.
Malfoy estava a apenas alguns passos e parou instantaneamente para
ouvir. Quanto teria ouvido? Harry no gostou nem
um pouco da expresso que viu na cara de Malfoy.
Rony e Hermione discutiram todo o tempo a caminho da
aula de Herbologia e, no final, Hermione concordou em dar uma
corrida  casa de Hagrid com os dois no intervalo da manh.
Quando a sineta tocou no castelo anunciando o fim da aula, os
trs largaram as colheres de jardineiro e atravessaram a propriedade correndo em
direo  orla da floresta. Hagrid
cumprimentou-os parecendo vermelho e excitado.
- Est quase furando. - Conduziu-os para dentro.
O ovo estava em cima da mesa. Tinha fundas rachaduras. Alguma
coisa se mexia dentro dele; fazia um barulhinho engraado.
Todos puxaram as cadeiras para junto da mesa e observaram
com a respirao presa.
De repente ouviram um som arranhado e o ovo se abriu. O
drago-beb caiu molemente em cima da mesa. No era exatamente bonito;
Harry achou que parecia um guarda-chuva preto
amassado. As asas espinhosas exam enormes em contraste com o
corpo preto e magro, tinha um focinho longo com narinas largas,
tocos de chifres e olhos esbugalhados cor de laranja.
Espirrou. Voaram fagulhas do seu focinho.
- Ele no  lindo? - murmurou Hagrid. Esticou a mo para
afagar a cabea do drago. O bicho tentou morder seus dedos,
deixando  mostra presas pontiagudas.
- Deus o abenoe, olhem, ele conhece a mame! - exclamou
Hagrid.
- Kbeo - perguntou Hermione -, exatamente com que rapidez um drago noruegus
cresce?
Hagrid ia responder quando a cor subitamente desapareceu
do seu rosto - ele deu um salto e correu  janela.
- Que foi?
-Algum estava espiando pela fresta nas cortinas, um garoto
est correndo de volta para a escola.
Harry se precipitou para a porta e espiou para fora. Mesmo a
distncia no havia como se enganar.
Malfoy vira o drago.
Alguma coisa no sorriso que rondou a cara de Malfoy durante a
semana seguinte deixou Harry, Rony e Hermione muito nervosos. Passaram a maior parte do tempo livre na cabana sombria de
Hagrid, tentando argumentar com ele.
-Deixe o drago ir embora-insistia Harry - Solte ele.
- No posso - disse Hagrid. - Ele  muito pequeno. Morrer.
Eles olharam para o drago. Aumentara trs vezes de comprimento em uma semana. A
fumaa no parava de sair de suas narinas. Hagrid no estava cumprindo suas tarefas de guarda-caa
porque o drago o mantinha muito ocupado. Havia garrafas vazias
de conhaque e penas de galinha por todo o cho.
- Decidi cham-lo de Norberto - anunciou Hagrid, olhando
para o drago com olhos sonhadores. - Ele realmente sabe quem
eu sou, olhem. Norberto! Norberto! Onde est a mame?
- Ele pirou - cochichou Rony na orelha de Harry.
- Rbeo - disse Harry em voz alta -, d mais quinze dias e
Norberto vai ficar do tamanho de sua casa. Malfoy pode procurar
Dumbledore a qualquer momento.
Hagrid mordeu o lbio.
- Eu... eu sei que no vou poder ficar com ele para sempre,
mas tambm no posso larg-lo assim, no posso.
Harry de repente virou-se para Rony.
- Carlinhos - falou.
- Voc tambm - respondeu Rony - Eu sou Rony, est lembrado?
- No, Carlinhos... seu irmo, Carlinhos. Na Romnia. Estudando drages. Poderamos mandar Norberto para ele. Carlinhos
pode cuidar dele e depois devolv-lo  floresta!
- Brilhante! - exclamou Rony - Que  que voc acha, Rbeo?
E no fim, Hagrid concordou que podiam mandar uma coruja
a Carlinhos para consult-lo.
A semana seguinte se arrastou. A noite de quarta-feira encontrou
Hermione e Harry sentados sozinhos na sala comunal, muito depois de todos terem ido se
deitar. O relgio na parede acabara de
bater meia-noite quando o buraco do retrato se abriu de repente.
Rony se materializou ao tirar a capa da invisibilidade de Harry Estivera na cabana de Hagrid, ajudando a alimentar Norberto, agora
comendo caixotes de ratos mortos.
- Ele me mordeu! - disse ele mostrando a mo, que trazia enrolada em um leno ensangentado. - No vou conseguir
segurar a pena de escrever durante uma semana. Vou lhe contar, aquele
drago  o bicho mais horrvel que j conheci, mas quem ouve
Rbeo falar pensa que ele  um coelhinho fofo. Quando o drago
me mordeu, ele ralhou comigo por t-lo assustado. E quando sa,
estava cantando uma cano de ninar.
Ouviu-se uma batida na janela escura.
-  a Edwiges! - disse Harry, correndo para deix-la entrar. -
Deve estar trazendo a resposta de Carlinhos!
Os trs juntaram as cabeas para ler o bilhete.
Caro Kony,
Como vai? Obrigado pela carta - terei prazer em cuidar do
drago noruegus, mas no ser fcil mand-lopara mim. Acho
que o melhor ser mand-lo por alguns amigos que esto vindo me
visitar na prxima semana. Oproblema  que eles no podem ser
vistos carregando um drago ilegal.
Vocpoderia levar o drago para a torre mais alta  meia-
noite de sbado? Elespodem se encontrar com voc l e lev-lo
enquanto ainda est escuro.
Mande-me uma resposta o mais brevepossvel.
Afetuosamente,
Carlinhos
Eles se entreolharam.
-Temos a capa da invisibilidade-disse Harry -No deve ser
muito difcil: acho que a capa  bastante grande para cobrir dois
de ns e o Norberto.
O fato de os outros dois concordarem indicava como a semana fora ruim. Qualquer coisa para se
livrarem de Norberto - e de
Malfoy.
Mas houve um imprevisto. Na manh seguinte, a mordida do drago fizera a mo de Rony
inchar, ficando duas vezes o seu
tamanho normal. Ele no sabia se era seguro procurar Madame
Pomfrey - ser que ela reconheceria uma mordida de drago? 
tarde, porm, no houve mais jeito. O corte adquirira uma feia
cor verde. Dava a impresso de que as presas de Norberto eram
venenosas.
Harry e Hermione correram para a ala do hospital no fim do
dia e enconttaram Rony acamado numa situao horrvel.
- No  s a minha mo - cochichou ele -, embora ela parea
que vai cair. Malfoy disse  Madame Pomfrey que queria pedir
emprestado um livro meu, para poder vir dar uma boa gargalhada. Ficou ameaando contar a ela o que realmente me mordera.
Eu disse que foi um cachorro mas acho que ela no est acreditando.
Eu no devia ter batido nele no jogo de quadribol,  por
isso que ele est agindo assim.
Harry e Hermione tentaram acalmar Rony
-Tudo vai terminar  meia-noite de sbado - disse Hermione,
mas isso no acalmou Rony nem um pouquinho. Pelo contrrio,
ele se sentou muito empertigado e desatou a suar.
- Meia-noite de sbado! - disse com a voz rouca. - Ah, no...
ah, no... acabei de me lembrar: a carta de Carlinhos estava no livro
que Malfoy levou, ele vai saber que vamos nos livrar de
Norberto.
Harry e Hermione no tiveram nem chance de responder.
Madame Pomfrey apareceu naquele instante e fez os dois sarem,
dizendo que Rony precisava dormir.
-Agora  tarde demais para mudarmos de plano. No temos mais
tempo para mandar outra coruja a Carlinhos e essa pode ser a
nossa nica oportunidade de nos livrarmos de Norberto. Teremos de
arriscar. E temos a capa da invisibilidade, Malfoy no sabe
disso.
Eles encontraram Canino, o co de caar javalis, sentado do
lado de fora da cabana com a cauda enfaixada, quando foram
contar a Hagrid, que abriu a janela para falar com eles.
- No vou deixar vocs entrarem - ofegou. - Norberto est
passando uma fase difcil, nada que eu no possa cuidar sozinho.
Quando lhe contaram sobre a carta de Carlinhos, seus olhos
se encheram de lgrimas, embora isso talvez fosse porque Norberto
acabara de mord-lo na perna.
- Aai! Tudo bem, ele s mordeu minha bota. Est brincando;
afinal  um bebezinho.
O beb bateu com o rabo na parede, fazendo as janelas estremecerem. Harry e Hermione voltaram para o castelo achando
que o sbado talvez no chegasse bastante rpido.
Eles teriam sentido pena de Hagrid quando chegou a hora de dizer adeus a Norberto, se no estivessem to preocupados com o
que tinham de fazer. Era uma noite muito escura e anuviada e se
atrasaram um pouco para chegar  cabana de Hagrid porque
precisaram esperar Pirraa desimpedir o caminho para o saguo de
entrada, onde estivera jogando tnis contra a parede.
Hagrid aprontara Norberto embalando-o num grande caixote.
- Pus muitos ratos e um pouco de conhaque para a viagem -
disse Hagrid com a voz abafada. - E embalei junto o ursinho de
pelcia para o caso de ele se sentir solitrio.
De dentro do caixote vinha um rudo de pano rasgado que
pareceu a Harry ser o drago arrancando a cabea do ursinho.
- At a vista, Norberto! - soluou Hagrid, quando Harry e
Hermione cobriram o caixote com a capa da invisibilidade e entraram debaixo dela. - Mame nunca vai esquecer voc!
Como foi que conseguiram levar o caixote de volta ao castelo,
eles nunca souberam. Aproximava-se a meia-noite e eles subiram
com Norberto pela escadaria do saguo de entrada e pelos corredores escuros. Mais uma escada, mais outra - nem mesmo um
dos atalhos de Harry facilitou muito o transporte.
- Estamos quase l! - Harry ofegou quando chegaram ao corredor
sob a torre mais alta.
Ento um movimento brusco  frente deles quase fez com
que deixassem cair o caixote. Esquecendo que j estavam invisveis,
encolheram-se nas sombras, espiando os contornos escuros
de duas pessoas que se debatiam a uns trs metros. Uma lmpada
se acendeu.
A Profa. Minerva, num robe de l, escocesa e rede no cabelo,
segurava Malfoy pela orelha.
- Est detido - gritou. - E so vinte pontos a menos para
Sonserina. Perambulando no meio da noite, como voc .se atreve...
- A senhora no compreende, professora, Harry Potter est
vindo a; vem trazendo um drago.
- Que absurdo! Como voc se atreve a contar tais mentiras!
Vamos: vou conversar com o Prof. Snape sobre voc, Malfoy!
A ngreme escada em espiral at o alto da torre pareceu a coisa mais
fcil do mundo depois disto. Somente quando saram para
o ar frio da noite foi que se livraram da capa da invisibilidade, felizes
de poderem respirar direito outra vez. Hermione danou uma
espcie de jiga escocesa.
- Malfoy vai ficar detido! Eu seria capaz de cantar. 
- No cante - aconselhou Harry
Rindo de Malfoy, eles esperaram, enquanto Norberto se debatia
dentro do caixote. Passados uns dez minutos, quatro vassouras surgiram da escurido mergulhando em direo  torre.
Os amigos de Carlinhos formavam um grupo animado. Mostraram a Harry e a Hermione os arreios que tinham trazido de
modo a poder suspender Norberto entre eles. Todos ajudaram a
prender Norberto muito bem nos arreios e ento Harry e
Hermione apertaram as mos de todos eles e agradeceram muito.
Finalmente Norberto estava indo... indo... e finalmente se foi.
Eles desceram a escada espiral sem fazer barulho, os coraes
leves como as mos, agora que Norberto fora tirado delas.
Nada de drago - Malfoy detido - o que poderia estragar essa
felicidade?
A resposta  sua pergunta estava esperando ao p da escada.
Quando chegaram ao corredor, a cara de Filch assombrou-os,
emergindo da escurido.
-Ora, ora, ora- sussurrou-, estamos encrencados.
Tinham deixado a capa da invisibilidade no alto da torre.


- CAPTULO QUINZE -
A floresta proibida

As coisas no poderiam estar piores.
Filch levou-os  sala da Profa. Minerva no primeiro andar,
onde eles ficaram sentados esperando, sem trocar uma palavra entre si.
Hermione tremia. Desculpas, libis e justificativas fantsticas substituam-se
umas s outras na cabea de Harry, cada qual
mais capenga do que a anterior. Ele no conseguia ver como iam
se livrar desta encrenca. Estavam encurralados. Como podiam ter
sido burros a ponto de se esquecerem da capa? No havia nenhuma razo no mundo para a Profa. Minerva aceitar que estivessem
fora da cama, esgueirando-se pela escola a altas horas da noite, e
muito menos que estivessem na alta torre de astronomia, que era
proibida aos alunos a no ser durante as aulas. Some-se a isso
Norberto e a capa da invisibilidade e seria melhor comearem a
fazer as malas.
Harry achou que as coisas no poderiam ficar piores. Estava
enganado. Quando a Profa. Minerva apareceu, vinha trazendo
Neville.
- Harry! - exclamou ele, no instante em que viu os outros
dois. - Eu estava tentando encontrar vocs para avisar que ouvi
Malfoy dizer que ia pegar vocs, disse que vocs tinham um drag...
Harry sacudiu com fora a cabea para fazer Neville calar a
boca, mas a Profa. Minerva viu. Parecia mais provvel que ela. cuspisse
fogo pelas narinas do que Norberto, ali a olhar os trs de
cima para baixo.
- Eu jamais teria acreditado que vocs fossem capazes disso.
O Sr. Filch diz que vocs estavam no alto da torre de astronomia.
 uma hora da madrugada. Expliquem-se.
Era a primeira vez que Hermione deixava de responder  pergunta de uma professora. Olhava para os sapatos, imvel como
uma esttua.
-Acho que tenho uma boa idia do que anda acontecendo -
disse a Profa. Minerva. - No  preciso ser gnio para somar dois
mais dois. Vocs contaram a Drago Malfoy uma histria da carochinha
sobre um drago, tentando tir-lo da cama e met-lo em
apuros. Eu j o apanhei. Suponho que achem engraado que o
Neville tenha ouvido a histria e acreditado nela tambm.
Harry surpreendeu o olhar de Neville e tentou lhe dizer, sem
falar, que aquilo no era verdade, porque Neville tinha uma expresso
de espanto e mgoa. Pobre Neville trapalho - Harry sabia
o que deveria ter-lhe custado tentar encontr-los no escuro
para avisar.
- Estou desapontada - disse a Profa. Minerva. - Quatro alu nos
fora da cama em uma noite! Nunca ouvi falar numa coisa dessas
antes! Voc, Hermione Granger, achei que tinha mais juzo.
Quanto a voc, Harry Potter, achei que Grifinria significava mais
para voc do que parece. Os trs vo pegar uma deteno - sim, e
voc tambm, Neville Longbottom, no h nada que lhe d o direito de andar pela escola  noite, principalmente nos dias que
correm,  muito perigoso, e vou descontar cinqenta pontos da
Grifinria.
- Cinqenta?- Harry ofegou. Perderiam a dianteira, a dianteira
que ele conquistara na ltima partida de quadribol.
- Cinqenta pontos cada um - acrescentou a Profa. Minerva,
respirando com esforo pelo nariz longo e pontudo.
-Professora... por favor...
-A senhora nopode...
- No venpha me dizer o que eu posso e o que eu no posso,
Harry Potter. Agora voltem para a cama, todos vocs. Nunca senti
tanta vergonha de alunos da Grifinria antes.
Cento e cinqenta pontos perdidos. Isto deixava a Grifinria
em ltimo lugar. Em uma noite, tinham estragado as chances de
Grifinria conquistar a taa das casas. Harry teve a sensao de
que o fundo do seu estmago se soltara. Como iriam poder
compensar a perda?
Harry no dormiu a noite inteira. Ouviu Neville soluar com
a cara no travesseiro durante o que lhe pareceram horas. Harry
no conseguia pensar em nenhuma palavra para consol-lo. Sabia
que Neville, como ele mesmo, estava com medo do amanhecer.
O que aconteceria quando o resto de Grifinria descobrisse o que
tinham feito?
No princpio, os alunos de Grifinria que passavam pelas gigantescas
ampulhetas que marcavam o placar das casas, no dia seguinte,
acharam que tinha havido um engano. Como podiam de
repente ter cento e cinqenta pontos menos do que no dia anterior?
E ento a histria comeou a se espalhar: Harry Potter, o famoso
Harry Potter, seu heri dos jogos de quadribol, fora o responsvel pela perda de todos aqueles pontos, ele e mais uns dois
panacas do primeiro ano.
Da posio de aluno mais popular e admirado na escola,
Harry passou  de mais odiado. At os alunos da Corvinal e Lufa-
lufa se voltaram contra ele, porque todos desejavam h muito
tempo ver a Sonserina perder a taa das casas. Para todo lado que
Harry ia, as pessoas o apontavam e no se davam ao trabalho de
baixar as vozes para xing-lo. Os de Sonserina, por outro lado, batiam
palmas quando ele passava, assobiavam e davam vivas.
"Obrigado, Potter, ficamos lhe devendo essa!"
Somente Rony continuou do seu lado.
- Eles vo esquecer dentro de umas semanas. Fred e Jorge j
perderam montes de pontos desde que chegaram aqui e as pessoas
continuam a gostar deles.
- Eles nunca perderam cento e cinqenta pontos de uma tacada, ou perderam? - retrucou Harry, infeliz.
- Bom... no - admitiu Rony.
Era um pouco tarde para consertar o estrago, mas Harry jurou
nunca mais se meter em coisas que no eram de sua conta.
Bastava de espiar e espionar. Sentia tanta vergonha que foi procurar
Olvio para oferecer sua demisso do time de quadribol.
- Se demitir?- trovejou Olivio. - Que bem faria isso? Como
vamos poder recuperar os pontos se no conseguirmos vencer no
quadribol?
Mas at mesmo o quadribol perdera a graa. O resto do time
no queria falar com Harry durante os treinos e quando precisavam
se referir a ele chamavam-no de "o apanhador".
Hermione e Neville estavam sofrendo tambm. No estavam
apanhando tanto quanto Harry, porque no eram to conhecidos,
mas ningum falava com eles, tampouco. Hermione parara de chamar
ateno nas aulas, mantinha a cabea baixa e trabalhava em silncio.
Harry quase se alegrava que os exames no estivessem muito
distantes. Todas as revises que precisava fazer o distraam de sua
infelicidade. Ele, Rony e Hermione ficavam sozinhos, trabalhavam
at tarde da noite, tentando lembrar os ingredientes das complicadas
poes, aprender os feitios e encantamentos de cor,
decorar as datas das descobertas mgicas e das revoltas dos
duendes...
Ento, uma semana antes de comearem os exames, a nova
resoluo de Harry, de no se meter em nada que no fosse de sua
conta, foi submetida a um teste inesperado. Ao voltar da biblioteca, sozinho, certa tarde, ouviu algum choramingando numa sala
de aulas mais  frente. Ao se aproximar, ouviu a voz de Quirrell.
- No... no... outra vez no, por favor...
Parecia que algum o estava ameaando. Harry se aproximou
um pouco mais.
- Est bem... est bem- ouviu Quirrell soluar.
No segundo seguinte, Quirrell saiu correndo da sala de aulas
ajeitando o turbante. Estava plido e parecia prestes a chorar. E
desapareceu de vista; Harry achou que Quirrell nem sequer reparara nele.
Esperou at que o rudo dos passos de Quirrell desaparecesse e,
ento, espiou para dentro da sala. Estava vazia, mas havia
uma porta entreaberta na outra extremidade. Harry j ia em direo  porta,
quando se lembrou de que prometera a si mesmo no se meter em nada.
Assim mesmo, teria apostado doze pedras filosofais que
Snape acabara de deixar a sala, e pelo que Harry acabara de ouvir,
ganhara uma nova agilidade nos passos. Quirrell parecia ter finalmente cedido.
Harry voltou  biblioteca, onde Hermione estava tomando os
pontos de astronomia de Rony. Contou-lhes o que ouvira.
- Snape ento conseguiu! - exclamou Rony - Se Quirrell
contou a ele como quebrar o feitio antimagia negra...
- Mas ainda tem o Fofo - lembrou Hermione.
- Talvez Snape tenha descoberto como passar pelo cachorro
sem perguntar ao Rbeo - disse Rony, correndo os olhos pelos
milhares de livros que os rodeavam. -Aposto como tem um livro
por aqui que ensina como se passar por um cachorro de trs cabeas.
Ento,
o que vamos fazer, Harry?
O brilho de aventura voltava a iluminar os olhos de Rony, mas
Hermione respondeu, antes que Harry pudesse faz-lo.
- Vamos procurar Dumbledore. Isto  o que deveramos ter
feito h sculos. Se tentarmos alguma coisa por conta prpria,
com certeza vamos ser expulsos.
- Mas no temosprova,disse Harry - Quirrell est apavorado
demais para nos apoiar. Snape s precisa dizer que no sabe
como foi que o trasgo entrou no Dia das Bruxas e que nem chegou
perto do terceiro andar. Em quem vocs acham que eles vo
acreditar, nele ou em ns? No  bem segredo que ns o detestamos,
Dumbledore vai pensar que inventamos isso para ele ser
despedido. Filch no nos ajudaria nem que a vida dele dependesse disso,  muito amigo de Snape, e quanto mais alunos forem
expulsos, tanto melhor,  o que ele pensa. E no se esqueam, ns
nem devamos saber da Pedra nem de Fofo. O que vai exigir muita explicao.
Hermione pareceu convencida, mas no Rony.
- Se dssemos s uma espiadinha...
- No - respondeu Harry decidido -, j demos muitas espiadinhas.
E, dizendo isso, puxou um mapa de Jpiter para perto e comeou a aprender os nmes das luas.

Na manh seguinte, Harry, Hermione e Neville receberam
bilhetes  mesa do caf da manh. Diziam a mesma coisa:
Sua deteno comear s vinte e trs horas.
Aguardem o Sr. Filch no saguo de entrada.
Profa. Minerva
No furor provocado pela perda de pontos, Harry esquecera
que ainda tinham detenes a cumprir. Esperou que Hermione
reclamasse que aquilo representava perder uma noite inteira de revises,
mas no disse uma palavra. Achava, como Harry, que mereciam o
que tinham recebido.
s onze horas da noite eles se despediram de Rony na sala
comunal e desceram com Neville para o saguo de entrada. Filch
j se encontrava l - e tambm Malfoy. Harry esquecera que
Malfoy pegara uma deteno tambm.
- Sigam-me - disse Filch, acendendo uma lanterna e levando-
os para fora.
- Aposto que vo pensar duas vezes antes de desobedecer
novamente ao regulamento da escola, no  mesmop - disse caoando.
- Ah, sim, trabalho pesado e dor so os melhores mestres,
se querem saber...  uma pena que tenham suspendido os
castigos antigos... pendurar o aluno no teto pelos pulsos durante
alguns dias, ainda tenho as correntes na minha sala, conservo-as
azeitadas para o caso de precisarem... Muito bem, l vamos ns, e
nem pensem em fugir agora, ser pior para vocs se fizerem isso.
Eles caminharam pela propriedade s escuras. Neville no parava
de fungar. Harry ficou imaginando qual seria o castigo. Devia
ser alguma coisa realmente horrvel, ou Filch no pareceria to
contente.
A lua brilhava, mas as nuvens que passavam por ela lanav-os na escurido.  frente, Harry via as janelas iluminadas da cabana
de Hagrid. Ento, ouviram um grito distante...
-  voc, Filch? Ande logo, quero comear de uma vez.
O nimo de Harry melhorou; se eles iam trabalhar com
Hagrid ento no seri to ruim. Seu alvio deve ter transparecido
no rosto, porque Filch falou:
- Acho que voc est pensando que vai se divertir com aquele panacap. Pois pode pensar outra vez, menino.  para a floresta
que voc vai e estarei muito enganado se voltar inteiro.
Ao ouvir isso, Neville deixou escapar um gemido e Malfoy ficou
paralisado.
- A floresta? - repetiu e no pareceu to tranqilo como de
costume. - No podemos entrar l  noite... tem todo tipo de coisa l... lobisomens, ouvi falar.
Neville agarrou a manga das vestes de Harry e pareceu se engasgar.
- Isto  o que pensa, no ? - disse Filch, a voz esganiando-
se de satisfao. - Devia ter pensado nos lobisomens antes de se
meter em encrencas, no acha?
Hagrid saiu do escuro caminhando em direo a eles, com
Canino nos calcanhares. Carregava um grande arco e uma aljava
com flechas pendurada ao ombro.
- At que enfim. J estou esperando h meia hora. Tudo bem,
Harry, Hermione?
- Eu no seria to simptico com eles, Hagrid - disse Filch
com frieza -, afinal eles esto aqui para serem castigados.
-  por isso que voc est atrasado, no ? - disse Hagrid,
amarrando a cara. -Andou passando caro neles, no ? Isso no
 sua funo. Voc fez a sua parte, eu pego daqui para a frente.
- Volto ao amanhecer para recolher o que sobrar deles - disse Filch maldoso,
deu meia-volta e retornou ao castelo, balanando
a lanterna na escurido.
Malfoy virou-se ento para Hagrid.
- No vou entrar nessa floresta - disse, e Harry ficou contente
de ouvir a nota de pnico em sua voz.
- Vai, sim, se quiser continuar em Hogwarts - disse Hagrid
com ferocidade. - Voc agiu mal e agora tem de pagar pelo que fez.
- Mas isso  coisa para empregados e no para estudantes.
Achei que amos fazer uma cpia ou outra coisa do gnero, se
meu pai souber que eu estou fazendo isso, ele...
... lhe dir que em Hogwarts  assim - rosnou Hagrid. - Fazer cpia! Para que serve? Voc vai fazer uma coisa til ou vai sair
da escola. E se pensa que seu pai vai preferir que voc seja expulso,
ento volte para o castelo e faa suas malas. Vamos!
Malfoy no se mexeu. Encarou Hagrid furioso e em seguida
baixou os olhos.
-Muito bem, ento - disse Hagrid-, agora prestem ateno,
porque  perigoso o que vamos fazer hoje  noite e no quero ningum
se arriscando. Venham at aqui comigo.
Ele os conduziu  orla da floresta. Erguendo a lanterna bem
alto, apontou para uma trilha serpeante de terra batida que desaparecia
por entre rvores escuras. Uma brisa leve levantou os cabelos
dos meninos, quando eles se viraram para a floresta.
- Olhem ali, esto vendo aquela coisa brilhando no cho?
Prateada? Aquilo  sangue de unicrnio. Tem um unicrnio ali
que foi ferido gravemente por alguma coisa.  a segunda vez esta
semana. Encontrei um morto na quarta-feira passada. Vamos tentar
encontrar o pobrezinho. Talvez a gente precise pr fim ao sofrimento dele.
- E se a coisa que feriu o unicrnio nos encontrar primeiro? -
perguntou Malfoy, incapaz de conter o medo na voz.
- No h nenhuma criatura viva na floresta que v machuclo se voc
estiver comigo e com o Canino. E siga a trilha. Muito
bem, agora, vamos nos separar em dois grupos e seguir a trilha em
direes opostas. Tem sangue por toda parte, ele deve estar cambaleando
pelo menos desde a noite passada.
- Eu quero Canino - disse Malfoy depressa, olhando para as
presas de Canino.
- Muito bem, mas vou-lhe avisando, ele  covarde. Ento eu,
Harry e Hermione vamos por aqui e Drago, Neville e Canino por
ali. Agora, se algum de ns achar o unicrnio, disparamos centelhas
verdes para o alto, OK? Peguem as varinhas e comecem a
praticar agora, assim. E se algum se enrolar, dispare centelhas
vermelhas, e vamos todos procur-lo; ento, cuidado. Vamos.
A floresta estava escura e silenciosa. Entrando por ela, chegaram
a uma bifurcao, e Harry, Hermione e Hagrid tomaram o
caminho da esquerda enquanto Malfoy, Neville e Canino tomaram o
da direita.
Caminharam em silncio, com os olhos no cho. Aqui e ali
um raio de luar penetrava por entre os galhos e iluminava uma
mancha de sangue prateado nas folhas cadas.
Harry viu que Hagrid parecia muito preocupado.
- possvel um lobisomem estar matando os unicrnios? -
perguntou.
- No com essa rapidez, no  fcil matar um unicrnio, eles
so criaturas mgicas poderosas. Nunca soube de nenhum ter
sido ferido antes.
Passaram por um toco de rvore coberto de musgo. Harry ouviu
gua correndo, devia haver um riacho por perto. Ainda viam
manchas de sangue de unicrnio aqui e ali pela trilha serpeante.
- Voc est bem, Hermione? - sussurrou Hagrid. - No se
preocupe, ele no pode ter ido longe se est to ferido e ento poderemos... PARA TRS DAQUELA RVORE!
Hagrid agarrou Harry e Hermione e guindou-os para fora da
trilha e para trs de um enorme carvalho. Puxou uma flecha e encaixou-a no
arco, e ergueu-o, pronto para atirar. Os trs apuraram
os ouvidos. Alguma coisa deslizava pelas folhas mortas ali perto;
parecia uma capa arrastando no cho. Hagrid apertava os olhos
para enxergar a trilha escura  frente, mas, passados alguns segundos,
o rudo desapareceu.
- Eu sabia - murmurou ele. - Tem alguma coisa aqui que
est fora de lugar.
- Um lobisomem? - sugeriu Harry.
- Isso no era um lobisomem e no era um unicrnio, tampouco
- disse Hagrid srio. - Muito bem, me sigam, mas tenham
cuidado, agora.
Continuaram a caminhar mais devagar, os ouvidos  escuta
do menor rudo. De repente, alguma coisa na clareira adiante, alguma coisa sem
dvida se mexia.
- Quem est a? - chamou Hagrid. -Aparea. Estou armado!
E na clareira apareceu um vulto - era um homem, ou um cavalo?
At a cintura, um homem, com cabelos e barba vermelhos,
mas da cintura para baixo era um luzidio cavalo castanho com
uma cauda longa e avermelhada. Os queixos de Harry e Hermione caram.
- Ah,  voc, Ronan - exclamou Hagrid aliviado. - Como vai?
Ele se adiantou e apertou a mo do centauro.
- Boa noite para voc, Hagrid - disse Ronan. Tinha uma voz
graVe e triste. - Voc ia atirar em mim?
- Cautela nunca  demais, Ronan - disse Hagrid, dando uma
palmadinha no arco. - Tem alguma coisa  solta nesta floresta.
Ah, sim, estes so Harry Potter e Hermione Granger. Alunos l da
escola. E este  Ronan.  um centauro.
- J percebi- disse Hermione com a voz fraca.
- Boa noite - cumprimentou Ronan. - So alunos, ? E
aprendem muita coisa na escola?
- Hum.
- Um pouquinho - respondeu Hermione, tmida.
- Um pouquinho. Bom, j  alguma coisa - suspirou Ronan.
Depois, jogou a cabea para trs e contemplou o cu. - Marte est
brilhante hoje.
-  - disse Hagrid, mirando o cu tambm. - Olhe, foi bom
termos nos encontrado, Ronan, porque tem um unicrnio ferido.
Voc viu alguma coisa?
Ronan no respondeu imediatamente. Continuou a olhar
para o alto sem piscar e ento suspirou outra vez.
- Os inocentes so sempre as primeiras vtimas. Foi assim no
passado,  assim agora.
- , mas voc viu alguma coisa, Ronanp Alguma coisa anormal?
- Marte est brilhante hoje - repetiu Ronan enquanto Hagrid
o observava impaciente. - Um brilho anormal.
- Sim, mas estou me referindo a alguma coisa mais perto da
terra. Voc no notou nada estranho?
Mais uma vez, Ronan levou algum tempo para responder. Por
fim disse:
- A floresta esconde muitos segredos.
Um movimento nas rvores atrs de Ronan fez Hagrid erguer
o arco outra vez, mas era apenas um segundo centauro, de cabelos
e corpo negros e de aspecto mais selvagem do que Ronan.
- Ol, Agouro - cumprimentou Hagrid. - Tudo bem?
- Boa noite, Hagrid, voc vai bem, espero.
- Bastante bem. Olhe, eu estava mesmo perguntando a Ropnan, voc viu alguma coisa estranha por aqui ultimamente?  que
um unicrnio foi ferido. Voc sabe alguma coisa?
Agouro foi se postar ao lado de Ronan. Olhou para o cu.
- Marte est brilhante hoje - disse simplesmente.
- J sabemos - respondeu Hagrid agastado. - Bom, se um de
vocs vir alguma coisa, me avise, por favor. Vamos indo, ento.
Harry e Hermione saram com ele da clareira, espiando
Ronan e Agouro por cima dos ombros at as rvores tamparem
sua viso.
- Nunca - disse Hagrid irritado - tentem obter uma resposta
direta de um centauro. Vivem contemplando as estrelas. No esto
interessados em nada que esteja mais perto do que a lua.
- E tem muitos deles aqui? - perguntou Hermione.
-Ah, um bom nmero... Vivem isolados na maior parte do
tempo, mas tm a bondade de aparecer quando preciso dar uma
palavrinha. So inteligentes, veja bem, os centauros... sabem das
coisas... s no falam muito.
- Voc acha que foi um centauro que ouvimos antes? - disse
Harry.
- Voc achou que era barulho de cascos? No, se quex saber,
aquilo  o que anda matando os unicrnios. Nunca ouvi nada parecido antes.
E continuaram a caminhar pela floresta densa e escura. Harry
no parava de espiar, nervoso, por cima do ombro. Tinha a sensao ruim de que algum os observava. Estava contente que
tivessem Hagrid e seu arco com eles. Acabavam de passar uma curva
na trilha quando Hermione agarrou o brao de Hagrid.
- Rbeo! Olhe! centelhas vermelhas, os outros esto em
apuros!
- Vocs dois esperem aqui! - gritou Hagrid. - Fiquem na trilha, volto para apanh-los!
Eles o ouviram romper o mato e ficaram parados se entreo lhando,
muito assustados, at no conseguirem ouvir mais nada 
volta exceto o farfalhar das rvores.
- Voc acha que eles esto machucados? - sussurrou
Hermione.
- No me importo com Malfoy, mas se alguma coisa pegou 
Neville...  culpa nossa que ele esteja aqui.
Os minutos se arrastaram. Seus ouvidos pareciam mais aguados do
que o normal. Harry parecia estar registrando cada suspiro do vento, cada graveto que quebrava. O que estava
acontecendo? Onde estavam os outros?
Finalmente, um grande barulho de mato pisado anunciou a
volta de Hagrid. Malfoy, Neville e Canino o acompanhavam.
Hagrid vinha danado da vida. Malfoy, ao que parecia, se atrasara e
agarrara Neville por trs para lhe dar um susto. Neville se assustara
e mandara o sinal.
- Teremos sorte se apanharmos alguma coisa agora, com a
barulheira que vocs aprontaram. Muito bem, vamos trocar os
grupos: Neville, voc e Hermione ficam comigo; Harry, voc
com o Canino e esse idiota. Sinto muito - acrescentou Hagrid
para Harry num cochicho - mas vai ser mais dificil ele assustar
voc e precisamos acabar o nosso servio.
Ento Harry entrou pelo corao da floresta com Malfoy e
Canino. Andaram quase meia hora, embrenhando-se cada vez
mais, at que a trilha se tornou impraticvel porque as rvores
cresciam demasiado juntas. Havia salpicos nas razes de uma rvore,
como se o pobre bicho tivesse se debatido de dor por ali.
Harry viu uma clareira adiante, atravs dos galhos emaranhados
de um velho carvalho.
- Olhe... - murmurou, erguendo o brao para deter Malfoy.
Alguma coisa muito branca brilhava no cho. Eles se aproximaram aos poucos.
Era o unicrnio, sim, e estava morto. Harry nunca vira nada
to bonito nem to triste. As pernas longas e finas estavam esticadas em
ngulos estranhos onde ele cara e sua crina espalhava-se
nacarada sobre as folhas escuras.
Harry dera um passo  frente mas um som de algo que deslizava o
fez congelar onde estava. Uma moita na orla da clareira estremeceu... Ento,
do meio das sombras saiu um vulto encapuzado que se arrastava de gatas pelo cho como uma fera 
caa. Harry, Malfoy e Canino ficaram paralisados. O vulto
encapuzado aproximou-se do unicrnio, abaixou a cabea sobre
o ferimento no flanco do animal e comeou a beber o seu sangue.
Malfoy soltou um grito terrvel e fugiu, seguido por Canino. A
figura encapuzada ergueu a cabea e olhou diretamente para Harry.
- o sangue do unicrnio escorrendo pelo peito. Ficou de p e avanou
rpido para Harry- que no conseguiu se mexer de medo.
Ento uma dor, como ele nunca sentira antes, varou sua cabea,
como se a sua cicatriz estivesse em fogo - meio cego, ele recuou cambaleando. Ouviu cascos s suas costas, galopando, e
alguma coisa saltou por cima dele, e atacou o vulto.
A dor na cabea de Harry foi to forte que ele caiu de joelhos.
Levou uns dois minutos para passar. Quando ergueu os olhos, o
vulto desaparecera. Um centauro avultava-se sobre ele, mas no
era Ronan nem Agouro; este parecia mais novo, tinha cabelos louros
prateados e o corpo baio.
- Voc est bem? - perguntou o centauro, ajudando Harry a
se levantar.
- Estou, obrigado, o que foi aquilo?
O centauro no respondeu. Tinha espantosos olhos azuis,
como safiras muito claras. Mirou Harry com ateno, demorando
o olhar na cicatriz que se sobressaa, livida, em sua testa.
- Voc  o menino Potter.  melhor voltar para a companhia
de Hagrid. A floresta no  segura a estas horas, principalmente
para voc. Sabe montar? Ser mais rpido. Meu nome  Firenze, acrescentou ao dobrar as patas dianteiras para Harry poder subir
no seu lombo.
Ouviram repentinamente o rudo de galopes vindo do outro
lado da clareira. Ronan e Agouro irromperam do meio das rvores,
os flancos arfantes e suados.
- Firenze! - Agouro trovejou. - O que  que voc est fazendo? Est
carregando um humano! No tem vergonha? Voc 
uma mula?
- Voc sabe quem ele ? - retrucou Firenze. -  o menino
Potter. Quanto mais rpido ele sair da floresta, melhor.
- O que  que voc andou contando a ele? - rosnou Agouro.
- Lembre-se, Firenze, juramos nunca nos indispor com os cus.
Voc no leu o que vai acontecer nos movimentos dos planetasp?
Ronan pateou o cho, nervoso.
- Tenho certeza de que Firenze achou que estava fazendo o
melhor - falou em tom sombrio.
Agouro escoiceou com raiva.
- Fazendo o melhor! O que tem isso a ver conosco? Os centauros
se proreocupam com o que foi previsto! No  nossa funo
ficar correndo por a como jumentos recolhendo humanos perdidos na nossa floresta!
Firenze de repente empinou-se nas patas traseiras com raiva, de
modo que Harry teve de se agarrar nos seus ombros para no cair.
- Voc no viu o unicrnio! - Firenze berrou para Agouro. -
Voc no percebe por que foi morto? Ou ser que os planetas no lhe
contaram esse segredo? Tomei posio contra o que est rondando a
floresta, Agouro, tomei, sim, ao lado dos humanos se for preciso.
E Firenze virou-se deproressa para partir; com Harry agarrando-se
o melhor que podia, eles mergulharam entre as rvores, deixando
Ronan e Agouro para trs.
Harry no fazia a menor idia do que estava acontecendo.
- Por que Agouro est to zangado? - perguntou. - O que era
aquela coisa de que voc me livrou?
Firenze abrandou a marcha, alertou Harry para manter a cabea
abaixada a fim de evitar os galhos baixos, mas no respondeu  pergunta. Continuaram por entre as rvores em silncio por
tanto tempo que Harry achou que Firenze no queria mais falar
com ele. Estavam passando por um trecho particularmente denso
da floresta, quando Firenze parou de repente.
- Harry Potter, voc sabe para que se usa o sangue de unicrnio?
- No - disse Harry surproreendido pela estranha pergunta. -
S usamos o chifre e a cauda na aula de Poes.
- Porque  uma coisa monstruosa matar um unicrnio. S
algum que no tem nada a perder e tudo a ganhar cometeria
um crime desses. O sangue do unicrnio mantm a pessoa viva,
mesmo quando ela est  beira da morte, mas a um preo terrvel. Ela matou algo puro e indefeso
para se salvar e s ter uma
semivida, uma vida amaldioada, do momento que o sangue lhe
tocar os lbios.
Harry ficou olhando para a nuca de Firenze, que estava prateada de luar.
-Mas quem estaria to desesperado? - pensou em voz alta. - Se
a pessoa vai ser amaldioada para sempre,  prefervel morrer, no ?
-  - concordou Firenze -, a no ser que ela precise se man ter
viva o tempo suficiente para beber outra coisa, algo que vai lhe
devolver a fora e o poder totais, algo que significa que jamais poder
morrer. Sr. Potter, o senhor sabe o que  que est escondido
na sua escola neste momento?
-A Pedra Filosofal!  claro, o elixir da vida! Mas no percebo
quem...
-No consegue pensar em ningum que tenha esperado muitos
anos para retomar o poder, que se apegou  vida, esperando
uma chance?
Foi como se uma mo de ferro de repente apertasse o corao
de Harry Acima do farfalhar das rvores, ele parecia ouvir mais
uma vez o que Hagrid lhe contara na noite que se conheceram:
"Uns dizem que ele morreu. Bobagem, na minha opinio. No sei
se ele ainda teria bastante humanidade para morrer."
- Voc est dizendo - Harry falou rouco - que aquele era o
Vol...
- Harry! Harry, voc est bem?
Hermione vinha correndo ao encontro deles pela trilha,
Hagrid a acompanhava arfando.
- Estou bem - disse Harry, sem nem saber o que estava
dizendo. - O unicrnio morreu, Rbeo, est naquela clareira
l atrs.
-  aqui que eu o deixo - murmurou Firenze enquanto
Hagrid corria para examinar o unicrnio. - Est seguro agora.
Harry escorregou de suas costas.
- Boa sorte, Harry Potter - disse Firenze. - Os planetas j foram
mal interpretados antes, at mesmo pelos centauros. Espero
que seja o que est ocorrendo agora.
Virou-se e entrou a trote pela floresta, deixando para trs um
Harry cheio de tremores.
Rony adormecera no salo comunal s escuras, esperando os amigos
voltarem. Gritou alguma coisa sobre faltas no quadribol,
quando Harry o sacudiu com fora para acord-lo. Em questo
de segundos, porm, seus olhos se arregalaram quando Harry comeou
a contar a ele e  Hermione o que acontecera na floresta.
Harry nem conseguia se sentar. Andava para cima e para baixo
na frente da lareira. Continuava a tremer.
- Snape quer a pedra para Voldemort... e Voldemort est esperando
na floresta... e todo esse tempo pensamos que Snape s
queria ficar rico.
- Pare de repetir esse nome! - disse Rony num sussurro de
terror, como se Voldemort pudesse ouvi-los.
Harry nem o escutou.
- Firenze me salvou, mas no devia ter feito isso... Agouro ficou
furioso... falou de interferncia naquilo que os planetas anunciaram
que ia acontecer. Eles devem estar indicando que Voldemort vai
voltar... Agouro acha que Firenze devia ter deixado
Voldemort me matar... Imagino que isso tambm esteja escrito
nas estrelas.
-Quer parar de dizer esse nome!- sibilou Rony.
- Portanto s preciso esperar que Snape roube a pedra - continuou
Harry febril -, ento Voldemort vai poder voltar e acabar
comigo... Bem, quem sabe Agouro vai ficar feliz.
Hermione parecia muito assustada, mas teve uma palavra de
consolo.
- Harry, todo mundo diz que Dumbledore  a nica pessoa
de quem Voc-Sabe-Quem j teve medo. Com Dumbledore por
perto Voc-Sabe-Quem no vai tocar em voc. Em todo o caso,
quem disse que os centauros tm razo? Isso est me parecendo
adivinhao, e a Profa. Minerva diz que adivinhar o futuro  um
ramo muito inexato da magia.
O cu havia clareado antes de terminarem de conversar. Foram
se deitar exaustos, com as gargantas ardendo. Mas as surpresas
da noite no tinham terminado.
Quando Harry puxou os lenis da cama, encontrou a capa
da invisibilidade cuidadosamente dobrada sobre o forro. Tinha
um bilhete espetado nela:

Por via das dvidas.


CAPTULO DEZESSEIS
No alapo

No futuro, Harry nunca conseguiria lembrar muito bem como
conseguiu prestar seus exames enquanto esperava Voldemort
irromper a qualquer instante pela porta. Contudo os dias foram se
passando lentamente e no havia dvidas de que Fofo continuava
vivo e bem seguro atrs da porta trancada.
Fazia um calor de rachar, principalmente na sala das provas
escritas. Os alunos tinham recebido penas novas e especiais para
faz-las, previamente encantadas com um feitio anticola.
Houve exames prticos tambm. O Prof. Flitwick os chamou 
sala de aula, um a um, para verificar se conseguiam fazer um abacaxi
sapatear na mesa. A Profa. Minerva observou-os transformarem
um camundongo em uma caixa de rap e conferiu pontos pela beleza
da caixa, e os descontou quando a caixa tinha bigodes. Snape
deixou-os nervosos, bafejando em seu pescoo enquanto tentavam
se lembrar como fazer a poo do esquecimento.
Harry fez o melhor que pde, tentando ignorar as dores lancinantes
que sentia na testa e que o incomodavam desde a ida 
floresta. Neville achou que Harry estava com uma crise de nervos
provocada pelos exames, porque Harry no conseguia dormir,
mas a verdade  que seu antigo pesadelo o mantinha acordado,
s que agora estava pior que nunca, pois havia nele uma figura
encapuzada que pingava sangue.
Talvez fosse porque eles no tinham visto o que Harry vira na
floresta, ou porque no tinham cicatrizes que queimavam na testa,
mas Rony e Hermione no pareciam to preocupados com a
Pedra quanto Harry. A lembrana de Voldemort sem dvida os 
apavorava, mas no os visitava em sonhos, e estavam to ocupados
com as revises que no tinham muito tempo para pensar no
que Snape ou qualquer outro podia estar aprontando.
O ltimo exame foi de Histria da Magia. Uma hora respondendo
a perguntas sobre velhos bruxos gags que inventaram caldeires
automexveis e estariam livres, livres por uma semana maravilhosa at sarem os resultados dos exames. Quando o 
fantasma do Prof. Binns mandou-os descansar as penas e enrolar os
pergaminhos, Harry no pde deixar de dar vivas com os colegas.
- Foi muito mais fcil do que pensei - comentou Hermione,
quando eles se reuniram aos numerosos alunos que saam para os
jardins ensolarados. - Eu nem precisava ter aprendido o Cdigo
de Conduta do Lobisomem de 1637 nem a revolta de Elfric, o
Ambicioso.
Hermione sempre gostava de repassar as provas depois, mas
Rony disse que isso o fazia se sentir mal. Assim, caminharam at
o lago e se sentaram  sombra de uma rvore. Os gmeos Weasley
e Lino Jordan faziam ccegas nos tentculos de uma lula gigantesca,
que tomava sol na gua mais rasa.
- Acabaram-se as revises - suspirou Rony, contente, esticando-se
na grama. - Voc podia fazer uma cara mais alegre, Harry,
temos uma semana inteira at descobrir se nos demos mal, no
precisa se preocupar agora.
Harry esfregava a testa.
- Eu gostaria de saber o que significa isso! - explodiu aborrecido. - Minha
cicatriz no pra de doer, j senti isso antes, mas nunca com tanta freqncia.
- Procure Madame Pomfrey - sugeriu Hermione.
- Eu no estou doente - respondeu Harry. - Acho que  um
aviso... significa que o perigo est se aproximando...
Rony no conseguiu se preocupar, estava quente demais.
- Harry, relaxe. Hermione tem razo, a Pedra est segura enquanto
Dumbledore estiver por aqui. Em todo o caso, nunca encontramos
nenhuma prova de que Snape tenha descoberto como
passar por Fofo. Ele quase teve a perna arrancada uma vez, no
vai tentar outra to cedo. E Neville vai jogar quadribol na equipe
da Inglaterra antes que Hagrid traia Dumbledore.
Harry concordou, mas no conseguiu se livrar da sensao que
o atormentava de que esquecera de fazer alguma coisa, algo importante.
Quando tentou explicar o que sentia, Hermione disse:
- Isso so os exames. Acordei a noite passada e j tinha lido
metade dos meus apontamentos sobre Transfigurao quando
me lembrei que j tnhamos feito a prova.
Harry tinha certeza de que a sensao de inquietude no tinha
nada a ver com os estudos. Acompanhou com os olhos uma coruja
planar pelo cu azul em direo  escola, uma carta no bico.
Hagrid era o nico que Lhe mandava cartas. Hagrid jamais trairia
Dumbledore. Hagrid jamais contaria a ningum como passar por
Fofo... jamais... mas...
Harry ps-se de p de um salto.
- Onde  que voc est indo? - perguntou Rony sonolento.
- Acabei de me lembrar de uma coisa. - Estava branco. - Temos que ver
Rbeo agora.
-Por qu?- ofegou Hermione, correndo para alcan-lo.
- Vocs no acham um pouco estranho - disse Harry, subindo,
s carreiras, a encosta gramada - que o que Rbeo mais quer
na vida  um drago, e aparece um estranho que por acaso tem
ovos de drago no bolso, quando isso  contra as ieis dos bruxos?
Que sorte encontrar Rbeo, no acham? Por que no percebi isto
antes?
- Do que  que voc est falando? - perguntou Rony, mas
Harry, correndo pelos jardins em direo  floresta, no respondeu.
Hagrid estava sentado em um cadeiro na frente da casa: tinha
as pernas das calas e as mangas enroladas e descascava ervilhas em uma grande tigela.
- Ol - disse, sorrindo. - Terminaram os exames? Tm tempo para
um refresco?
- Temos, obrigado - disse Rony, mas Harry o interrompeu.
- No, estamos com pressa, Rbeo, preciso lhe perguntar
uma coisa. Sabe aquela noite que voc ganhou o Norberto? Que
cara tinha o estranho com quem voc jogou cartas?
- No lembro - respondeu Hagrid com displicncia -, ele
no quis tirar a capa...
Viu os trs fazerem cara de espanto e ergueu as sobrancelhas.
- No  nada de mais, tem muita gente esquisita no Hog's
Head, o pub do povoado. Podia ser um vendedor de drages, no
podia? Nunca vi a cara dele, ele no tirou o capuz.
Harry se abaixou ao lado da tigela de ervilhas.
- O que foi que voc conversou com ele, Rbeo? Chegou a
mencionar Hogwarts?
- Talvez - disse Hagrid, franzindo a testa, tentando se lembrar.
- ... ele me perguntou o que eu fazia e eu respondi que era
guarda-caa aqui... Depois perguntou de que tipo de bichos eu
cuidava... ento eu disse... e disse tambm que o que sempre quis
ter foi um drago... ento... no me lembro muito bem... porque
ele no parava de pagar bebidas para mim... Deixa eu ver... ah,
sim, ento ele disse que tinha um ovo de drago, e que podamos
disput-lo num jogo de cartas se eu quisesse... mas precisava ter
certeza de que eu podia cuidar do bicho, no queria que ele fosse
parar num asilo de velhos... Ento respondi que depois do Fofo,
um drago seria moleza...
- E ele pareceu interessado no Fofo? - perguntou Harry, tentando
manter a voz calma.
- Bom... pareceu... quantos cachorros de trs cabeas a pessoa encontra
por a, mesmo em Hogwarts? Ento contei a ele que
Fofo  uma doura se a pessoa sabe como acalm-lo,  s tocar
um pouco de msica e ele cai no sono...
Hagrid, de repente, fez cara de horrorizado.
- Eu no devia ter-lhe dito isto! - exclamou. - Esqueam que
eu disse isto! Ei, aonde  que vocs vo?
Harry, Rony e Hermione no se falaram at parar no saguo
de entrada, que parecia muito frio e sombrio depois da caminhada
pelos jardins.
- Temos de procurar Dumbledore - falou Harry. - Rbeo
contou quele estranho como passar por Fofo e quem estava debaixo daquela capa era ou o Snape ou o Voldemort, deve ter sido
fcil, depois que embebedou Rbeo. S espero que Dumbledore
acredite na gente. Firenze talvez confirme, se Agouro no o impedir.
Onde  a sala de Dumbledore?
Eles olharam a toda volta, na esperana de ver uma placa
apontando a direo certa. Nunca algum lhes havia dito onde
trabalhava Dumbledore, tampouco conheciam algum que tivesse sido
mandado  sala dele.
- Acho que teremos de... - comeou Harry, mas inesperadamente ouviram uma voz do outro lado do saguo.
- Que  que vocs esto fazendo aqui dentro?
Era a Profa. Minerva McGonagall, carregando uma pilha
de livros.
- Queremos ver o Prof. Dumbledore - disse Hermione enchendo-se
de coragem, pensaram Harry e Rony.
- Ver o Prof. Dumbledore? - a Profa. Minerva repetiu, como
se isso fosse uma coisa muito suspeita para algum querer fazer. -
Por qu?
Harry engoliu em seco - e agora?
-  uma espcie de segredo - disse, mas desejou na mesma
hora que no tivesse dito, porque as narinas da Profa. Minerva se
alargaram.
- O Prof. Dumbledore saiu faz dez minutos - informou ela
secamente. - Recebeu uma coruja urgente do Ministro da Magia
e partiu em seguida para Londres.
- Ele saiu? - exclamou Harry frentico. - Agora?
- O Prof. Dumbledore  um grande mago, Potter, o tempo
dele  muito solicitado.
- Mas  importante.
- Alguma coisa que voc tenha a dizer  mais importante do
que o Ministro da Magia, Potter?
- Olhe - disse Harry, mandando a cautela s favas -, professora...
 sobre a Pedra Filosofal...
Seja o que for que a Profa. Minerva esperava, certamente no
era isso. Os livros que levava despencaram dos seus braos mas
ela no os apanhou.
- Como  que vocs sabem? - deixou escapar.
- Professora, acho... sei... que Sn... que algum vai tentar roubar
a pedra. Preciso falar com o Prof. Dumbledore.
Ela o olhou com uma mescla de choque e desconfiana.
- O Prof. Dumbledore volta amanh - disse finalmente. -
No sei como descobriu sobre a Pedra, mas fique tranquilo, no 
possvel ningum roub-la, est muitssimo bem protegida.
-Mas, professora...
-Potter, sei do que estou falando. - Curvou-se e recolheu os livros
cados. - Sugiro que vocs voltem para fora e aproroveitem o sol.
Mas eles no voltaram.
-  hoje  noite - disse Harry, quando teve certeza de que a
Profa. Minerva no podia mais ouvi-los. - Snape vai enttar no alapo
hoje  noite. Ele j descobriu tudo o que precisa e agora tirou
Dumbledore do caminho. Foi ele quem mandou aquela carta,
aposto que o Ministro da Magia vai levar um choque quando
Dumbledore aparecer.
- Mas o que  que podemos...
Hermione perdeu a fala. Harry e Rony se viraram.
Snape estava parado ali.
-Boa tarde- disse com suavidade.
Eles o encararam.
- Vocs no deviam estar dentro do castelo num dia como
este - falou com um sorriso estranho e torto.
-Estvamos... -comeou Harry, sem fazer idia do que ia dizer.
- Vocs precisam ter mais cuidado. Andando por aqui assim,
as pessoas vo pensar que esto armando alguma coisa. E Grifinria
realmente no pode se dar ao luxo de perder mais nenhum
ponto, no  mesmo?
Harry corou. Viraram-se para sair, mas Snape os chamou de
volta.
- E fique avisado, Potter, se ficar perambulando outra vez 
noite, vou providenciar pessoalmente para que seja expulso. Bom
dia para vocs.
E saiu em direo  sala de prorofessores.
L fora, nos degraus de pedra, Harry virou-se para os outros.
- Certo, isto  o que vamos fazer - cochichou com urgncia.
- Um de ns tem que ficar de olho no Snape, esperar do lado de
fora da sala de professores e segui-lo se ele sair. Hermione,  melhor voc fazer isso.
- Por que eu?
-  bvio - disse Rony - Voc pode fingir que est esperando pelo Prof. Flitwick, sabe, como . - E fazendo voz de falsete:
- "Ah, Prof. Flitwick. Estou to preocupada, acho que errei a
questo catorze b..."
- Ah, cala a boca - disse Hermione, mas concordou em vigiar Snape.
- E  melhor ficarmos no corredor do terceiro andar - disse
Harry a Rony - Vamos.
Mas aquela parte do plano no funcionou. Assim que chegaram  porta que separava Fofo do resto da escola, a Profa.
Minerva apareceu de novo, e desta vez perdeu as estribeiras.
- Suponho que voc ache que  mais dificil algum passar por
voc do que por um pacote de feitios! - esbravejou. - Chega de
bobagens! E se eu souber que voc voltou aqui outra vez, vou
descontar mais cinqenta pontos de Grifinria! , Weasley, da
minha prpria casa!
Harry e Rony voltaram  sala comunal. Harry acabara de dizer
"pelo menos Hermione est na cola de Snape", quando o retrato
da Mulher Gorda se abriu e Hermione entrou.
- Sinto muito, Harry! - lamentou-se. - Snape saiu e me perguntou
o que eu estava fazendo, ento disse que estava esperando
Flitwick, e Snape foi busc-lo, e me mandei, no sei aonde ele foi.
- Bom, ento acabou-se, no ? - disse Harry.
Os outros dois olharam para ele. Estava plido e seus olhos
brilhavam.
- Vou sair daqui hoje  noite e vou tentar apanhar a Pedra
prmeiro.
- Voc ficou maluco! - exclamou Rony
- Voc no pode! - disse Hermione. - Depois do que a Profa.
Minerva e Snape disseram? Vai ser expulso!
- E DA? - gritou Harry. - Vocs no percebem? Se Snape
apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocs no ouviram contar
como era quando ele estava tentando conquistar o poder? No vai
haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou
transform-la numa escola de magia negra! Perder pontos no
importa mais, vocs no entendem? Acham que ele vai deixar
vocs e suas famlias em paz, se Grifinria ganhar o campeonato
das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter
que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar l.
 s uma questo de morrer um pouquinho depois do que teria
morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidrios da magia
negra! Vou entrar naquele alapo hoje  noite e nada que vocs
dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, esto
lembrados?
E olhou zangado para eles.
- Voc tem razo, Harry - disse Hermione com uma vozinha
fraca.
- Vou usar a capa da invisibilidade. Foi uma sorte t-la recuperado.
-Mas ela d para esconder ns trs? - perguntou Rony.
-Ns... ns trs?
- Ah, corta essa, voc no acha que vamos deixar voc ir sozinho?
- Claro que no - disse Hermione com energia. - Como acha
que vai chegar  Pedra sem nsp.  melhor eu dar uma olhada nos
meus livros, talvez encontre alguma coisa til...
- Mas se formos pegos, vocs dois vo ser expulsos tambm.
- No se eu puder evitar - disse Hermione sria. - Flitwick
me disse em segredo que tirei cento e vinte por cento no exame.
No vo me expulsar depois disso.
Depois do jantar os trs se sentaram, nervosos, a um canto do salo comunal. Ningum os incomodou; afinal nenhum aluno de
Grifinria tinha mais nada a dizer a Harry. Esta era a primeira noite
que isto no o incomodava. Hermione folheava seus apontamentos, esperando encontrar um dos feitios que queriam anular.
Harry e Rony no falavam muito. Pensavam no que estavam prestes a fazer.
A sala foi-se esvaziando,  medida que as pessoas iam se
deitar.
-  melhor apanhar a capa - murmurou Rony, quando Lino
Jordan finalmente saiu, se espreguiando e bocejando. Harry correu
at o dormitrio s escuras. Puxou a capa e ento seus olhos
bateram na flauta que Hagrid lhe dera no Natal. Meteu-a no bolso
para us-la em Fofo - no se sentia muito animado a cantar.
E correu de volta ao salo comunal.
-  melhor vestirmos a capa aqui para ter certeza de que cobre
ns trs. Se Filch vir os ps da gente andando sozinhos...
- O que  que vocs esto fazendo? - perguntou uma voz a
um canto da sala. Neville saiu de trs de uma poltrona, agarrando
Trevo, o sapo, que parecia ter feito uma nova tentativa para ganhar
a liberdade.
- Nada, Neville, nada - respondeu Harry, escondendo depressa a capa s costas.
Neville olhou bem para aquelas caras cheias de culpa.
- Vocs vo sair outra vez.
- No, no, no - disse Hermione. - No vamos, no. Por
que voc no vai se deitar, Neville?
Harry olhou para o relgio de parede junto  porta. No podiam se
dar ao luxo de perder mais tempo, Snape talvez estivesse
naquele instante mesmo tocando para adormecer Fofo.
- Vocs no podem sair - disse Neville -, vocs vo ser pegos outra vez. Grifinria vai ficar ainda mais
enrolada.
- Voc no compreende - disse Harry. - Isto  importante.
Mas Neville estava claramente tomando coragem para fazer
alguma coisa desesperada.
- No vou deixar vocs irem - disse, correndo a se postar
diante do buraco do retrato. - Eu... eu vou brigar com vocs.
-Neville-explodiu Rony-, se afaste desse buraco e no banque o idiota...
- No me chame de idiota! Acho que voc no devia estar
desrespeitando mais regulamentos! E foi voc quem me disse
para enfrentar as pessoas!
- Foi, mas no ns - respondeu Rony exasperado. - Neville,
voc no sabe o que est fazendo.
Ele deu um passo  frente e Neville largou Trevo, o sapo, que 
desapareceu de vista.
- Vem, ento, tenta me bater! - disse Neville, erguendo os punhos. - Estou esperando!
Harry voltou-se para Hermione.
-Faz alguma coisa-pediu desesperado.
Hermione se adiantou.
- Neville - disse ela -, eu realmente lamento muito.
Ela ergueu a varinha.
- Petrificus Totalus! - falou, apontando para Neville.
Os braos de Neville grudaram dos lados do corpo. As pernas se
juntaram. Com o corpo inteiro rgido, ele balanou no
mesmo lugar e, em seguida, caiu de cara no cho, duro como
uma pedra.
Hermione correu para desvir-lo. Os maxilares de Neville estavam trancados de modo que ele no podia falar. Somente os
olhos se moviam, mirando-os aterrorizados.
- O que foi que voc fez com ele? - sussurrou Harry.
- O Feitio do Corpo Preso - respondeu Hermione infeliz. Ah, Neville, me desculpe.
- Tivemos de fazer isso, Neville, no temos tempo para explicar- disse
Harry.
- Voc vai entender mais tarde - disse Rony, enquanto passavam por
cima dele e se envolviam na capa da invisibilidade.
Mas deixar Neville deitado imvel no cho no parecia um
bom pressgio. No estado de nervosismo em que estavam, cada
sombra de esttua lembrava Filch, cada sopro distante do vento
parecia o Pirraa assombrando-os.
Ao p do primeiro lance de escada, encontraram Madame
Nor-r-ra, esquivando-se sorrateira quase no alto.
- Ah, vamos dar um pontap nela, s desta vez - cochichou
Rony no ouvido de Harry, mas Harry balanou a cabea. Enquanto
subiam cautelosamente contornando a gata, Madame
Nor-r-ra virou os olhos de lanterna para eles, mas no fez nada.
No encontraram mais ningum at chegarem  escada para o
terceiro andar. O Pirraa se balanava a meio caminho, soltando a
passadeira para as pessoas tropearem.
- Quem est a- perguntou de repente quando se aproximaram.
 E apertou os olhos negros e malvados. - Sei que est a, mesmo
que no consiga v-lo. Voc  um vampiro, um fantasma ou
um estudante nojento?
E ergueu-se no ar e flutuou, tentando ver algum.
- Eu devia chamar o Filch, eu devia, se alguma coisa est andando
por a invisvel.
Harry teve uma idia repentina.
- Pirraa - disse num sussurro rouco -, o baro Sangrento
tem suas razes para andar invisvel.
Pirraa quase caiu, em choque. Recuperou-se a tempo e saiu
planando a trinta centmetros dos degraus.
- Desculpe, Sua Sanginidade, Sr. Baro, cavalheiro - disse untuoso.
- Falha minha, falha minha, no o vi, claro que no, o senhor
est invisvel. Perdoe ao velho Pirraa essa piadinha - cavalheiro.
- Tenho negcios a tratar aqui, Pirraa - crocitou Harry. - Fique
longe deste lugar hoje  noite.
- Vou ficar, cavalheiro, pode ter certeza de que vou ficar -
prometeu o Pirraa, erguendo-se no ar outra vez. - Espero que os
seus negcios corram bem, Baro, no vou perturb-lo.
E partiu ligeirinho.
- Genial, Harry! - cochichou Rony.
Alguns segundos depois, estavam l, no corredor do terceiro
andar- e a porta j fora aberta.
- Bom, aqui estamos - disse Harry baixinho. - Snape j passou por Fofo.
A viso da porta aberta por alguma razo parecia causar neles
a impresso do que os aguardava. Debaixo da capa, Harry se virou
para os outros dois.
- Se vocs quiserem voltar, no vou culp-los. Podem levar a
capa, no vou precisar dela agora.
- No seja burro - respondeu Rony.
- Vamos com voc - disse Hermione.
Harry empurrou a porta.
Quando a porta rangeu baixinho, chegaram aos seus ouvidos
rosnados surdos. Os trs focinhos do cachorro farejaram furiosamente
em sua direo ainda que o bicho no pudesse v-los.
- O que  isso nos ps dele? - sussurrou Hermione.
- Parece uma harpa -respondeu Rony - Snape deve t-la deixado a.
- Ele acorda no momento que se deixa de tocar - disse Harry.
- Bom, aqui vai...
Levou a flauta de Hagrid aos lbios e soprou. No era realmente uma msica, mas s primeiras notas os olhos da fera comearam
a se fechar. Harry nem chegou a tomar flego. Lentamente, os rosnados do cachorro cessaram - ele balanou nas patas e
caiu de joelhos, depois estirou-se no cho, completamente adormecido.
- Continue tocando - Rony preveniu a Harry enquanto saam
de baixo da capa e deslizavam para o alapo. Sentiram o bafo
quente e fedorento do cachorro ao se aproximarem de suas cabeorras.
- Acho que vamos conseguir abrir a porta - disse Rony, espiando por cima do dorso do cachorro. - Quer entrar primeiro,
Hermione?
- No, eu no!
- Tudo bem - Rony cerrou os dentes e passou com cautela
pelas pernas do cachorro. E abaixando-se puxou o anel do alapo, que se abriu.
- O que  que voc est vendo? - perguntou Hermione, ansiosa.
- Nada... s escurido... no tem como descer, teremos que
nos jogar.
Harry, que continuava a tocar a flauta, fez sinal para atrair a
ateno de Rony e apontou para si mesmo.
- Voc quer ir primeiro? Tem certeza? - disse Rony. - No
sei qual  a profundidade dessa coisa. D a flauta para Hermione
manter Fofo adormecido.
Harry passou a flauta a ela. Naqueles minutinhos de silncio,
o cachorro rosnou e se mexeu, mas no instante que Hermione comeou
a tocar, ele tornou a cair em sono profundo.
Harry passou por cima de Fofo e espiou pelo alapo. No
viu nem sinal de fundo.
Baixou o corpo pelo buraco at ficar pendurado pelas pontas
dos dedos. Ento olhou para Rony no alto e disse:
- Se alguma coisa acontecer comigo, no me siga. V direto
ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo?
- Certo.
- Vejo voc daqui a pouco, espero...
E Harry soltou os dedos. Um vento frio e mido passou rpido por ele, que foi caindo, caindo, caindo e...
Pam. Com um baque engraado e surdo ele bateu em alguma
coisa macia. Sentou-se e apalpou  volta, os olhos desacostumados
 escurido. Parecia que estava sentado em uma espcie de planta.
- Tudo bem! - gritou para a claridade do tamanho de um
selo l no alto, que era o alapo aberto. - A queda  macia,
pode pular!
Rony seguiu-o imediatamente. Caiu esparramado ao lado de
Harry.
- O que  isso? - foram suas primeiras palavras.
- Sei l, uma espcie de planta. Suponho que esteja aqui para
amortecer a queda. Venha, Hermione!
A msica distante parou. Ouviu-se um latido alto do cchorro,
mas Hermione j pulara. Ela. caiu do outro lado de Harry.
-Devemos estar a quilmetros abaixo da escola- comentou.
-  realmente uma sorte que esta planta esteja aqui - disse
Rony.
- Sorte! - gritou Hermione. - Olhem s para vocs dois.
Ela se levantou de um salto e lutou para chegar  parede mida.
Teve de lutar porque, no momento em que chegou ao fundo, a planta
comeou a se enroscar como as gavinhas de uma trepadeira em
volta dos seus tormozelos. Quanto a Harry e Rony, suas pernas j tinham
sido bem atadas por longos galhos sem que eles notassem.
Hermione conseguira se desvencilhar antes que a planta a
agarrasse para valer. Agora observava horrorizada os dois meninos lutarem
para
se livrar da planta, mas quanto mais se esforavam,
mais deproressa e mais firme a planta se enrolava neles.
- Parem de se mexer! - mandou Hermione. - Sei o que  isso.
 visgo do diabo!
-Ah, fico to contente que voc saiba como se chama,  uma
grande ajuda - resmungou Rony, tentando impedir que a planta 
se enroscasse em seu pescoo.
- Cala a boca, estou tentando me lembrar como mat-la! -
disse Hermione.
- Bom, anda logo, no consigo respirar! - ofegava Harry, lutando
com a planta que se enroscava em torno de seu peito.
- Visgo do diabo, visgo do diabo... o que foi que o professor
SpYout disse? Gosta da umidade e da escurido...
- Ento acenda um fogo! - engasgou-se Harry.
- ...  claro... mas no tem madeira... - lamentou-se
Hermione, torcendo as mos.
- VOC ENLOUQUECEU? - berrou Rony - VOC  UMA BRUXA
OU NO ?
- Ah, certo! - disse Hermione e, puxando a varinha, sacudiu-
a, murmurou alguma coisa e despachou um jato daquelas chamas
azuis que usara em Snape contra as plantas. Em questo de segundos,
os dois meninos sentiram a planta afrouxar e se encolher para
longe da luz e do calor. Torcendo-se, ela se desenrolou dos corpos
dos meninos, que puderam se levantar.
- Que sorte que voc presta ateno s aulas de Herbologia,
Hermione - disse Harry, quando se juntou a ela ao p da parede,
enxugando o suor do rosto.
-  - comentou Rony -, e que sorte que Harry no perde a
cabea numa crise, "no tem madeira", francamente.
- Por ali - disse Harry, apontando um corredor de pedra que
era o nico caminho que havia..
S o que podiam ouvir alm de seus passos eram os pingos
abafados da gua que escorria pela parede. O corredor comeou
a descer e Harry se lembrou de Gringotes. Com um sobressalto,
lembrou-se dos drages que, segundo diziam, guardavam os cofres-fortes no banco dos bruxos. Se topassem com um drago,
um drago adulto... Norberto j fora bastante ruim.
- Voc est ouvindo alguma coisa? - Rony cochichou.
Harry apurou os ouvidos. Um farfalhar acompanhado de rudo metlico
parecia vir de um ponto mais adiante.
- Voc acha que  um fantasma?
- No sei... para mim parecem asas.
- H luz  frente, estou vendo alguma coisa se mexendo.
Chegaram ao fim do corredor e depararam com uma cmara
muito iluminada, o teto abobadado no alto. Era cheia de passarinhos,
brilhantes como jias, que esvoaavam e colidiam pelo aposento. Do
lado oposto da cmara havia utna pesada porta de madeira.
- Voc acha que nos atacaro se atravessarmos a cmara? -
perguntou Rony
- Provavelmente - respondeu Harry. - Eles no parecem
muito bravos, mas suponho que se todos mergulhassem ao mesmo tempo... Bom, no tem remdio... vou correr.
Tomou flego, cobriu o rosto com os braos e atravessou a
cmara correndo. Esperava sentir bicos afiados e garras atacando-
o a qualquer minuto, mas nada aconteceu. Alcanou a porta inclume.
Baixou a maaneta, mas a porta estava trancada.
Os outros dois o seguiram. Fizeram fora para abrir a porta,
mas ela nem sequer se moveu, nem mesmo quando Hermione
experimentou o seu feitio de Alorromora.
- E agora? - perguntou Rony
- Esses pssaros... no podem estar aqui s para enfeitar -
disse Hermione.
Eles observaram os pssaros voando no alto, brilhando - brilhando.
- Eles no so pssaros! - Harry exclamou de repente. - So
chaves! Chaves aladas, olhe com ateno. Ento isso deve querer
dizer... - e olhou  volta da cmara enquanto os outros dois apertavam os olhos para enxergar o bando de chaves no alto. - ,
olhe! Vassouras! Temos que apanhar a chave da porta.
Mas eram centenas!
Rony examinou a fechadura.
- Estamos procurando uma chave bem grande e antiga, provavelmente
de prata, como a maaneta.
Cada um apanhou uma vassoura e deu impulso no ar, mirando
o meio da nuvem de chaves. Tentaram agarr-las mas as chaves
encantadas fugiam e mergulhavam to rpido que era quase impossvel
apanhar uma.
Mas no era  toa que Harry era o mais jovem apanhador do
sculo. Tinha um jeito para localizar coisas que os outros no
tinham. Depois de um minuto tranando pelo redemoinho de penas,
ele notou uma chave grande de prata que tinha uma asa dobrada,
como se j tivesse sido apanhada e enfiada de qualquer jeito na fechadura.
- Aquela ali! - gritou para os outros. - Aquela grandona... ali...
no... l... com as asas azul-forte. As penas esto todas amassadas
de um lado.
Rony precipitou-se na direo que Harry apontava, bateu no
teto e quase caiu da vassoura.
- Temos que cerc-la! - gritou Harry, sem tirar os olhos da
chave com a asa danificada. - Rony, voc cerca por cima.
Hermione, fica embaixo e no deixa ela descer, e eu vou tentar
peg-la. Certo, AGoRa!
Rony mergulhou, Hermione disparou para o alto, a chave
desviou-se dos dois e Harry partiu atrs dela; a chave correu para
a parede, Harry se curvou para a frente e, com uma pancada feia,
prendeu-a contra a pedra com a mo. Os vivas de Rony e Hermione ecoaram pela cmara.
Eles pousaram em seguida e Harry correu para a porta, a chave a se debater em sua mo. Enfiou-a na fechadura e virou-a - deu
certo. No instante em que ouviram o barulho da lingeta se abrindo, a chave tornou a alar vo,
parecendo agora muito maltratada
depois de ter sido apanhada duas vezes.
- Esto prontos? - Harry perguntou aos dois, a mo na maaneta da porta. Eles
fizeram um sinal afirmativo com a cabea. Ele
escancarou a porta.
A cmara seguinte era to escura que no dava para ver absolutamente nada. Mas, ao entrarem nela, a luz inesperadamente
inundou o aposento, revelando uma cena surproreendente.
Estavam parados na borda de um enorme tabuleiro de xadrez
atrs das peas pretas, que erarn todas mais altas do que eles e talhadas
em um material que parecia pedra. De frente para eles, do
outro lado da cmara, estavam dispostas as peas brancas. Harry,
Rony e Hermione sentiram um leve arrepio - as peas brancas e
altas no tinham feies.
-Agora o que vamos fazer? - sussurrou Harry.
-  bvio, no ? - falou Rony. - Temos que jogar para chegar ao outro lado da cmara.
Por trs das peas brancas eles podiam ver outra porta.
- Comop - perguntou Hermione, nervosa.
-Acho que vamos ter que virar peas.
Ele se dirigiu a um cavalo preto e esticou a mo para tocar seu
cavaleiro. No mesmo instante, a pedra ganhou vida. O cavalo
pateou o tabuleiro e seu cavaleiro virou a cabea protegida por
um elmo para olhar Rony
- Temos que nos unir a vocs para chegar ao outro lado?
O cavaleiro preto confirmou com a cabea. Rony virou-se
para os outros dois.
- Isto exige reflexo - disse. - Suponho que a gente tenha que
tomar o lugar de trs peas pretas...
Harry e Hermione ficaram quietos, observando Rony refletir.
Finalmente ele disse:
-Agora no vo se ofender, mas nenhum dos dois  to bom
assim em xadrez...
- No estamos ofendidos - interrompeu Harry depressa. -
Diga o que vamos fazer.
- Bom, Harry, voc toma o lugar daquele bispo e, Hermione,
voc fica ao lado dele substituindo a torre.
- E voc?
- Vou ser o cavaleiro.
As peas pareciam estar escutando, porque ao ouvir isso um
cavaleiro, um bispo e uma torre deram as costas s peas brancas
e saram do tabuleiro, deixando trs casas vazias, que Harry, Rony
e Hermione ocuparam.
- No xadrez as brancas sempre jogam primeiro - explicou
Rony, observando o tabuleiro. - ... olhem...
Um peo branco avanara duas casas.
Rony comeou a comandar as peas pretas. Elas se mexiam
em silncio indo aonde eram mandadas. Os joelhos de Harry tremiam. E se
perdessem?
- Harry, ande quatro casas para a direita em diagonal.
O primeiro choque de verdade que levaram foi quando o outro cavalo foi comido. A rainha branca esmagou-o no cho e arrastou-o para fora do
tabuleiro, onde ele ficou deitado imvel, de
borco no cho.
- Ele vai ficar bem - disse Harry, tentando convencer a si
mesmo. - Que  que voc acha que vai acontecer agora?
-Tivemos o feitio de Sprout, o visgo do diabo. Flitwick deve
ter encantado as chaves. McGonagall transfigurou as
peas de xadrez para lhes dar vida. Faltam o feitio de Quirrell e o de Snape.
Tinham chegado  outra porta.
- Tudo bem? - cochichou Harry.
- Vamos.
Harry empurrou a porta para abri-la.
Um fedor horrvel entrou por suas narinas, fazendo os dois
puxarem as vestes para cobrir o nariz. Os olhos lacrimejando, eles
viram, deitado no cho diante deles, um trasgo ainda maior do
que o que tinham enfrentado, desacordado e com um calombo
ensangentado na cabea.
- Que bom que no precisamos lutar contra este a - sussurrou Harry, enquanto, cautelosamente, saltavam por cima da perna
macia do trasgo. - Vamos, no estou conseguindo respirar.
Harry abriu a porta seguinte, os dois mal se atreviam a olhar o
que vinha a seguir-mas no havia nada muito assustador ali, apenas
uma mesa e sobre ela sete garrafas de formatos diferentes em fila.
-  o de Snape - disse Harry. - O que temos de fazer?
Ao cruzarem a soleira da porta, imediatamente irromperam
chamas atrs deles. E no eram chamas comuns, tampouco; eram
roxas. Ao mesmo tempo, surgiam chamas pretas na porta adiante.
Estavam encurralados.
- Olhe! - Hermione apanhou um rolo de papel que havia ao
lado das garrafas. Harry espiou por cima do seu ombro para ler
o papel:

O perigo o aguarda  frente, a segurana ficou atrs,
Duas de ns o ajudaremos no que quer encontrar,
Uma das sete o deixar prosseguir,
A outra levar de volta quem a beber,
Duas de ns contero vinho de urtigas,
Trs de ns aguardam em filapara o matar,
Escolha, ou ficar aquipara sempre,
E para ajud-lo, lhe damos quatro pistas:
Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno,
Voc sempre encontrar um  esquerda do vinho de urtigas;
Segunda, so diferentes asgarrafas de cada lado,
Mas se voc quizer avanar nenhuma  sua amiga;
Terceira,  visvel que temos tamanhos diferentes,
Nem an nem giganta leva a morte no bojo;
Quarta, a segunda  esquerda e a segunda  direita
So gmeas ao paladar, embora diferentes  vista.

Hermione deixou escapar um grande suspiro e Harry, perplexo, viu que ela sorria, a ltima coisa que ele tinha vontade de fazer. !
- Genial- disse. - Isto no  mgica,  lgica, uma charada. A
maioria dos grandes bruxos no tem um pingo de lgica, ficariam
presos aqui para sempre.
- E ns tambm, no?
- Claro que no. Tudo o que precisamos est aqui neste papel.
Sete garrafas: trs contm veneno; duas, vinho; uma nos ajudar a
passar a salvo pelas chamas negras; e uma nos levar de volta atravs das chamas roxas.
- Mas como vamos saber qual delas beber?
- Me d um minuto.
Hermione leu o papel diversas vezes. Depois passou em revista a fila de garrafas, para cima e para baixo, resmungando de si
para si e apontando para as garrafas. Finalmente, bateu palmas.
-J sei. A garrafa menor nos far atravessar as chamas negras,
rumo  pedra.
Harry mirou a garrafinha.
- Ali s tem o suficiente para um de ns. No chega a ter
um gole.
Eles se entreolharam.
- Qual  a que a far voltar pelas chamas roxas?
Hermione apontou para uma garrafa arredondada na ponta
direita da fila .
- Voc bebe essa-disse Harry. -Agora, escute, volte e recolha o
Rony, apanhe vassouras na cmara das chaves aladas, elas levaro
vocs para fora do alapo e por cima de Fofo. Vo direto ao corujal
e mandem Edwiges a Dumbledore, precisamos dele. Talvez eu possa
segurar Snape por algum tempo, mas no sou preo para ele.
- Mas Harry, e se Voc-Sabe-Quem estiver com ele?
- Bom... tive sorte uma vez, no tive? - falou Harry indicando
a cicatriz. -Talvez tenha sorte outra vez.
A boca de Hermione estremeceu e ela correu de repente para
Harry e o abraou.
- Hermione!
- Harry, voc  um grande bruxo, sabe?
- No sou to bom quanto voc - disse Harry, muito sem
graa, quando ela o largou.
- Eu! Livros! E inteligncia! H coisas mais importantes, amizade e
bravura e, ah, Harry, tenha cuidado!
- Voc bebe primeiro - disse Harry - Voc tem certeza de
qual  qual, no tem?
- Positivo.
Ela tomou um demorado gole da garrafa arredondada na
ponta e estremeceu.
-No  veneno?-perguntou Harry ansioso.
-No... mas parece gelo.
- Vai logo antes que o efeito passe.
-Boa sorte... cuide-se...
- VAI!
Hermione virou-se e passou direto pelas chamas roxas.
Harry tomou flego e apanhou a garrafa menor de todas. Virou-se para encarar as chamas negras.
- Aqui vou eu - disse e esvaziou a garrafinha de um gole s.
Era na verdade como se o gelo estivesse invadindo seu corpo.
Ele deixou a garrafa na mesa e avanou; enchendo-se de coragem,
viu as chamas negras lamber seu corpo mas no as sentiu - por
um instante no viu nada a no ser as chamas negras - ento viu
que estava do outro lado, na ltima cmara.
Havia algum l - mas no era Snape. Tampouco Voldemort.


CAPTULO DEZESSETE
O homem de duas caras

Era Quirrell.
- O senhor!- exclamou Harry.
Quirrell sorriu. Seu rosto no tinha nenhum tique.
- Eu - disse calmamente - estive me perguntando se encontraria voc aqui, Potter.
- Mas pensei... Snape...
- Severo? - Quirrell deu uma gargalhada e no era aquela
gargalhadinha tremida de sempre, era fria e cortante. - , Severo
faz o tipo, no faz? To til t-lo esvoaando por a como um
morcego. Perto dele, quem suspeitaria do c-c-coitado do gagaguinho do P-Prof. Quirrell?
Harry no conseguia assimilar. Isto no podia ser verdade,
no podia.
- Mas Snape tentou me matar!
- No, no, no. Eu tentei mat-lo. Sua amiga Hermione
Granger, por acaso, me empurrou quando estava correndo para
tocar fogo no Snape naquela partida de quadribol. Ela interrompeu
o meu contato visual com voc. Mais uns segundos e eu o teria
derrubado daquela vassoura. Teria conseguido isso antes se
Snape no ficasse murmurando um antifeitio, tentando salv-lo.
- Snape estava tentando me salvar?
-  claro - disse Quirrell calmamente. - Por que voc acha
que ele queria apitar o prximo jogo? Ele estava tentando garantir
que eu no repetisse aquilo. O que na realidade  engraado...
ele nem precisava ter se dado ao trabalho. Eu no poderia fazer
nada com Dumbledore assistindo. Todos os outros professores
acharam que Snape estava tentando impedir Grifinria de ganhar,
ele conseguiu realmente se tornar impopular... e que perda de tempo,
se depois disso vou mat-lo esta noite.
Quirrell estalou os dedos. Surgiram no ar cordas que amarraram Harry bem apertado.
- Voc  muito metido para continuar vivo, Potter. Sair correndo pela escola no Dia das Bruxas daquele jeito e, pelo que
imaginei, me viu descobrir o que  que estava guardando a pedra.
- O senhor deixou o trasgo entrar?
- Claro que sim. Tenho um talento especial para lidar com
trasgos. Voc deve ter visto o que fiz com aquele na cmara l
atrs? Infelizmente, enquanto o resto do pessoal estava procurando
o trasgo, Snape, que j desconfiava de mim, foi direto ao terceiro
andar para me afastar, e no s o meu trasgo no conseguiu
matar voc de pancada, como o cachorro de trs cabeas nem sequer
conseguiu morder a perna de Snape direito. Agora espere a
quieto. Preciso examinar este espelho curioso.
Foi somente ento que Harry percebeu o que estava parado
atrs de Quirrell. Era o Espelho de Ojesed.
- Este espelho  a chave para encontrar a pedra - murmurou
Quirrell, batendo de leve na moldura. - Pode-se confiar em
Dumbledore para inventar uma coisa dessas... mas ele est em
Londres... E estarei bem longe quando voltar.
A nica coisa que ocorreu a Harry foi manter Quirrell falando para impedi-lo de se concentrar no espelho.
- Vi o senhor e Snape na floresta - falou de um flego s.
- Sei - disse Quirrell indiferente, dando a volta ao espelho
para examinar o avesso. - Naquela altura ele j percebera minhas
intenes, e tentava descobrir at onde eu tinha ido. Suspeitou de
mim o tempo todo. Tentou me assustar, como se fosse possvel,
quando tenho Lord Voldemort do meu lado...
Quirrell saiu de trs do espelho e mirou-o cheio de cobia.
- Estou vendo a Pedra... Eu a estou apresentando ao meu
mestre... mas onde  que ela est?
Harry forou as cordas que o prendiam, mas elas no cederam.
Tinha que impedir Quirrell de dedicar toda a ateno ao espelho.
-Mas Snape sempre pareceu me odiar tanto.
- Ah, e odeia mesmo - disse Quirrell, displicente -, e como
odeia. Ele estudou em Hogwarts com o seu pai, voc no sabia?
Os dois se detestavam. Mas ele nunca quis ver voc morto.
- Mas ouvi o senhor soluando, h uns dias. Pensei que Snape
estava ameaando o senhor...
Pela primeira vez, um espasmo de medo passou pelo rosto de
Quirrell.
- s vezes, eu tenho dificuldade em seguir as instrues do
meu mestre. Ele  um grande mago e eu sou fraco.
- O senhor quer dizer que ele estava na sala de aula com o senhorp - exclamou Harry admirado.
- Est comigo aonde quer que eu v - disse Quirrell em voz
baixa. - Conheci-o quando estava viajando pelo mundo. Eu era
um rapaz tolo naquela poca, cheio de idias ridculas sobre o
bem e o mal. Lord Voldemort me mostrou como eu estava errado.
No existe bem nem mal, s existe o poder, e aqueles que so
demasiado fracos para o desejarem... Desde ento, eu o tenho servido com fidelidade, embora o desaponte muitas vezes. Por isso
tem precisado ser muito severo comigo - Quirrell estremeceu de
repente. - No perdoa erros com muita facilidade. Quando no
consegui roubar a pedra de Gringotes, ele ficou muito aborrecido.
Me castigou... resolveu me vigiar mais de perto...
A voz de Quirrell foi morrendo. Harry lembrou-se de sua viagem ao Beco Diagonal - como podia ter sido to burro? Ele vira
Quirrell l naquele dia, apertara a mo dele no Caldeiro Furado.
Quirrell praguejou baixinho.
- Eu no entendo... a Pedra est dentro do espelho? Devo
quebr-lo?
A cabea de Harry pensava a mil.
"O que quero acima de tudo no mundo, neste momento, 
encontrar a Pedra antes que Quirrell a encontre. Ento se me
olhar no espelho, devo me ver encontrando a Pedra - o que quer
dizer que verei onde est escondida! Mas como posso me olhar
sem Quirrell perceber o que estou tramando?"
Harry tentou se deslocar para a esquerda, para se posicionar
diante do espelho sem Quirrell notar, mas as cordas que prendiam
seus tornozelos estavam muito apertadas: ele tropeou e caiu.
Quirrell no lhe deu ateno. Continuou falando sozinho.
- O que  que o espelho faz? Como  que ele funciona? Me
ajude, mestre.
E para horror de Harry, uma voz respondeu, e a voz parecia
vir do prprio Quirrell.
- Use o menino... Use o menino...
Quirrell voltou-se para Harry.
- ... Potter, vem c.
E bateu palmas uma vez e as cordas que prendiam Harry caram. Harry
se levantou sem pressa.
- Vem c - repetiu Quirrell. - Olhe no espelho e me diga o
que v.
Harry foi at ele.
"Preciso mentir", pensou desesperado. "Preciso olhar e men tir sobre o que vejo,  isso."
Quirrell aproximou-se de Harry pelas costas. Harry respirou
o cheiro esquisito que parecia vir do turbante de Quirrell. Fechou
os olhos, adiantou-se para se postar na frente do espelho, e tornou
a abri-los.
A princpio viu a sua imagem, plida e apavorada. Mas um segundo depois, a imagem sorriu para ele. Levou a mo ao bolso e
tirou uma pedra cor de sangue. A piscou e devolveu a pedra ao
bolso - e ao fazer isto, Harry sentiu uma coisa pesada cair dentro
do seu bolso de verdade. De alguma forma - inacreditvel - estava
deposse da Pedra.
- E entop - perguntou Quirrell impaciente. - O que  que
voc est vendo?
Harry armou-se de coragem.
- Estou me vendo apertando a mo de Dumbledore - inventou. - Ganhei... o campeonato das casas para Grifinria.
Quirrell xingou outra vez.
- Saia do meu caminho - disse. Quando Harry se afastou,
sentiu a Pedra Filosofal comprimir sua coxa. Ser que tinha coragem para tentar fugir?
Mas no dera cinco passos quando uma voz alta falou, embora
os lbios de Quirrell no estivessem se mexendo.
- Ele est mentindo... Ele est mentindo...
- Potter, volte aqui! - gritou Quirrell. - Diga-me a verdade! O
que foi que voc acabou de ver?
A voz alta tornou a falar.
- Deixe-me falar com ele... cara a cara...
- Mestre, o senhor no est bastante forte!
- Estou bastante forte... para isso...
Harry se sentiu como se o visgo do diabo o tivesse pregado
no cho. No conseguia mover nem um msculo. Petrificado, viu
Quirrell erguer os braos e comear a desenrolar o turbante. Que
estava acontecendo? O turbante caiu. A cabea de Quirrell parecia estranhamente pequena sem ele. Ento ele virou de costas sem
sair do lugar.
Harry poderia ter gritado, mas no conseguiu produzir nem
um som. Onde deveria estar a parte de trs da cabea de Quirrell,
havia um rosto, o rosto mais horrvel que Harry j vira.
Era branco-giz com intensos olhos vermelhos e fendas no lugar das narinas,
como uma capa .
- Harry Potter... - falou o rosto.
Harry tentou dar um passo atrs mas suas pernas no obedeceram.
- Est vendo no que me transformeip - disse o rosto.
- Apenas uma sombra vaporosa... S tenho forma quando posso compartir o corpo de algum... mas sempre houve gente disposta a me
deixar entrar no seu corao e na sua mente... O sangue do unicrnio me
fortaleceu, nessas ltimas semanas... voc viu o fiel
Quirrell bebendo-o por mim na floresta... e uma vez que eu tenha
o elixir da vida, poderei criar um corpo s meu... Agora... por que
voc no me d essa pedra no seu bolso?
Ento ele sabia. A sensibilidade voltou repentinamente s
pernas de Harry Ele cambaleou para trs.
- No seja tolo - rosnou o rosto. -  melhor salvar sua vida e
se unir a mim... ou vai ter o mesmo fim dos seus pais... Eles morreram suplicando piedade...
- Mentira! - gritou Harry inesperadamente.
Quirrell estava andando de costas para ele, de modo que
Voldemort pudesse v-lo. O rosto malvado sorria agora.
- Que comovente... - sibilou. - Sempre dei valor  coragem...
, menino, seus pais foram corajosos... Matei seu pai primeiro e
ele me enfrentou com coragem... mas sua me no precisava ter
morrido... estava tentando proteg-lo... Agora me d a pedra, a
no ser que queira que a morte dela tenha sido em vo.
- NurrcA!
Harry saltou para a porta em chamas, mas Voldemort gritou:
- Agarre-o! - E, no instante seguinte, Harry sentiu a mo de
Quirrell fechar-se em torno de seu pulso. E, ao mesmo tempo,
uma dor fina como uma agulhada queimou sua cicatriz; parecia
que sua cabea ia se rachar em dois; ele berrou, lutando com todas
as foras e, para sua surpresa, Quirrell largou-o. A dor em sua cabea
diminuiu, ele olhou alucinado  volta para ver onde fora
Quirrell e o viu dobrar de dor, examinando os dedos, eles se enchiam de bolhas, diante dos seus olhos.
- Agarre-o! Agarre-o! - esganiou-se Voldemort outra vez e
Quirrell investiu, derrubando Harry no cho, caindo por cima
dele, as duas mos apertando o pescoo do menino, a cicatriz de
Harry quase o cegava de dor, contudo ele via Quirrell urrar de
agonia.
-Mestre, no posso segur-lo. Minhas mos. Minhas mos!
E Quirrell, embora prendendo Harry no cho com os joelhos, largou seu pescoo e arregalou os olhos, perplexo, para as
palmas das mos - elas pareciam queimadas, vermelhas, em carne viva.
- Ento mate-o, seu tolo, e acabe com isso! - guinchou
Voldemort.
Quirrell levantou a mo para jogar uma praga letal, mas
Harry, por instinto, esticou as mos e agarrou a cara de Quirrell.
- AAAAAI!
Quirrell saiu de cima dele, seu rosto se encheu de bolhas tambm,
e ento Harry entendeu: Quirrell no podia tocar sua pele,
sem sofrer dores terrveis - sua nica chance era dominar Quirrell, 
causar-lhe dor suficiente para impedi-lo de lanar feitios.
Harry ficou em p de um salto, agarrou Quirrell pelo brao e
segurou-o com toda a fora que pde. Quirrell berrou e tentou se
desvencilhar - a dor na cabea de Harry estava aumentando - ele
no conseguia enxergar-ouvia os gritos terrveis de Quirrell e os
berros de Voldemort "MATE-O! MATE-O!" e outras vozes, talvez ,
dentro de sua prorpria cabea, chamando "Harry! Harry!"
Sentiu o brao de Quirrell desprender-se com foxa de sua
mo, teve certeza de que tudo estava perdido e mergulhou na escurido,
cada vez mais profunda.
Alguma coisa dourada estava brilhando logo acima dele. O pomo!
Tentou agarr-lo, mas seus braos estavam muito pesados.
Piscou os olhos. No era o pomo. Eram culos. Que estranho.
Piscou os olhos outra vez. O rosto sorridente de Alvo Dumbledore
entrou em foco curvado sobre ele.
-Boa tarde, Harry- disse Dumbledore.
Harry fixou o olhar nele. Ento se lembrou:
-Professor! A Pedra! Foi Quirrell! Ele apanhou a Pedra! Professor, depressa...
- Acalme-se, menino, voc est um pouco atrasado. Quirrell
no apanhou a Pedra.
- Ento quem a apanhou?, professor?, eu...
- Harry, por favor, relaxe ou Madame Pomfrey vai mandar
me expulsar.
Harry engoliu em seco e olhou a sua volta. Percebeu que devia
estar na ala do hospital. Achava-se deitdo numa cama com
lenis de linho brancos e do seu lado havia uma mesa atulhada
do que parecia ser a metade da loja de doces.
- Presentes dos seus amigos e admiradores - esclareceu
Dumbledore, sorrindo. - Aquilo que aconteceu nas masmorras
entre voc e o professor Quirrell  segredo absoluto, por isso, 
claro, a escola inteira j sabe. Acredito que os nossos amigos, os
Srs. Fred e Jorge Weasley, foram os responsveis pela tentativa de
lhe mandar um assento de vaso sanitrio. Com certeza acharam
que voc ia achar engraado. Madame Pomfrey, porm, achou
que poderia ser pouco higinico e o confiscou.
- H quanto tempo estou aqui?
-Trs dias. O Sr. Ronald Weasleye a Srta. Grangervo se sentir muito aliviados por voc ter voltado a si, estavam muitssimo
preocupados.
-Mas, professor, a Pedra...
- J vi que voc no se deixa distrair. Muito bem. A Pedra. O
Prof. Quirrell no conseguiu tir-la de voc. Cheguei a tempo de
impedir que isto acontecesse, embora voc estivesse se defendendo
muito bem sozinho, devo dizer.
- O senhor chegou l? Recebeu a coruja de Hermione?
- Devemos ter cruzado no ar. Assim que cheguei a Londres,
tornou-se claro para mim que o lugar onde deveria estar era aquele de onde acabara de sair. Cheguei a tempo de tirar Quirrell de
cima de voc...
- Ento foi o senhor.
- Receei que tivesse chegado tarde demais.
- Quase chegou, eu no poderia ter mantido Quirrell afastado da Pedra por muito mais tempo...
- No da Pedra, menino, de voc. O esforo que voc fez
quase o matou. Por um instante terrvel, receei que tivesse matado.
Quanto  Pedra, ela foi destruda.
- Destruda! - exclamou Harry sem entender. - Mas o seu
amigo... Nicolau Flamel...
- Ah, voc j ouviu falar no Nicolau? - perguntou Dumbledore,
parecendo encantado. - Voc fez mesmo a coisa certa, no
foi? Bom, Nicolau e eu tivemos uma conversinha e concordamos
que assim era melhor.
- Mas isto quer dizer que ele e a mulher vo morrer, no ?
- Eles tm elixir suficiente para deixar os negcios em ordem
e ento, , eles vo morrer.
Dumbledore sorriu ao ver a expresso de surpresa no rosto
de Harry.
- Para algum jovem como voc, tenho certeza de que isto
parece incrvel, mas para Nicolau e Perenelle, na verdade,  como
se fossem deitar depois de um dia muito, muito longo. Afinal,
para a mente bem estruturada, a morte  apenas a grande aventura
seguinte. Voc sabe, a Pedra no foi uma coisa to boa assim.
Todo o dinheiro e a vida que a pessoa poderia querer! As duas coisas que
a maioria dos seres humanos escolheriam em primeiro lugar. O problema  que os humanos tm o condo de escolher
exatamente as coisas que so piores para eles.
Harry ficou ali deitado, sem encontrar o que responder.
Dumbledore cantarolou um pouquinho e sorriu para o teto.
- Professor? - disse Harry. - Estive pensando... professor.
Mesmo que a Pedra tenha sido destruda, Vol... quero dizer, o Se nhor-Sabe-Quem...
- Chame-o de Voldemort. Sempre chame as coisas pelo nome
que tm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si.
- Sim, senhor. Bem, Voldemort vai tentar outrs maneiras de
voltar, no vai? Quero dizer, ele no foi de vez, foi?
- No, Harry, no foi. Continua por a em algum lugar, talvez
procutando outro corpo para compartir... sem estar propriamente vivo,
ele no pode ser morto. Abandonou Quirrell  morte; ele
demonstra a mesma falta de piedade tanto com os amigos quanto
com os inimigos. No entanto, Harry, embora voc talvez tenha
apenas retardado a volta dele ao poder, da prxima vez s precisaremos
de outro algum que esteja preparado para lutar o que
parece ser uma batalha perdida. E se ele for retardado repetidamente,
ora, talvez nunca retome o poder.
Harry concordou com um gesto, mas parou na mesma hora,
porque o aceno fez-lhe doer a cabea. Ento disse:
- Professor, h outras coisas que gostaria de saber, se o senhor
puder me dizer... coisas que eu gostaria de saber a verdade...
- A verdade - suspirou Dtunbledore -  uma coisa bela e terrvel,
e portanto deve ser tratada com grande cautela. Mas, vou
responder s suas perguntas, a no ser que haja uma boa razo
para no faz-lo, caso em que eu peo que me perdoe. No vou, 
claro, mentir.
- Bom... Voldemort disse que s matou minha me porque
ela tentou impedi-lo de me matar. Mas por qu, afinal, ele iria querer
me matar?
Dumbledore suspirou muito profundamente desta vez.
- Que pena, a primeira coisa que voc me pergunta, eu no
vou poder responder. No hoje. No agora. Voc vai saber, um
dia... por ora tire isso da cabea, Harry. Quando voc for mais velho... Sei que detesta ouvir isso... mas quando estiver pronto, voc
vai saber.
E Harry entendeu que no ia adiantar insistir.
- Mas por que Quirrell no podia me tocar?
- Sua me morreu para salvar voc. Se existe uma coisa que
Voldemort no consegue compreender  o amor. Ele no entende que
um amor forte como o de sua me por voc deixa uma
marca prpria. No  uma cicatriz, no  um sinal visvel... ter sido
amado to profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou j
tenha morrido, nos confere uma proteo eterna. Est entranhada
em nossa pele. Por isso Quirrell, cheio de dio, avareza e ambio,
compartindo a alma com Voldemort, no podia toc-lo. Era
uma agonia tocar uma pessoa marcada por algo to bom.
Ento, Dumbledore se interessou muito por um passarinho
no peitoril da janela, o que deu tempo a Harry para enxugar os
olhos com o lenol. Quando recuperou a voz, disse:
- E a capa da invisibilidade? O senhor sabe quem a mandou
para mim?
- Ah, por acaso seu pai deixou-a comigo e eu achei que voc
talvez gostasse. - Os olhos de Dumbledore faiscaram. - Coisas
teis... seu pai usava-a principalmente para ir escondido s cozinhas roubar comida, quando estava aqui.
- E tem mais uma coisa...
- Diga.
- Quirrell disse que Snape...
- O Prof. Snape, Harry.
- Sim, senhor, ele... Quirrell disse que ele me odeia porque
odiava meu pai. Isso  verdade?
- Bom, eles se detestavam bastante. Mas no  diferente de
voc com o Sr. Malfoy E, alm disso, seu pai fez uma coisa que
Snape nunca pde perdoar.
- O qu? 
- Salvou a vida dele.
- O qu?
- ... - disse Dumbledore sonhador. -  engraado como a
cabea das pessoas funciona, no ? O Prof. Snape no conseguiu
suportar o fato de estar em dvida com o seu pai. Acredito que 
tenha se esforado para proteger voc este ano, porque achou que
isso o deixaria quite com o seu pai. Assim podia voltar a odiar a
memria do seu pai em paz...
Harry tentou compreender mas sentiu a cabea latejar, por
isso parou.
- E, professor, s mais uma coisa...
- S essa?
- Como foi que tirei a Pedra do espelho?
- Ah, fico satisfeito que voc tenha me perguntado. Foi uma
das minhas idias mais brilhantes, e c entre ns, isto  alguma
coisa. Sabe, s uma pessoa que quisesse encontrar a Pedra, encontrar
sem us-la, poderia obt-la; de outra forma, a pessoa s iria se
ver produzindo ouro e bebendo elixir da vida. O meu crebro s
vezes surpreende at a mim... Agora chega de perguntas. Sugiro
que comece a comer esses doces. Ah, feijezinhos de todos os sabores!
Quando eu era moo tive a infelicidade de encontrar um
com gosto de vmito, e desde ento receio que tenha perdido o
gosto por eles. Mas acho que no corro perigo com um gostoso
caramelo, no achap - E sorrindo jogou um feijozinho caramelo
escuro na boca. Ento se engasgou e disse:
- Que pena! Cera de ouvido!
Madame Pomfrey, a encarregada do hospital, era uma boa pessoa,
mas muito rigorosa.
- S cinco minutos - suplicou Harry.
-Absolutamente no.
-A senhora deixou o Prof. Dumbledore entrar.
-Bom,  claro, ele  o diretor,  muito diferente. Voc precisa
desccansar.
- Estou descansando, olhe, deitado e tudo. Ah, por favor,
Madame Pomfrey.
-Ah, muito bem. Mas s cinco minutos.
E ela deixou Rony e Hermione entrarem.
- Harry!
Hermione parecia prestes a abra-lo outra vez, mas Harry
gostou que tivesse se contido porque a cabea dele ainda estava
muito doda.
-Ah, Harry, ns estvamos certos que voc ia... Dumbledore
estava to preocupado...
- A escola inteira no fala em outra coisa - disse Rony - Mas,
no duro, o que foi que aconteceu?
Era uma das raras ocasies em que a histria verdadeira  ainda
mais estranha e excitante do que os boatos fantsticos. Harry
contou tudo: Quirrell; o espelho; a Pedra e Voldemort.
Rony e Hermione eram bons ouvintes; exclamavam nas horas
certas e quando Harry lhes disse o que havia sob o turbante de
Quirrell, Hermione soltou um grito.
- Ento a Pedra acaboup - perguntou Rony finalmente. -
Flamel simplesmente vai morrer?
- Foi o que perguntei, mas Dumbledore acha que... como foi
mesmo?... que para a mente bem estruturada a morte  a grande
aventura seguinte.
- Eu sempre disse que ele era biruta - disse Rony, parecendo
muito impressionado com a grande loucura do seu heri.
- Ento o que aconteceu com vocs dois? - perguntou Harry
- Bom, eu voltei sem problemas - disse Hermione. - Fiz
Rony voltar a si, isso levou algum tempo, e estvamos correndo
para o corujal para nos comunicar com Dumbledore quando o
encontramos no saguo de entrada, ele j sabia, e s disse "Harry
foi atrs dele, no foi?", e saiu desabalado para o terceiro andar.
- Voc acha que ele queria que voc fizesse aquilo? - perguntou
Rony - Mandou a capa do seu pai e tudo o mais?
- Bom! - explodiu Hermione. - Se ele fez isso... quero dizer... isso  horrvel... voc podia ter sido morto.
- No, no  horrivel - disse Harry, pensativo. - Ele  um
homem engraado, o Dumbledore. Acho que meio que queria me 
dar uma chance. Acho que sabe mais ou menos tudo o que acontece por aqui, sabe? Imagino que tivesse uma boa idia do que
amos tentar fazer e em lugar de nos impedir, ele simplesmente ensinou
o suficiente para nos ajudar. No acho que tenha sido por
acaso que me deixou descobrir como o espelho funcionava. Era
quase como se pensasse que eu tinha o direito de enfrentar
Voldemort se pudesse...
- , a marca de Dumbledore, com certeza - disse Rony orgulhoso.
- Olhe, voc precisa estar bom para a festa de fim de
ano, amanh. Os pontos j foram todos computados e Sonserina
ganhou,  claro. Voc faltou ao ltimo jogo de quadribol, fomos
estraalhados por Corvinal sem voc. Mas a comida vai ser legal.
Nesse instante, Madame Pomfrey irrompeu no quarto.
- Vocs j esto a h quinze minutos, agora Foa - disse
com firmeza.
Depois de uma boa noite de sono, Harry se sentiu quase normal.
- Quero ir  festa - disse a Madame Pomfrey, quando ela estava
arrumando suas muitas caixas de doces. - Posso, no posso?
- O Prof. Dumbledore disse que devo deixar voc ir - respondeu
ela fungando, como se, na sua opinio, o Prof. Dumbledore
no percebesse os riscos que uma festa pode oferecer. - E voc
tem outra visita.
- Que bom. Quem ?
Hagrid foi-se esgueirando pela porta enquanto Harry indagava.
Em geral quando estava dentro de casa, Hagrid parecia demasiado
grande para que o deixassem entrar. Sentou-se ao lado de
Harry, deu uma olhada e caiu no choro.
- ... tudo... minha... culpa! - soluou, o rosto nas mos. - Eu
informei ao mal como passar por Fofo! Eu informei! Era a nica
coisa que ele no sabia e eu informei! Voc podia ter morrido!
Tudo por causa de um ovo de drago! Nunca mais vou beber! Eu
devia ser demitido e mandado viver como trouxa!
- Rbeo! - chamou Harry chocado por v-lo sacudir de tristeza
e remorso, as grandes lgrimas se infiltzando pela barba. -
Rbeo, ele teria descoberto de qualquer maneira, estamos falando
de Voldemort, teria descoberto mesmo que voc no tivesse informado.
- Mas voc podia ter morrido! - soluou Hagrid - E no diga
o nome dele!
- VoLDEMort! - berrou Harry, e Hagrid levou um choque
to grande que parou de chorar.
- Estive com ele cara a cara e vou cham-lo pelo nome que
tem. Por favor, anime-se, Rbeo, salvamos a Pedra, ela foi
destruda e ele no poder us-la. Coma um sapo de chocolate.
Tenho um monto...
Hagrid secou o nariz com o dorso da mo e disse:
-Ah, isso me lembra. Trouxe um presente para voc.
- No  um sanduche de carne de arminho, ? - perguntou
Harry ansioso e, finalmente, Hagrid deu uma risadinha.
- No, Dumbledore me deu folga ontem para eu providenciar.
Claro, devia mais  ter me demitido. Em todo o caso, trouxe
isto para voc...
Parecia ser um belo livro encadernado em couro. Harry
abriu-o, curioso. Estava cheio de retratos de bruxos. De cada pgina,
sorrindo e acenando para ele, estavam sua me e seu pai.
- Mandei corujas para todos os velhos amigos de escola de
seu pai e sua me, pedindo fotos... Eu sabia que voc no tinha
nenhuma... Gostou?
Harry nem conseguiu falar, mas Hagrid compreendeu.
Harry desceu para a festa de fim de ano sozinho aquela noite.
Atrasara-se com os cuidados de Madame Pomfrey, que insistiu
em lhe fazer um ltimo check-up, de modo que o salo principal
j se enchera. Estava decorado com as cores de Sonserina, verde e
prata, para comemorar sua conquista do campeonato das casas -
pelo stimo ano consecutivo. Uma enorme bandeira com a serpente
de Sonserina cobria a parede atrs da mesa principal.
Quando Harry entrou, houve um silncio momentneo e em
seguida todos comearam a falar alto e ao mesmo tempo. Ele se 
sentou discretamente numa cadeira entre Rony e Hermione 
mesa da Grifinria e tentou fingir que no via as pessoas se levantarem
para espi-lo.
Felizmente, Dumbledore chegou instantes depois. A algazarra
foi serenando.
- Mais um ano que passou! - disse Dumbledore alegremente.
- E preciso incomodar vocs com a falao asmtica de um
velho antes de cairmos de boca nesse delicioso banquete. E que
ano tivemos! Espero que as suas cabeas estejam um pouquinho
menos ocas do que antes... vocs tm o vero inteiro para esvazi-
las muito bem, antes do prximo ano letivo.
"Agora, pelo que entendi, a taa das casas deve ser entregue e
a contagem de pontos  a seguinte: em quarto lugar Grifinria,
com trezentos e doze pontos; em terceiro, Lufa-lufa, com trezentos
e cinqenta e dois pontos; Corvinal, com quatrocentos e vinte
e seis; e Sonserina com quatrocentos e setenta e dois pontos."
E uma tempestade de ps e mos batendo irrompeu da mesa
de Sonserina. Era uma cena nauseante.
- Sim, senhores, Sonserina est de parabns. No entanto, temos
de levar em conta os recentes acontecimentos.
A sala. mergulhou em profundo silncio.
- Tenho alguns pontos de ltima hora para conferir. Vejamos.
Sim...
- Primeiro: ao Sr. Ronald Weasley ..
O rosto de Rony se coloriu de vermelho vivo; parecia um rabanete
que apanhara sol demais na praia.
...pelo melhor jogo de xadrez presenciado por Hogwarts em
muitos anos, eu confiro  Grifinria cinqenta pontos.
Os vivas da Grifinria quase levantaram o teto encantado; as
estrelas l no alto pareceram estremecer. Ouviram Percy dizer aos
outros monitores: " o meu irmo, sabem! O meu irmo caula!
Venceu uma partida no jogo vivo de xadrez de MacGonagall!
Finalmente voltaram a fazer silncio.
- Segundo:  Senhorita Hermione Granger... pelo uso de lgica
inabalvel diante do fogo, concedo  Grifinria cinqenta
pontos.
Hermione escondeu o rosto nos braos; Harry teve a forte
suspeita de que cara no choro. Os alunos da Grifinria por toda a
mesa no cabiam em si de contentes - tinham subido cem pontos.
-Terceiro: ao Sr. Harry Potter. -A sala ficou mortalmente silenciosa.
- Pela frieza e excepcional coragem, concedo 
Grifinria sessenta pontos.
A balbrdia foi ensurdecedora. Os que conseguiam somar
enquanto berravam de ficar roucos sabiam que Grifinria agora
chegara a quatrocentos e setenta e dois pontos - exatamente o
mesmo que Sonserina. Precisariam sortear a taa das casas - se ao
menos Dumbledore tivesse dado a Harry mais um pontinho.
Dumbledore ergueu a mo. A sala gradualmente se aquietou.
- Existe todo tipo de coragem - disse Dumbledore sorrindo.
-  preciso muita audcia para enfrentarmos os nossos inimigos,
mas igual audcia para defendermos os nossos amigos. Portanto,
concedo dez pontos ao Sr. Neville Longbottom.
Algum que estivesse do lado de fora do salo principal poderia
ter pensado que ocorrera uma exploso, to alta foi a barulheira
que irrompeu na mesa da Grifinria. Harry, Rony e
Hermione se levantaram para gritar e dar vivas enquanto
Neville, branco de susto, desaparecia debaixo de uma montanha
de gente que o abraava. Jamais ganhara um nico ponto para
Grifinria antes. Harry, ainda gritando, cutucou Rony nas costelas
indicando Malfoy, que no poderia ter feito uma cara mais
perplexa e horrorizada se tivesse acabado de ser encantado com
o Feitio do Corpo Preso.
- O que significa - continuou Dumbledore procurando se
sobrepor  tempestade de aplausos, porque at Corvinal e Lufa-
lufa estavam comemorando a derrota de Sonserina - que precisamos
fazer uma pequena mudana na decorao.
E, dizendo isto, bateu palmas. Num instante, os panos verdes
se tornaram vermelhos e, os prateados, dourados; a grande serpente
de Sonserina desapareceu e o imponente leo da Grifinria
tomou o seu lugar. Snape apertou a mo da Profa. Minerva, com
um horrivel sorriso amarelo. Seu olhar encontrou o de Harry e o
menino percebeu, no mesmo instante, que os sentimentos de
Snape com relao a ele no tinham mudado nem um pingo. Isto
no o preocupou. Parecia-lhe que sua vida voltaria ao normal no
prximo ano, ou to normal quanto ela poderia ser em Hogwarts.
Foi a melhor noite da vida de Harry, melhor do que a vitria.
no quadribol ou a ceia de Natal ou o encontro com o trasgo... jamais
esqueceria esta noite.
Harry quase esquecera que os resultados dos exames ainda estavam
por vir, mas eles no deixaram de vir. Para sua grande surpresa,
tanto ele quanto Rony passaram com boas notas; Hermione, 
claro, foi a melhor do ano. At Neville passou raspando, sua boa
nota em Herbologia compensou a pssima nota em Poes. Tinham
tido esperanas de que Goyle, que era quase to burro
quanto era mau, fosse expulso, mas ele tambm passou. Foi uma
pena, mas como disse Rony, no se podia ter tudo na vida.
E, de repente, seus guarda-roupas ficaram vazios, os males
arrumados, o sapo de Neville foi encontrado escondido em um
canto do banheiro; as notas foram entregues a todos os alunos,
com o aviso de que no fizessem bruxarias durante as frias ("Eu
sempre tenho a esperana de que eles se esqueam de entregar as
notas e o aviso" - lamentou Fred Weasley); Hagrid estava a postos
para lev-los  flotilha de barcos que fazia a travessia do lago;
e, no momento seguinte, estavam embarcando no Expresso de
Hogwarts; conversando e rindo  medida que os campos se tornavam mais verdes e mais cuidados; comendo feijezinhos de todos
os sabores enquanto atravessavam as cidades dos trouxas; trocando
as vestes de bruxos pelos bluses e palets; parando na plataforma
nove e meia na estao de King's Cross.
Levou um bom tempo para todos desembarcarem na plataforma.
Um guarda muito velho estava postado na sada e os deixava
passar em grupos de dois e trs para no chamarem ateno
ao irromper todos ao mesmo tempo por uma parede slida, assustando
os trouxas.
- Vocs precisam vir passar uns dias conosco - disse Rony -
Os dois. Vou mandar uma coruja para vocs.
- Obrigado - disse Harry - Preciso ter alguma coisa por que
esperar.
As pessoas passavam empurrando-os ao se dirigirem para a
sada para o mundo dos trouxas. Alguns gritavam:
-Tchau, Harry!
- Nos vemos por a, Potter!
- Continua famoso - comentou Rony, sorrindo para o amigo.
- No aonde eu vou, posso lhe garantir.
Ele, Rony e Hermione passaram juntos pelo porto.
- Olha l ele, mame, olha l ele, olha!
Era Gina Weasley, a irmzinha de Rony, mas no apontava
para Rony.
- Harry Potter! - gritou com a vozinha fina. - Olhe, mame!
Estou vendo...
- Fique quieta, Gina,  falta de educao apontar.
A Sra. Weasley sorriu para eles.
-Muito trabalho este ano?
- Muito - respondeu Harry. - Obrigado pelas barrinhas de
chocolate e pela suter, Sra. Weasley.
-Ah, de nada, querido.
- Est pronto?
Era tio Vlter, ainda com a cara vermelhona, ainda bigodudo,
ainda parecendo furioso com a audcia de Harry de andar carregando
uma coruja numa gaiola por uma estao cheia de gente
normal. Atrs dele, achavam-se tia Petnia e Duda, parecendo
aterrorizados s de olhar para Harry.
- Vocs devem ser a famlia de Harry! - falou a Sra. Weasley.
-Por assim dizer- respondeu tio Vlter. - Ande logo, menino, no temos o dia inteiro. - E se afastou.
Harry ainda demorou para trocar uma ltima palavrinha com
Rony e Hermione.
- Vejo vocs durante as frias, ento.
- Espero que voc tenha... h... umas boas frias - disse
Hermione, olhando hesitante para tio Vlter, espantada que algum
pudesse ser to desagradvel.
-Ah, claro que sim- respondeu Harry, e eles ficaram surpresos
com o sorriso que se espalhava pelo seu rosto. - Eles no sabem
que no podemos fazer bruxarias em casa. Vou me divertir 
bea com o Duda este vero...


***FIM***

